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Vitorino avisa UE para vagas de refugiados do Médio Oriente. "Eles não vão para a lua. Preparem-se"

20 mar, 2026 - 08:45 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização) , João Pedro Quesado (vídeo) , Rita Gonçalves (vídeo)

O antigo diretor da Organização Internacional de Migrações prevê que a Europa vai ficar sob pressão com os deslocados do Golfo e do Médio Oriente e que também Portugal vai sentir efeitos. "Tem bom remédio. Preparem-se", alerta. Sobre a Ucrânia, o socialista pressiona a UE para aprovar o pacote de ajuda à Ucrânia e evitar fragilidades na linha da frente.

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Vitorino avisa UE para vagas de refugiados do Médio Oriente. "Eles não vão para a lua. Preparem-se"
Vitorino avisa UE para vagas de refugiados do Médio Oriente. "Eles não vão para a lua. Preparem-se"

António Vitorino avisa a União Europeia (UE) – incluindo Portugal – que pode estar para breve uma nova vaga de refugiados, provocada pela guerra no Médio Oriente, e que os 27 não estão prevenidos para lidar com uma crise desse tipo. “Para a lua é que eles não vão. Se [a UE] não está preparada, tem bom remédio. Prepare-se”, alerta no programa da Renascença, Escala Global.

O antigo diretor da Organização Internacional de Migrações (OIM) relembra que há cerca de três milhões de deslocados no Irão e outro milhão no Líbano, que podem começar a pressionar os fluxos migratórios para a Europa. E, se isso acontecer, Vitorino prevê que a capacidade de resposta dos 27 fique abaixo das necessidades – e com pouco apoio por parte da Organização das Nações Unidas (ONU).

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“A começar pelos Estados Unidos e pela Agência de Ajuda ao Desenvolvimento, mas também dos países europeus, todos cortaram nos orçamentos de ajuda humanitária. Neste momento, o que se prevê é que o orçamento total de ajuda humanitária das Nações Unidas não esteja financiado nem a 20%. Não tem grande margem de manobra para, de repente, fazer face a uma crise humanitária”, antevê.

Ainda antes do conflito no Médio Oriente, vários países da UE – como Alemanha, Países Baixos, Áustria, Dinamarca e Grécia – criaram um grupo de trabalho para acelerar a construção de instalações fora da Europa para receber imigrantes ilegais. Na leitura de António Vitorino, este mecanismo não compensa o esforço – traz poucos resultados palpáveis e obriga a Europa, segundo o antigo ministro, a uma “enorme complexidade logística” e a afastar-se dos valores europeus.

“Acho que não tínhamos que pagar o preço do opróbio de nos distanciarmos da Convenção de Genebra de 1951 e das regras do direito humanitário internacional para obter resultados que vão ser manifestamente um 'flop'”, lamenta.

Quanto aos efeitos que uma eventual vaga de refugiados pode ter em Portugal, Vitorino é claro: apesar de o grau de exposição ser “menor”, as consequências acabam sempre por chegar, nem que seja pelas responsabilidades financeiras assumidas com Bruxelas.

“Tudo o que seja disrupção do funcionamento das sociedades europeias por fluxos massivos de chegada, mais cedo ou mais tarde, também impacta na sociedade portuguesa”, considera.

Já na leitura de Manuel Poêjo Torres, comentador residente no Escala Global, o contexto de uma crise humanitária pode trazer “atores nefastos” que se “infiltram” em caravanas com migrantes para chegarem até à Europa e colocarem em risco a “segurança” de certas nações. Para este analista, a solução seria uma – organizar uma missão internacional. Mas não há consenso na ONU para avançar com essa hipótese.

“Infelizmente, estamos em transição para uma ordem em mosaicos. A China com a Rússia, com o Irão, toma decisões de forma mais célere. O Reino Unido, a França e a Alemanha também. Os Estados Unidos com aqueles que atraem para o seu centro de poder. Uma missão humanitária era desejável se houvesse condições e se os fóruns internacionais e as nações conseguissem dar réplica, mas hoje em dia será muito difícil”, ressalva.

O "balão de oxigénio" da Rússia

Entre as consequências laterais do conflito no Médio Oriente, António Vitorino destaca a “fragilidade” em que pode ficar a Ucrânia: desde logo, pela suspensão das negociações de paz, mas também pelo levantamento de sanções ao petróleo russo pelos Estados Unidos.

“Praticamente a despesa pública russa estava reduzida à despesa de guerra, porque todas as outras despesas orçamentais já não tinham cabimento e o Estado russo não tinha condições de financiamento externo. Agora, neste momento, com o levantamento das sanções, é óbvio que a Rússia vai ter aqui um balão de oxigênio que vai aproveitar naquilo que é para ela prioritário, que é o combate na Ucrânia”, avisa.

Nesse sentido, Vitorino apela a aprovação em Bruxelas do pacote de ajuda à Ucrânia de 90 mil milhões de euros, mais uma vez travado pela Hungria esta quinta-feira.

A sustentação interna na Ucrânia é fundamental para garantir a operacionalidade militar, sem uma coisa não pode ir sem a outra ”, vinca, dizendo que para os entraves húngaros há pouco a fazer se não dialogar. “Esse impedimento existe desde sempre”.

Ainda em questões europeias, o antigo ministro da Defesa pressiona a Europa a construir soluções estruturais para fazer face a uma eventual crise energética – mais do que um pacote de urgência, Vitorino sugere que é preciso criatividade, para evitar que a subida nos preços dos combustíveis e no gás dê espaço às narrativas que tentam travar a transição energética.

“Há uma grande divisão entre os europeus, entre aqueles que querem manter o sistema, dos quais Portugal, e os que pretendem uma revisão em baixa dos objetivos da descarbonização. Neste momento, eu diria que a divisão está 50-50”, assinala, pedindo responsabilidade e visão na discussão atual.

“A boa pergunta é se as exceções e as revisões que se vão fazer, visam verdadeiramente aqueles setores onde a Europa pode ser mais competitiva ou são maneiras de salvar indústrias que provavelmente já estão condenadas. E um exemplo mais sensível é, obviamente, o da indústria automóvel. A Europa perdeu já a corrida dos veículos elétricos”.

Trump não pára já. "Está a testar limites do poder"

Sobre as ameaças de Donald Trump aos aliados europeus a propósito do estreito de Ormuz, António Vitorino faz uma avaliação globalmente positiva da recusa europeia em mobilizar meios navais para aquela zona, mas avisa também que não é profícuo adotar uma postura demasiado hostil em relação aos Estados Unidos.

“É uma via estreita. Os europeus – que não se querem devolver numa guerra que não é deles, não foram consultados – não podem também hesitar sobre a iniquidade do regime iraniano e o facto de os Estados Unidos terem uma peça essencial da NATO”, defende.

Já sobre o objetivo da operação dos EUA e Israel, o antigo ministro da Defesa considera que Washington acabou arrastado para o conflito por Telaviv – e que, nas entrelinhas, há sinais de que Donald Trump não está interessado numa mudança de regime.

Sem ‘boots on the ground’, sem presença no terreno, não se fazem mudanças de regime. Aparentemente, o Presidente americano não está até este momento disposto a dar esse passo”, apontando que a operação no Irão tinha “grande aceitabilidade” pela opinião pública e que isso também é uma justificação possível para a ofensiva, numa altura em que Donald Trump vai perdendo terreno nas sondagens de popularidade.

Essa mesma leitura pode ser aplicada ao prazo que os Estados Unidos recusam dar para terminar o conflito. Desde a guerra “praticamente concluída” até à garantia de que durará o “tempo que for preciso”, Trump já avançou e recuou várias vezes – para o socialista, trata-se apenas de um teste às águas.

“Acho que Trump está a testar os limites do seu poder e está a ver até onde é que pode ir. A ambiguidade permite-lhe ter as mãos livres para fazer o que muito bem entender, no momento em que entender. Os efeitos colaterais é que são preocupantes”.

Esta quinta-feira, o presidente norte-americano criticou os ataques de Israel a infraestruturas de gás no Irão e no Qatar, lamentando não ter sido informado previamente e deixando um aviso: “Não autorizo este nível de violência”.

Na perspetiva de Poêjo Torres, é “normal” haver descoordenação neste tipo de guerras, mas isso pode vir a beneficiar o Irão.

“Não é desejável, mas é normal. Uma guerra, quando as guerras são conjuntas e juntam diferentes nações, as nações não cooperam 100% e não são totalmente transparentes, isso pode criar impedimentos operacionais e táticos”, remata.

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