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Arnaut Moreira. “É um erro. Era o que faltava rever as Lajes”

12 jun, 2026 - 13:29 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização) , Gonçalo Costa (vídeo)

O major-general e antigo subdiretor da política de defesa nacional considera que o melhor é deixar o acordo "vago e flexível" para o adaptar a cada circunstância e, assim, "defender o interesse nacional". Já sobre o Médio Oriente, considera que a retaliação do Irão sobre o Golfo Pérsico foi "desproporcional".

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Arnaut Moreira. “É um erro. Era o que faltava rever as Lajes”
Arnaut Moreira. “É um erro. Era o que faltava rever as Lajes”

“Era só o que faltava.” O major-general Arnaut Moreira considera um “erro” que o governo tenha admitido rever o acordo da Base das Lajes, ainda com o conflito no Médio Oriente em vigor.

Apesar de o ministro dos Negócios Estrangeiros ter empurrado a revisão para um momento de paz e de menor turbulência internacional, Arnaut Moreira – que passou pela Direção de Defesa Nacional – defende que o executivo da AD não devia sequer ter dado espaço a esta discussão.

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“Agora, não”, começa por afirmar no programa Escala Global da Renascença. “Estamos a abrir uma porta que é desnecessária. Também era só o que faltava [rever o acordo]. Nisto eu estou convictamente contrário à discussão política que está a acontecer no país.

Na leitura deste militar, Portugal não ganhará nada a especificar ainda mais as normas do acordo com os Estados Unidos – nomeadamente, a apertar as regras para a passagem de material militar e tecnológico (como drones) que não existiam nos anos 1990, quando foi assinado o memorando.

“É o acordo vago que nos dá flexibilidade estratégica para, em cada altura, decidir o que é o interesse nacional nessa altura e nessa circunstância. Temos um conjunto de porta-aviões que, do ponto de vista estratégico, permitem operações de carácter aeronaval importante no Atlântico. A última coisa que devemos fazer é limitar a atuação por uma lei feita fora de contexto”, aponta, relembrando que o documento já passou por governos de “todas as cores políticas”.

Esta é uma leitura partilhada por Manuel Poêjo Torres, comentador residente do Escala Global, que afasta também qualquer revisão por “pressão mediática” – no contexto atual, diz este especialista, o importante é não reduzir a importância da Terceira para a NATO e para os Açores.

“Hoje há uma necessidade de os Açores servirem como plataforma de segurança, de defesa e de dissuasão, não apenas ao território português, mas acima de tudo à Aliança Atlântica e a defesa do Atlântico Norte. Que está, garantidamente, dependente daquilo que são as observações estratégicas dos Açores”.

Irão foi "desproporcional"

O acordo parece estar cada vez mais próximo e até pode ser assinado já este fim-de-semana em Genebra. Ainda assim, e na perspetiva de Arnaut Moreira, o impasse e a subida de tensões nos últimos dias teriam sido evitáveis, já que a retaliação do Irão junto dos países do Golfo Pérsico não foi “proporcional”.

“A leitura [dos EUA] é que [o helicóptero Apache] foi abatido de propósito. Isto é uma violação flagrante de cessar-fogo, tem de ser respondida. Mas foi respondida quer no tempo exato – logo a seguir –, quer na localização exata, sob o estreito de Ormuz, quer também do ponto de vista da tecnologia e emprego. Pareceu-me proporcional: era possível o Irão ter acomodado esta resposta dos Estados Unidos”.

Já Manuel Poêjo Torres prefere apontar o erro “grave” dos EUA que vê no abate deste helicóptero norte-americano e que pode fazer aumentar o “desconforto” entre o Comando Central (CENTCOM) e Donald Trump.

“Como é que os chefes militares explicam que sabendo nós que o Irão telegrafa exatamente que tipo de ataques é que faz, a que bases, como é que se explica a perda material de aviões e abastecidas? Há aqui um problema grave no Pentágono e, provavelmente, na comunicação entre o Pentágono e a Casa Branca”.

Ainda sobre o acordo, Donald Trump diz que o texto tem todas as condições para receber luz verde por parte do líder supremo do Irão – e que inclui a reabertura total e imediata do Estreito de Ormuz. Ainda assim, e mesmo que o entendimento caia por terra, Arnaut Moreira duvida que Ormuz continue condicionado por muito mais tempo.

“É a China”, sentencia. “A China importa uma parte substancial das suas reservas, do seu petróleo, do Golfo Pérsico. O que significa que as reservas da China, sendo muito grandes comparadas com as dos outros países, também não são eternas. Portanto, a janela de tempo do Irão joga um bocadinho entre estas questões”.

Rússia num beco sem saída

Aumentaram nas últimas semanas e vão continuar durante algum tempo porque a Rússia “não tem outra solução”. Arnaut Moreira prevê que os ataques em larga escala entre o Kremlin e a Ucrânia ainda durem algumas semanas, à medida que a Rússia via ficando mais fraca.

“A Rússia tem um grande problema. [Não pode] confessar que a sua estratégia estava errada: para o Kremlin é uma debilidade muito grande, em relação a uma narrativa que já tem quatro anos de que as operações estavam a correr bem e vão continuar a correr bem”, considera. “A Federação Russa continua a apostar numa solução militar porque não conseguiu encontrar ainda uma outra solução diferente para isto”.

Quanto à Ucrânia, este especialista – que também passou pela NATO – tem bons prognósticos para uma eventual vitória, até porque Kiev começa a ter avanços importantes na defesa de territórios na zona leste.

“A Ucrânia tem uma estratégia territorial muito interessante que é a prioridade não é a recuperação do Donbass, a prioridade é a recuperação das regiões de Kherson e de Zaporíjia. Porquê? Para isolar a Crimeia”, remata.

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