Escala Global
Ricardo Conde: Marte é "romanticismo" e Lua é mais fácil com "robôs"
17 abr, 2026 - 07:00 • Alexandre Abrantes Neves , Gonçalo Costa (vídeo) , Diogo Casinha (sonorização)
O presidente da Agência Espacial Portuguesa avisa que não há condições no Espaço para permitir a sobrevivência dos astronautas na viagem até Marte. Quanto ao regresso à Lua, Conde duvida que o prazo de 2028 seja cumprido – e vê como mais provável a exploração robótica do que humana.
Que a Artemis II foi um “sucesso em toda a linha”, o presidente da Agência Espacial Portuguesa não duvida. Mas, quanto à possibilidade de colocar humanos em solo lunar na próxima missão espacial, Ricardo Conde já não é tão otimista.
“A tripulação tem de ser revezada com muita frequência, porque é um ambiente que exige uma alteração profunda, uma evolução biológica diferente daquilo que nós somos”, avisa. “A presença permanente na Lua, essencialmente, vai ser robótica. E numa fase inicial, robótica, porque é necessário a construção. Ninguém vai lá andar a abrir buracos, a pôr tijolos e a construir”, considera, no programa Escala Global, da Renascença.
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Mas não é só a segurança da tripulação. Segundo as contas da NASA, e depois de um treino na Terra já no próximo ano com a Artemis III, os astronautas estariam capazes de pisar a lua em 2027, com a Artemis IV. Conde vê este calendário como “demasiado comprimido” também por causa da exigência dos testes técnicos.
“A pergunta é: ‘Será que em 2027 teremos os módulos lunares da SpaceX ou da Blue Origin desenvolvidos para fazer os testes na missão Artemis III e para depois os termos na Artemis IV?”, questiona.
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“Os prazos são colocados para colocar pressão. Quando o Presidente dos Estados Unidos diz que quer alguém na Lua em 2028, a mensagem é para quem está a fazer os programas e é que tem de ir logo trabalhar. É também uma mensagem da hegemonia tecnológica americana”.
Nas futuras missões da NASA, a Europa deve ficar novamente responsável pelas cápsulas que transportam os astronautas. Ricardo Conde considera que Portugal pode ajudar a garantir “subsistemas essenciais” para as condições de habitabilidade nas naves espaciais.
Ainda sobre a Artemis II, que regressou à Terra há praticamente uma semana, o presidente da Agência Espacial Portuguesa rebate as críticas sobre a máquina fotográfica utilizada para fotografar a lua, uma Nikon D5, lançada em 2016. Em “equipa que ganha, não se mexe”, considera o líder da AEP, que aponta antes os avanços e a informação nova que a missão trouxe.
“Isso não invalida que não haja, e há, umas tecnologias modernas, complementares, com capacidades, enfim, muito maiores e melhoradas. Nós devemos ter ‘pentabytes’ de dados, de informação, de mapeamento, mas se não for ao nível centimétrico, décimas de centímetro serão com certeza”.
Ir a Marte é uma “epopeia difícil”
“Improvável”, “epopeia”, “romanticismo”. São tudo palavras utilizadas por Ricardo Conde para se referir à possibilidade (ou impossibilidade) de chegar a Marte num futuro próximo. A viagem dura, na melhor das hipóteses, nove meses só na ida e nenhum ser humano aguenta esse tempo no Espaço – e, ainda mais, a acrescer o regresso.
“Sofremos consequências irreversíveis. O coração tem um determinado batimento, porque temos uma determinada força de pressão sanguínea, porque nós estamos aqui ligados a esta massa da Terra. Se nós formos para a Lua, estes dez dias, é significante. Nove meses é uma eternidade, mas não é só os nove meses. É depois o regresso – pelo menos, um ano”.
A juntar a isto, há ainda a necessidade de melhorar os sistemas de propulsão antes de enveredar por uma aventura deste género. É um cálculo muito difícil de fazer ainda e, na leitura deste especialista, os responsáveis políticos sabem-no, apesar de motivarem a narrativa e o discurso de o ser humano pisar brevemente terras marcianas.
“Eu vou dizer aqui uma coisa que parece horrível e é horrível mesmo. Nos Estados Unidos, já se colocavam condições a presos condenados com prisão perpétua ou pena de morte para irem, se quiserem, fazer um teste e ir a Marte. Já se falou sobre isso. Isto significa alguma coisa, não significa?”.










