Tarifas

Acordo comercial UE-EUA é "mal menor", admite antiga comissária Elisa Ferreira

31 jul, 2025 - 23:11 • Pedro Mesquita

"É ganhar tempo e é ganhar espaço de diálogo". A antiga comissária europeia sublinha que nem mesmo a presidente da Comissão Europeia terá ficado "esfuziante" com o acordo tarifário alcançado nas negociações com Donald Trump. Ainda assim, Elisa Ferreira considera que é positivo manter abertas as portas do diálogo, "mesmo que não sejam as portas ideais. É capaz de ser mais inteligente do que fechá-las, e entrar numa lógica de conflito aberto".

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Acordo comercial UE-EUA "mal menor", admite Elisa Ferreira

Se não houver novidades, deve entrar na próxima quinta-feira em vigor o acordo alcançado entre Donald Trump e a presidente da Comissão Europeia que fixa uma tarifa de 15% a aplicar à generalidade dos produtos da União Europeia, importados pelos EUA.

Em entrevista à Renascença, Elisa Ferreira, que trabalhou diretamente com Ursula von der Leyen no anterior mandato, reconhece que o acordo negociado não é propriamente bom - “é um mal menor” -, mas sublinha que, dada a personalidade de Donald Trump, era importante manter aberta a porta do diálogo.

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A antiga comissária europeia acredita que esta estratégia permite ganhar tempo e espaço de diálogo: "estamos num daqueles casos em que se questiona se é melhor um acordo menos bom, não diria mau, mas um acordo menos bom ou nenhum acordo."

Em resumo, Elisa Ferreira considera que "no curto prazo acalma um bocadinho as relações. Penso que manter portas abertas é capaz de ser mais inteligente do que fechá-las, e entrar numa lógica de conflito aberto".


Enquanto antiga comissária europeia, que trabalhou diretamente com Ursula von der Leyen no seu mandato anterior, como olha para o acordo alcançado entre a presidente da Comissão Europeia e Donald Trump?

Bem, acho que estamos num período muito complicado. É escusado estar a dizê-lo porque toda a gente sabe. De facto, não se pode dizer que tenha sido uma negociação da qual a Europa tivesse saído uma grande vencedora. Estamos num daqueles casos em que se questiona se é melhor um acordo menos bom - não diria mau - ou nenhum acordo.

Com a personalidade de Trump, e com tudo o que está em jogo neste momento - porque hoje estão muitas coisas em jogo que ultrapassam a questão das tarifas - eu penso que manter uma porta de diálogo e uma negociação em aberto, que pode sempre vir a ser modificada, mas que no curto prazo acalma um bocadinho as relações, penso que é preferível do que entrar numa lógica de conflito aberto.

Temos o problema da Ucrânia, temos o problema da China, temos o grande problema de Gaza, onde a Europa deveria ter uma perspetiva bastante mais afirmativa, porque estão a ser violados os direitos humanos fundamentais.

Isto no fundo é ganhar tempo?

É ganhar tempo e é ganhar espaço de diálogo.

Mas não é ceder em toda a linha, ao mesmo tempo, perante aquilo que alguns apelidam de "bullying"?

Enfim, é evidente que há um estilo muito próprio, mas a maior parte dos blocos internacionais está neste momento a tentar trazer Trump e os Estados Unidos ao diálogo, a um espaço internacional que, naturalmente, precisa de ser revisto, porque as instituições de regulação internacional, que vêm do tempo de “Bretton Woods” [Pacto internacional estabelecido em 1944, durante a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas], estão neste momento praticamente inoperacionais e é preciso criar um novo espaço de diálogo entre os grandes parceiros internacionais. Eu acredito nisso. Penso, portanto, que manter portas abertas, mesmo que não sejam as portas ideais, é capaz de ser mais inteligente do que fechá-las e entrar numa lógica de conflito aberto.

Mas essa inteligência, de que está a falar, de Ursula von der Leyen não está a ser bem vista por alguns Estados-membros, está a ser fortemente criticada, neste momento. Não deveria haver uma maior consulta interna antes de se chegar a um acordo?

A consulta pode existir, mas isso não quer dizer que os países acabem por convergir numa linha suficientemente sólida, esse é um problema.

Neste caso a Comissão é responsável, mas não pode agir completamente cega relativamente aos interesses dos vários Estados.

E não agiu completamente cega?

Não. Nós podemos achar que isto não nos convém, não nos interessa, mas por a Europa sujeita, digamos, ou a seguir à risca os interesses de outros grandes países, da Alemanha, por exemplo, como em tempos implicitamente aconteceu, também não é favorável a uma série de outros países.

Encontrar um ponto de equilíbrio entre os interesses de vários países não é fácil e, portanto, nós criticámos e não me parece que a própria presidente [da Comissão Europeia] estivesse esfuziante com o resultado. O comentário dela foi: "o melhor que foi possível", enfim, qualquer coisa deste género.

A porta ficar aberta, em vez de ficar fechada, penso que é um lado positivo.

E também é positivo o compromisso de importação de gás dos Estados Unidos? Não estamos a ficar novamente dependentes? Dantes era da Rússia, agora dos Estados Unidos.

Eu só entendo isto como um período estratégico para criar alguma base de entendimento, como uma estratégia de haver um relacionamento, um diálogo, um mínimo de entendimento. Não como algo que está acabado e fechado, mais como algo que tem de vir a ser melhorado.

Porque, de facto, também a União Europeia precisa de agir de uma forma mais determinada, nomeadamente tocando alguns dos interesses estratégicos americanos. E fez isso, até no mandato passado, com reações imediatas por parte dos Estados Unidos.

Mas, entrar numa guerra comercial tem consequências mundiais e eu acho que toda a gente - inclusivamente a China - está a medir muito bem os passos que dá no sentido de não criar um ambiente de conflito generalizado que é, de facto, depois muito difícil de ultrapassar.

Em resumo, e para fechar este capítulo, foi um mal menor e que dá espaço?

Acho que sim, acho que foi o mal menor. É provavelmente aquilo que é possível, com os diferentes interesses em jogo, interesses externos à parte comercial e interesses divergentes entre os diferentes Estados-membros, em que alguns consideram que o melhor é não irritar a Rússia e outros consideram que o melhor é não irritar Trump. Se juntar três pessoas informadas à volta de uma mesa, provavelmente também não consegue um consenso nesta situação, em que se pôs em causa tudo quanto foram as normas que pautaram a economia internacional e a política internacional a partir do fim da Segunda Grande Guerra.

Por falar em consenso, Ursula von der Leyen está a seguir a mesma estratégia que tinha quando a dra. Elisa Ferreira era comissária europeia? Pergunto-lhe isto porque há notícias, não desmentidas, nomeadamente do Financial Times, sugerindo que existiu um grande descontentamento entre os comissários por não terem sido propriamente auscultados relativamente à proposta de Orçamento Plurianual.

Pois, há uma característica pessoal desta presidente da Comissão que, aliás, deu origem a alguns textos, que são públicos - mesmo no tempo em que eu era comissária e integrei a equipa dela - dizendo que, de facto, a presidente tinha um estilo um pouco centralista, chamemos-lhe assim. Portanto, ela toma as decisões.

Mas é normal não consultar os comissários? No seu tempo não consultava?

Ela consulta, ela consulta. Não quer dizer é que seja muito sensível às opiniões que se afastam daquilo de que ela está convencida. Mas, ao mesmo tempo, é uma pessoa com grande facilidade de diálogo, e que eu acho que entende as circunstâncias. O que é que se passou desta vez? Eu não sou capaz e saber se foi igual, se foi diferente, não faço ideia.

Ela tem um bocadinho, digamos, acusada disso. Acontece que, na altura em que eu integrei a equipa, houve uma quantidade de decisões, relativamente às quais ela tomou uma posição muito determinada, também muitas vezes contra os próprios interesses naturais do Estado de onde ela vem, da Alemanha, e que eu acho que foram importantes.

E eu, como concordava com muitas das coisas que ela decidiu, talvez sinta menos as consequências desse estilo determinado que ela tem. Porque foi, nomeadamente, o facto de nós, Comissão, nos irmos endividar internacionalmente para fazer os PRRs (Planos de Recuperação e Resiliência). Foi, também, a Comissão sair do seu próprio mandato para contratualizar vacinas contra a Covid e fazer, de facto, a distribuição das vacinas em todos os países ao mesmo tempo.

Portanto, isso não fazia parte das competências da Comissão. Ela tomou essas decisões e aí foi importante e foi decisivo, diria mesmo, ir contra o que era a tradição, o que era a rotina, os consensos. Nem toda a gente concordava, havia um grupo de comissários, nos quais eu me incluía, que a estimularam até. Não sei se teve muito impacto ou pouco, mas o resultado foi neste sentido. E citei apenas dois exemplos.

Ou seja, pode dizer-se que Ursula von der Leyen é centralista mas decide?

Decide. Decide e, portanto, já não há aquela dúvida: "quando se telefona para a Europa, a quem é que se fala?"

[Notícia atualizada às 07h19 de 1 de agosto de 2025 porque Donald Trump adiou a entrada em vigor das tarifas por mais uma semana]

Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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