Entrevista a João Vale de Almeida

“Há mais EUA além de Trump. Não podemos desistir demasiado cedo dos americanos”

12 dez, 2025 - 07:00 • José Pedro Frazão

O diplomata que chefiou o gabinete de Durão Barroso na presidência da Comissão Europeia aconselha a Europa a responder a Trump, mobilizando os ativos russos congelados para bem da Ucrânia. Em entrevista à Renascença, o antigo embaixador da União Europeia nos Estados Unidos e no Reino Unido duvida que os EUA consigam limitar a Rússia e a China sem a Europa. Sobre Portugal, diz que o nosso país tem trunfos que podem ser jogados na arena internacional.

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Diplomata de longa carreira no plano europeu, João Vale de Almeida diz que a Europa vive uma crise diferente de todas as outras a que assistiu nos últimos 40 anos. Autor de “O Divórcio das Nações”, que será apresentado na segunda-feira em Lisboa, este homem de confiança de Durão Barroso acusa Trump e a Estratégia de Segurança americana de “ultrapassarem as linhas vermelhas da interferência clara nos assuntos internos da União Europeia”.

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O livro descreve cinco “Triângulos das Bermudas” que gravitam em torno da Europa e elenca 14 tarefas prioritárias para o Ocidente. São dimensões que se cruzam com alguns dos tópicos quentes da atualidade abordados nesta entrevista à Renascença.


O seu livro foi escrito maioritariamente em 2022 e 2023. Entretanto, Trump foi eleito e a posição da Rússia face aos EUA alterou-se. E agora temos uma polémica Estratégia de Segurança Nacional americana. Se reescrevesse este livro, mudaria algo?

Não mudaria nada, no sentido em que as razões da minha preocupação quanto a um divórcio global - e transatlântico, neste caso - continuam reais e se calhar até foram reforçadas pelas últimas semanas.

Não foi apenas Trump que fez declarações que vão infelizmente no sentido do meu livro. Também Putin, há uma semana, disse algo que não é muito diferente. A preocupação é essa potencial convergência das posições de Washington e Moscovo, que deve ser muito preocupante.

Reforça o lado pessimista do meu livro, mas não tira nada ao meu lado otimista, porque continuo a acreditar que é possível evitar este divórcio. Mas os céus estão carregados e é preciso termos consciência disso.

A crise atual é diferente de qualquer das outras que eu vivi ao longo da minha carreira, de 40 anos ao serviço da União Europeia

Escreve que já passou por vários momentos destes e coloca a questão: este será diferente? Com o que sabemos agora da Estratégia de Segurança dos Estados Unidos, é aparentemente difícil não cair nesse pessimismo. Chegou a hora da verdade da União Europeia?

É um momento diferente. A crise atual é diferente de qualquer uma das outras que vivi ao longo da minha carreira de 40 anos ao serviço da União Europeia, porque conjuga vários fatores externos e internos.

O meu livro fala do divórcio, à escala global, da governança global, da separação entre os países, da crise do multilateralismo. Mas fala também de um outro divórcio no seio de cada nação, designadamente com a ameaça do populismo. É a combinação destes dois divórcios que torna os dias de hoje numa situação quase única.

Acrescentaria aqui uma outra dimensão, que também é diferente das décadas passadas, a que chamaria o fator ‘Putin-Trump-Xi’. Nós, europeus, estamos confrontados simultaneamente com uma nova estratégia e uma nova atitude do lado dos Estados Unidos, uma ameaça em termos de segurança muito clara da parte de Putin e da Federação Russa, e obviamente a emergência económica e geopolítica da China.

Esta conjugação deste fator externo muito forte faz da situação atual uma situação diferente das anteriores, mais complexa, mais desafiante para a Europa. Nesse sentido, é de facto um ‘momento da verdade’ para a União Europeia, para a Europa no seu conjunto, incluindo outros países como o Reino Unido.

Declarações e elementos da estratégia de defesa nacional americana ultrapassaram linhas vermelhas, na medida em que representam uma interferência clara nos assuntos internos da União Europeia

Onde deve a União Europeia encontrar pistas para responder a esta realidade? Como responder a Trump, depois do que um Presidente que está há um ano na Casa Branca escreve sobre a Europa e sobre como olha o mundo?

Sobre a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, acho perfeitamente natural e até salutar que parceiros se exprimam sobre a situação do outro lado, ou seja, que os Estados Unidos falem sobre a Europa e que a Europa fale sobre os Estados Unidos. É absolutamente normal que haja um diálogo e que haja comentários sobre como se reage a um contexto que é comum.

O que não posso aceitar – e o que os europeus não podem aceitar - é quando se ultrapassam as linhas da decência na política. Uma dessas linhas que foi atravessada tem a ver com a não-interferência no processo político e democrático do outro lado do Atlântico. Algumas declarações e elementos da Estratégia de Segurança Nacional americana ultrapassam essas linhas vermelhas, na medida em que representam uma interferência clara nos assuntos internos da União Europeia.

Quando o Presidente dos Estados Unidos se exprime sobre os nossos líderes, com qualificativos pouco elogiosos; quando se exprime sobre os partidos políticos na União Europeia e toma partido claramente por partidos nas margens ou nos extremos do espectro político europeu - quase todos anti-europeus, alguns deles até eventualmente anti-democráticos - acho que aí passamos uma linha que não podemos deixar em branco. Quem não se sente não é boa gente. Acho que os europeus têm de reagir claramente.

Há outra dimensão da nossa reação ao que disseram Trump e Putin há uma semana. Trata-se de alavancarmos a nossa capacidade de reação. Ou seja, sermos ainda mais claros quanto ao nosso apoio à Ucrânia, quanto à nossa determinação de nos equiparmos na capacidade de defender os nossos países e os nossos povos.

Muito proximamente - espero que já na próxima semana - se tome uma decisão clara sobre os ativos russos que estão congelados e como devem ser postos ao serviço do apoio à Ucrânia e à sua reconstrução.

É verdade que Trump utiliza essa expressão que irritou muito a Europa. Mas foram os líderes europeus que nos últimos seis a oito meses decidiram, por exemplo, fazer um conjunto de viagens à Casa Branca tentando ‘escoltar’ Zelensky e também tentar criar pontes com Trump. Aparentemente essa estratégia ruiu agora?

Em diplomacia e em relações internacionais, temos de seguir várias pistas ao mesmo tempo. Os Estados Unidos são o nosso principal aliado e espero que continuem a ser. Embora o documento de estratégia nacional possa levantar algumas dúvidas, ainda assim afirma que a Europa continua a ser um aliado dos Estados Unidos. Portanto entre aliados, temos de seguir várias pistas.

A primeira é o diálogo. Desde a reeleição de Trump sempre disse que o meu conselho para os europeus seria falar muito com Trump, ir muito à Casa Branca, conversar com ele, informá-lo. É preciso que Trump oiça, entenda e esteja em intimidade com os líderes europeus.

Mas isso foi o que foi feito.

Isso tem sido feito, mas não é a única coisa que devemos fazer. Ao mesmo tempo, devemos passar uma mensagem muito clara aos Estados Unidos sobre a nossa independência, a nossa autonomia e a nossa vontade coletiva, na União Europeia, mas também com o Reino Unido, com a Noruega, com a ‘coligação de boas-vontades’ de apoio à Ucrânia. Isto no sentido de dizer muito claramente que não aceitaremos a violação de fronteiras na Europa. Não aceitaremos pôr em causa a soberania territorial da Ucrânia, porque, se o fizermos, estamos a pôr em causa a nossa própria soberania. Essa é uma mensagem que temos de continuar a passar a Trump.

A terceira mensagem necessária é chamar a atenção aos Estados Unidos de como a aliança transatlântica é mais importante do que porventura algumas pessoas em redor da Casa Branca pensam.

Temos o desejo comum de proteger e promover os nossos valores e os nossos interesses estratégicos em relação à Rússia e à China. Não tenho a certeza de que os Estados Unidos sejam capazes, sozinhos, sem a Europa, de limitar as ambições territoriais de Putin ou de domínio geoeconómico e se calhar até geoestratégico, em alguns aspetos, da parte da China. É uma mensagem também do interesse comum entre a Europa e os Estados Unidos de trabalhar em conjunto.

Se tivesse de aconselhar os líderes europeus hoje, diria ‘ponham todas as fichas numa decisão sobre os ativos russos’. É isso que nos vai dar, nas próximas semanas, a capacidade de pesar mais no debate global.

Esse é mais um sintoma do desacordo que há dentro da União Europeia. No seu livro fala de diversos “Triângulos das Bermudas” para a União Europeia onde se incluem alguns desacordos internos. Chegar a uma solução para os ativos russos congelados na Europa resolverá muita coisa?

Acho que nos dá uma alavancagem muito importante no debate sobre o futuro da Ucrânia e o futuro da guerra lançada por Putin. Demonstrará aos Estados Unidos que temos capacidade de tomar decisões e de influenciar de forma considerável o rumo dos acontecimentos. Mas a nossa ação não se pode limitar aos ativos russos. Temos de avançar claramente na nova fronteira da integração europeia, que é a nossa capacidade de defesa e segurança.

Vivemos a integração europeia até agora ao longo de 70 a 80 anos - e eu vivi 40 anos lá dentro - em que o paradigma principal era garantir a paz dentro da União Europeia. Esse foi um grande sucesso do projeto de integração europeia. Hoje há uma nova fronteira que é garantir não só a paz dentro da União Europeia, mas também na sua vizinhança e, se possível, a nível global.

Esse é o salto qualitativo que a União Europeia tem de dar agora, através de uma nova capacidade em termos de segurança e defesa, e também de política externa. Para isso, é preciso vontade política e os consensos necessários, mas também a flexibilidade institucional para permitir avançar, mesmo que alguns membros não o queiram fazer tão depressa. Esse é o grande desafio.

No meu livro, elenco cinco ‘Triângulos das Bermudas’, que têm a ver com aspetos económicos, de governança, mas também institucionais e outros, que compõem, no fundo, o desafio da União Europeia para as próximas décadas.

Se tivesse de aconselhar os líderes europeus hoje, diria ‘ponham todas as fichas numa decisão sobre os ativos russos’

Quando vamos ao leste europeu, ouvimos dizer que, se Putin não for travado na Ucrânia, ele entrará naqueles países. Estamos a falar de uma potência nuclear do outro lado e Trump escreve na Estratégia de Segurança dos EUA que quer ajudar a estabilizar a relação entre a Europa e a Rússia, conseguindo uma certa paz entre vizinhos. Uma pessoa próxima sua, José Manuel Durão Barroso, tem falado sucessivamente sobre o perigo da guerra. A aposta na defesa é suficiente para travar esta possível ‘cavalgada’ de Putin temida por muitos europeus?

Nós vivemos felizmente em paz há várias décadas, desde o início do processo de integração, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, à exceção dos conflitos nos Balcãs. Isso é uma conquista imensa, mas a história prova que nada é garantido para sempre. Os cidadãos europeus têm de se consciencializar - e penso que foi nesse sentido que José Manuel Durão Barroso se expressou - que ninguém pode evitar uma situação onde eventualmente haverá uma guerra de novo nos nossos territórios.

A guerra está a escassos quilómetros da fronteira da União Europeia, não nos podemos esquecer disso. Nós estamos um pouco longe em Portugal, mas quem está na Polónia sente que a guerra está muito perto.

A Europa tem de estar à altura deste desafio. Mas é importante notar que a Europa não pode fazer tudo sozinha. A quase totalidade dos Estados Membros da União Europeia é também membro da NATO, como os Estados Unidos e o Canadá. A NATO é absolutamente central para a segurança europeia. Isso está claramente explicitado no Tratado de Lisboa e não se pode imaginar a defesa europeia sem considerar a dimensão da NATO.

Daí que seja muito importante de sublinhar sempre a Trump e aos seus conselheiros que os Estados Unidos foram fundadores e são o principal país da NATO, que foi constituída para garantir a segurança da Europa, mas também a dos Estados Unidos.

Queria também deixar muito claro que há mais Estados Unidos para além de Trump. Não podemos cair na armadilha de desistir demasiado cedo dos Estados Unidos. Todos nós - e Portugal em particular, fundador da NATO e país virado para o Atlântico, com relações muito fortes com os Estados Unidos - temos de ter um papel muito claro a dizer que a NATO e a relação transatlântica é demasiado importante para ser sacrificada face aos ímpetos de um Presidente que daqui a uns anos não estará já na Casa Branca.

Escreve que “muitas vezes os amigos exigem mais investimento que os adversários, se queremos preservar a qualidade da relação”, referindo-se aos Estados Unidos. E Portugal, um país tão longe de ter poder económico dentro da União Europeia, que papel pode jogar?

Todos os países devem jogar o seu papel, Portugal também. Recuso a ideia de que Portugal é um país pobre, pequeno e periférico. Não somos mais pobres que outros, não somos mais pequenos que outros, somos um país médio à escala da União Europeia e da NATO. E a noção de periférico é uma noção obviamente relativa. Estamos mais longe da Rússia, mas mais perto dos Estados Unidos do que muitos países europeus. Portanto, não temos de ter complexos de inferioridade.

Temos de ter a noção do peso relativo que temos, mas maximizá-lo. A minha experiência de 40 anos na União Europeia é que os países de média dimensão como Portugal têm uma agilidade e flexibilidade que talvez os grandes países não tenham. Podem jogar os seus trunfos, quer a nível diplomático, quer nas relações políticas com outras zonas do mundo.

Portugal não deve abdicar de uma série de trunfos que pode jogar. Se formos eleitos para o Conselho de Segurança, como espero, teremos no próximo ano também um papel ao nível das Nações Unidas. Temos portugueses bem colocados nas instituições internacionais ao longo dos últimos anos. Não temos de ter complexos de inferioridade em relação a isso.

Temos de ter a visão clara de que só contamos se tivermos uma ação empenhada dentro da União Europeia, na linha de frente da construção europeia, dentro da NATO, na nossa relação com a África e com a América do Sul.

Há mais Estados Unidos para além de Trump. Não podemos cair na armadilha de desistir demasiado cedo dos Estados Unidos

Quando escreveu este livro, entre 2023 e 2024, a primeira das suas 14 tarefas que propõe para o mundo ocidental é ‘não cortar laços’. E sublinha que a última coisa que podia acontecer é os europeus terem de fazer uma escolha entre Estados Unidos e a China. Ainda é um cenário na sua perspetiva?

Isso é um dilema que nos vai perseguir durante algum tempo. No livro e nas minhas reflexões atuais tento manter uma perspetiva de médio e longo prazo.

Neste primeiro quartel do século, os Estados Unidos elegeram sucessivamente pessoas tão diferentes como George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump, Joe Biden e outra vez Donald Trump. Isto é claramente o sinal de que é um país que ainda está à procura do seu caminho, da sua linha, do seu posicionamento. Há algumas tendências que estão a ser confirmadas, mas é uma realidade também em mutação. O que é que vai acontecer para o ano nas eleições intercalares? Os democratas vão ganhar através da Câmaras dos Representantes? Se esse for o caso, os dados mudam nos Estados Unidos e daqui a alguns anos teremos uma nova eleição para Presidente. Não sabemos o que vai acontecer.

Não sabemos também o que vai suceder na Europa, onde temos eleições importantes nos próximos dois anos em países-chave. Temos de manter uma visão de mais longo prazo. Também não sabemos como é que vai evoluir na China, que tem alguns problemas estruturais importantes. Temos de manter na Europa um posicionamento equilibrado na nossa relação com os Estados Unidos - que espero que possa melhorar nos próximos tempos – e na nossa relação com a China.

Ter de escolher entre os dois é uma situação que temos de tentar evitar, porque isso coloca-nos perante escolhas com alguns custos importantes.

Passando da primeira para a 14.ª tarefa, diz que, de certa maneira, até para evitar crises – usando a metáfora do matrimónio - às vezes temos de seguir a ambiguidade estratégica. Parece que neste momento quem é muito claro é Trump e a China talvez tenha uma grande dose dessa ambiguidade estratégica. Isso não nos aproxima da China?

É uma boa reflexão. Sou partidário da ambiguidade estratégica, mas não em relação aos princípios. Aí temos de ser muito claros, daí a minha reação às últimas declarações de Trump serem muito na base do respeito desses princípios.

Quanto à ambiguidade estratégica, penso que é do interesse europeu manter uma considerável margem de manobra. Nós próprios somos um ‘animal’ difícil de gerir, muito particular em termos políticos. Muitas vezes as pessoas tentam avaliar a União Europeia como se fosse um país, que não somos. Somos um conjunto de países que precisa de encontrar os seus equilíbrios, e isso implica alguma maleabilidade e flexibilidade.

É o sentido desse meu ponto 14 da minha lista de ‘coisas a fazer’ pelo Ocidente. Tento refletir sobre como os nossos países europeus deverão posicionar-se em relação à situação atual, que é extremamente complexa e difícil. Temos de manter alguma clareza intelectual e de reflexão sobre isso, daí a ideia de alguma ambiguidade.

Faço uma comparação com a Guerra Fria, que era branco ou preto - ou se estava com o Ocidente e os Estados Unidos, ou se estava com a Rússia e as ideias que ela partilhava. Neste momento o mundo é muito mais complicado e complexo, e daí a necessidade de alguma maleabilidade estratégica.

EUA ou China? Ter de escolher entre os dois é uma situação que temos de tentar evitar

Começou por nos dizer que não devemos aceitar mudanças de fronteiras pela força. Se olharmos para guerra na Ucrânia e quando se fala em cedências territoriais como a chave do conflito, essa ambiguidade estratégica pode levar-nos a aceitar um cenário desses, ainda que seja apenas e só porque não há verdadeiramente outra escolha entre a parede e a espada que é colocada aos ucranianos?

Como disse, a ambiguidade não deve acontecer ao nível dos princípios. E os princípios que estão em causa nesta negociação sobre a Ucrânia são os da inviolabilidade dos territórios, do respeito pela soberania nacional, e de que o futuro de um país não pode ser decidido na ausência de representantes desse país. Não se pode decidir sobre o futuro da Ucrânia sem os ucranianos, como não se pode decidir sobre o futuro da Europa sem os europeus.

Em relação à saída deste conflito, e à maneira como vamos gerir o “dia seguinte”, a diplomacia é obviamente importante. Espero que diplomatas experientes estejam encarregues desta negociação, e não diplomatas improvisados como os que vão algumas vezes do lado dos Estados Unidos. É preciso que a diplomacia intervenha para garantir que há soluções estáveis, de continuidade e que, antes do mais, parem a chacina que está a acontecer na Ucrânia, para depois garantirem as condições de segurança para a Ucrânia preservar a sua soberania.

No centro da Europa há preocupação com a situação económica em França e pela ascensão da extrema-direita na Alemanha. Como é que vê a saúde do eixo franco-alemão neste momento na Europa?

O eixo franco-alemão foi sempre e continua a ser necessário. Mas nunca foi suficiente, e talvez agora ainda menos. É preciso que seja acompanhado por um esforço de agregação de uma série de outros países. Atualmente, um país indispensável nesse esforço é a Polónia, por razões geográficas, mas também económicas. Há países membros do G7, que têm uma dimensão territorial e económica mais importante, mas não só. O eixo franco-alemão só funciona se conseguir trazer consigo a totalidade da União Europeia. Esse eixo é necessário, diria mesmo indispensável, mas não é suficiente para fazer avançar o projeto europeu.

Vejo com alguma preocupação a situação política interna dos dois países, como vejo noutros. Daí que no meu livro eu foque o divórcio dentro de cada nação como parte do problema global que o mundo tem hoje. Falo muito do populismo, de esquerda e de direita, - sobretudo agora de direita - como sendo o principal inimigo interno da democracia. Deve estar na nossa análise ao mesmo nível de preocupação que as ameaças externas.

Essa dimensão interna tem um impacto sobre as escolhas externas. Se tivermos, por exemplo, Le Pen ou Bardella no Eliseu daqui a algum tempo, a política externa francesa será obviamente diferente daquela que é a de Macron. Se tivermos um governo na Alemanha com a participação ou condicionado pela Alternativa para a Alemanha [AFD], é evidente que a política externa alemã será diferente. E este exemplo pode ser dado para outros países, incluindo Portugal.

Temos de criticar fortemente as soluções propostas pelos populistas - que não são soluções para nada - mas temos de respeitar as preocupações dos votantes tentados a apoiar esses partidos


Qual pode ser a grande ferramenta para contrariar pedagogicamente a pulsão para o populismo na Europa?

Nos meus 14 pontos sobre o que o Ocidente deve fazer, ou nos meus cinco “Triângulos das Bermudas” sobre os desafios da União Europeia, surge sempre a ideia de termos mais autoconfiança. Termos mais confiança no sistema democrático, liberal, na democracia representativa. Termos mais confiança na economia social de mercado, de a Europa ser, de longe, a parte do mundo que fornece melhor qualidade de vida a um maior número de cidadãos. Tudo isto deve ser o princípio da nossa abordagem.

Temos de ter mais confiança. Se queremos dizer às pessoas que vale a pena investir neste tipo de regime político, temos de acreditar nele. E nesse sentido, tem toda a razão. Tem de haver uma dimensão pedagógica, de militância pela Europa, mas também pelos valores da democracia representativa. Faço um apelo a esse empenhamento dos atores políticos, mas também da sociedade civil, nesse combate.

E temos de respeitar as pessoas que votam nos partidos populistas. Não as podemos ostracizar, não podemos apelidá-las de ignorantes, de obscurantistas ou de cobardes. Isso é um erro fundamental. Nós temos de reconhecer que se as pessoas votam por esses partidos é porque estão frustradas, descontentes, e têm ambições que não são realizadas. Portanto, temos de criticar fortemente as soluções propostas pelos populistas - que não são soluções para nada - mas temos de respeitar as preocupações dos votantes tentados a apoiar esses partidos.

É um esforço muito importante do ‘mainstream’ político, do centro-esquerda, do centro-direita, das três grandes famílias políticas que construíram a Europa: a democracia cristã, os liberais e os socialistas e social-democratas. Há aí um esforço muito importante de trazer esses eleitores de volta para o campo totalmente democrático e europeísta. É um grande desafio político, mas corresponde também ao trabalho que tem de se fazer à escala internacional para salvaguardar uma ordem internacional, liberal, democrática e multilateral.

Está a ver possibilidades a curto prazo do Reino Unido voltar ao clube da União Europeia? Estão destinados a voltar à União Europeia?

Se o curto prazo é amanhã, depois de amanhã ou daqui a cinco anos, acho que isso não acontecerá. Se o curto prazo é a geração dos meus netos, talvez.

Eu espero que sim, em todo o caso. A situação atual vai nesse sentido. Nos últimos dias no Reino Unido, houve uma votação na Câmara dos Comuns para uma resolução não vinculativa que admitia a possibilidade de o Reino Unido voltar à união aduaneira da União Europeia.

Vêem-se sinais claros de desilusão com o Brexit. Mas conheço bem o Reino Unido e no meu livro tento perceber quais as razões mais profundas do Brexit. Sabendo tudo isso, não me parece que seja algo que possa acontecer nos próximos 10 a 15 anos, mas talvez em meados deste século possa haver uma situação desse género. Mas a União Europeia vai também evoluir e se calhar poderemos ter a possibilidade de nos reaproximarmos do Reino Unido ou que o Reino Unido se reaproxime da União, de uma forma que talvez não seja necessariamente a da adesão plena. Vamos ver o que o futuro nos traz.

Uma coisa é clara - o contexto global internacional atual, ainda torna o Brexit uma pior ideia do que aquilo que foi em 2016 ou em 2020, quando se concretizou.

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  • Congresso
    12 dez, 2025 com maioria Democrata, e tudo muda 14:14
    Os EUA cometem hoje os mesmo erros que a Merkel cometeu na altura na Alemanha: julgam poder conseguir uma espécie de "Paz" com a Rússia, através de negócios com ela. Deu o resultado que deu na Europa e vai dar o mesmo resultado nos EUA. É o que dá porem um promotor imobiliário que só vê negócios no Poder. Felizmente pode perder a Maioria no Congresso dentro de 1 ano e aí será apenas um pavão sem poder, que terá de cumprir o que o Congresso americano lhe impuser.

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