Escala Global

Martins da Cruz: Israel deve ser "condenado", mas ativistas da flotilha também não merecem "simpatia" da UE

22 mai, 2026 - 07:00 • Alexandre Abrantes Neves , Rita Gonçalves (vídeo) , João Campelo (sonorização)

António Martins da Cruz, embaixador e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, lamenta que a UE critique mais Israel do que o Irão, mas diz ver razão nos pedidos para suspender parcialmente o acordo com Telavive. Sobre a base das Lajes, Martins da Cruz acusa o PS de discurso "anti-americanista" e de colocar Portugal numa posição de fragilidade.

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Martins da Cruz. Ação de Israel é "de condenar", mas ativistas também não merecem "simpatia"
Veja aqui o episódio desta semana. Foto: Rita Gonçalves/RR

“Não devemos ter nenhum gesto de simpatia para com os integrantes destas flotilhas falsas”. Embora condene a ação do ministro da Segurança Nacional israelita, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, António Martins da Cruz, posiciona-se frontalmente contra a missão humanitária que ia rumo a Gaza e foi intercetada por forças israelitas.

“Sabem perfeitamente que vão ser presos. Sabem perfeitamente que vão ser detidos. E querem fazer-se de vítimas”, afirma o também embaixador no programa Escala Global da Renascença – e onde, no entanto, também aponta o dedo a Telavive por “exagerar” na reação.

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“O que é de condenar foi a atitude do ministro da Segurança de Israel. É o parceiro de coligação de extrema-direita e fez um vídeo infeliz que nunca devia ter feito”, considera, assinalando que também o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu criticou a abordagem do ministro ao grupo de ativistas, que inclui dois médicos portugueses que regressam esta sexta-feira a território nacional.

Já sobre as críticas veementes feitas pelos Estados europeus, Martins da Cruz mostra-se alinhado e diz compreender os protestos formais avançados pelo ministro português, Paulo Rangel. Ainda assim, considera que a Europa devia ser tão ou mais vocal com Teerão como foi com Telavive neste caso.

“Os líderes europeus não condenaram o Irão como condenaram o Israel. Segundo a imprensa, desde o início deste ano, as autoridades iranianas enforcaram 30 pessoas e houve 150 fuzilados em Teerão, e 6.500 presos. Estou a dizer que há um tratamento diferente no que diz respeito a Israel. E, porventura, com razão, porque Israel é uma democracia”, assinala.

Já Manuel Poêjo Torres, comentador residente do Escala Global, afirma que os ativistas podiam ter sido mais cautelosos na viagem, mas lamenta que Israel tenha caído em atitudes que podem ajudar a reforçar o poder do Hamas.

“Ben-Gvir conseguiu fazer mais pelo Hamas e por Gaza do que as flotilhas nos últimos anos. Não se faz este tipo de filmagens, não se provoca tripulantes, não se tenta pisar e, de forma mesquinha, provocar pessoas que estão nestas condições. Acima de tudo, não porque são europeus ou cidadãos de repúblicas liberais, mas porque são seres humanos e têm direito à sua dignidade. É lamentável e aberrante”, critica.

Já sobre a eventual suspensão parcial do acordo entre a União Europeia (UE) e Israel, Martins da Cruz diz que Portugal “fez bem” em insistir na ideia, mas duvida que a medida reúna o consenso necessário entre os 27 para avançar.

“Há países na Europa, e países importantes, para não dizer o nome, por exemplo, a Alemanha, que se opõem. A Europa está dividida. Eu duvido que se chegue a alguma conclusão, pelo menos, nos tempos mais próximos.

PS põe segurança em risco com "anti-americanismo"

Pode estar a “fragilizar” Portugal. Martins da Cruz diz não compreender a posição do Partido Socialista sobre a mais recente polémica da base das Lajes, que levou os socialistas a chamar o ministro dos Negócios Estrangeiros ao Parlamento. Na leitura do embaixador, o secretário de Estado norte-americano explicou-se mal, mas também foi mal interpretado – e isso não justifica a emergência de um discurso “anti-americanista”.

“Partidos da oposição aproveitaram estas declarações de Marco Rubio para acentuar ainda mais uma coisa que eu acho preocupante: o ‘anti-americanismo’. Isto já [nos] está a fragilizar. Portugal não se pode defender sozinho se for atacado: baseia-se na Nato. E a NATO baseia-se sobretudo nos Estados Unidos”, defende.

Quanto ao impasse no Médio Oriente, Martins da Cruz duvida que os Estados Unidos façam cedências no curto prazo e também dá pouco crédito às palavras do Presidente russo, Vladimir Putin, que garantiu na China que o Irão não vai produzir uma arma nuclear. “A Federação Russa não tem a influência que eles pensam que têm no Médio Oriente. Já tiveram, mas hoje em dia não têm”.

A chave, diz, está agora nos países do Golfo Pérsico que estão alinhados com Washington.

“Os Emirados, porventura mesmo a Arábia Saudita, ou o Bahrein, querem que os Estados Unidos tenham uma posição firme em relação ao Irão. Porque, se os Estados Unidos se retiram, é óbvio que o Irão vai ter esses países como alvo, porque apoiaram-se os Estados Unidos durante este conflito”.

Ucrânia. "Bruxelas não sabe o que quer"

Sobre a guerra na Ucrânia, Martins da Cruz aproxima-se da posição expressa por Durão Barroso em entrevista à Renascença e considera que a Europa não devia ter interrompido totalmente o diálogo com a Rússia – na sua perspetiva, a UE “já perdeu” a oportunidade de se colocar na linha da frente das negociações de paz.

“O presidente do Conselho Europeu, há dois meses, dizia: ‘Falar com a Rússia? Jamais’. Na semana passada, dizia: ‘Quero falar com a Rússia’. Ou seja, Bruxelas não sabe o que quer. Foram os europeus, o Macron e o chanceler alemão, que cortaram o diálogo com a Rússia e agora querem-no retomar, mas querem-no retomar se a Rússia quiser”.

Martins da Cruz lamenta ainda a falta de controlo financeiro no dinheiro emprestado pelos "27" a Kiev, nomeadamente do empréstimo de 90 mil milhões de euros aprovado no passado mês de abril.

“Não há nenhuma auditoria sobre estes dinheiros. Dinheiros que nós, e até talvez os nossos netos, vamos pagar, porque os empréstimos da União Europeia já vão até 2050”, assinala. “Claro que é um erro [não haver auditorias].Eu não estou a dizer que o gastem mal. Mas se nós temos auditorias para o nosso dinheiro, para o nosso dinheiro de contribuintes…”.

Já quanto à visita à China de Vladimir Putin, o comentador Manuel Poêjo Torres diz duvidar que traga avanços significativos na paz na Ucrânia.

“Xi Jinping quer é garantir a degradação de todos os seus adversários, a potenciação da sua nação, pelo menos, na região do Indo-Pacífico para mais tarde caminhar para um caminho de unipolaridade. É cada vez mais visível à medida que a Marinha de guerra chinesa continua a tentar conquistar espaço de manobra à Indonésia, ao Japão, à Coreia do Sul”, remata.

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