13 jan, 2026 - 10:00 • José Pedro Frazão
Um dia depois da manifestação de iranianos à porta da embaixada, o representante diplomático iraniano em Lisboa diz que respeita o protesto, mas argumenta que os seus compatriotas estão a ser "intoxicados" por "propaganda" da União Europeia.
Em entrevista à Renascença, o embaixador do Irão em Portugal, Majid Tafreshi, é questionado sobre a violência que se verifica na atual grande onda de protestos, acusando o Ocidente de "hipocrisia" e confessando que esperava outra reacção de Portugal aos acontecimentos.
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Majid Tafreshi diz mesmo que Portugal não deveria interferir nos assuntos internos do Irão, tal como o Irão não pretende noticiar as “mortes nas ambulâncias” portuguesas ou as “filas no aeroporto” de Lisboa.
Observando a violência no seu próprio país, considera que a situação está sob controlo do regime?
O principal motivo desta manifestação foi o que aconteceu no bazar (mercado) iraniano. É um problema económico, não político. Mas depois disso, passados três dias, percebemos que isto saiu do controlo, porque, infelizmente, vários países estrangeiros, equipados com várias armas em algumas manifestações, como a Mossad, e mesmo os Estados Unidos declaram que estávamos a interferir na situação.
Como talvez tenham ouvido, as manifestações no Irão são livres, são comuns e estão a acontecer. Não há limitações nisso. É parte da nossa constituição.
Mas reconhece que também houve violência contra os manifestantes?
Como disse, nos primeiros três dias, não houve nada. Foi entre a polícia e os manifestantes. Mas, depois disso, algumas pessoas entre os manifestantes começaram a disparar contra a polícia e as forças de segurança. Infelizmente, mataram muitos, “martirizaram” muitos polícias e guardas iranianos, e percebemos que não era uma manifestação. Numa parte dessa manifestação, algumas pessoas estão a abusar do protesto para matar e aumentar a tensão.
Mas ouvimos relatos de muitos mortos, civis, que também enchem alguns hospitais em Teerão e noutras cidades. Reconhece que a situação está fora de controlo?
Mas na manifestação desta segunda-feira, milhões de pessoas vieram à rua com a mesma bandeira e disseram que odeiam as atividades terroristas e a matança de inocentes.
Cerca de um milhão saíram só numa das cidades iranianas, Kermanshah. As pessoas foram para as ruas e contestaram-se com terroristas e com aqueles que são anti-povo do Irão. Foi isto que aconteceu.
Dentro do Irão, a manifestação é livre, é comum e está sempre a acontecer. Não há nenhuma limitação. Mas, como sabem, segurança é segurança, e precisamos de proteger a nossa própria nação.
Esses são a maioria. Os que estão a matar são os terroristas que estão no meio dos manifestantes.
Irão
Donald Trump garante que "a ajuda está a caminho" (...)
Que tipo de terroristas?
Estamos a falar de terroristas que matam pessoas, que disparam tiros nas cabeças. Muitas vítimas são polícias. Encontrámos alguns terroristas que confessaram que foram obrigados a disparar sobre as cabeças das pessoas.
Reconhece que também houve violência por parte da polícia e dos guardas?
Não houve por nenhuma das partes. A polícia e os guardas estiveram com as pessoas nos últimos muitos anos. Pessoas dentro das manifestações, sob proteção de civis, disparam contra a polícia e outras pessoas para aumentar a tensão.
O seu mandato era tentar matar e aumentar o número de baixas. Esta era a sua política, a sua doutrina ditada por fontes estrangeiras.
Disse que os guardas e a polícia estão com o povo do Irão?
Sim. Disse que esta segunda-feira milhões de pessoas vieram para as ruas manifestar-se por causa dos ‘mártires’ na polícia.
Não reconhece algum tipo de violência por parte da polícia em resposta a estes manifestantes?
Controlar uma manifestação é sempre um trabalho difícil. Mas, como disse, não há tensão, não há intenção de executar essas atividades. Isso nunca aconteceu, exceto, por exemplo, no sentido em que a polícia fosse proteger-se ou algo do género. Mas a polícia não tem qualquer mandato para disparar contra civis em qualquer circunstância, exceto em escaladas de violações à lei, como exemplo, de um grupo terrorista que vão fazer algo contra outros.
Aí [podem intervir] impedindo-os, pois é um comportamento comum em todas as polícias do mundo. Por exemplo, mesmo em Lisboa, aconteceu no ano passado, quando alguém disparou contra outra pessoa.
Como explica que várias pessoas mortas deram entrada, por exemplo, nos hospitais de Teerão?
Essa é uma boa pergunta. Quem são eles e, depois, porque mataram? Foi por isto que as pessoas vieram esta segunda-feira às ruas. Milhões vieram dizer “abaixo com os terroristas, abaixo com aqueles que estão a matar estas pessoas”.
Vamos ao início dos protestos. Reconhece alguma raiva das pessoas do Irão, por estarem a sofrer em termos económicos?
Exatamente. Eles estão a sofrer com as sanções ilegais impostas à nossa nação como um todo. É um nível muito mau, do mais avançado, de hipocrisia que se pode ver. De um lado, os americanos dizem que querem direitos humanos, e por outro, estão a aumentar as sanções ilegais exatamente contra estas pessoas. São sanções muito pesadas e inimagináveis. Este é o nível máximo da mentira.
O povo agora compreende, mas, claro, está sob pressão. Esta manifestação foi iniciada pelas pessoas dos mercados. Depois disso, em 24 horas, o nosso presidente, os ministros competentes envolveram-se e resolveram a questão, discutindo como poderiam resolver este aumento da inflação no Irão.
Mas passados três dias, de repente, fomos testemunhas não de uma manifestação, mas antes de uma manobra que ensombrou as manifestações ao matarem polícias. E a polícia começou a defender a sua própria nação e a si própria.
Como vão resolver o problema económico?
Esta é uma grande questão. Voltamos às políticas americanas contra o Irão, não começou há dois anos.
No primeiro dia da Revolução Islâmica, começaram as sanções e assim continuaram, como continuam em Cuba há cerca de oitenta anos. Isto é um bom negócio para os americanos, que retiram dinheiro através desta ‘máfia’ das sanções. Como sabem, um relator especial das Nações Unidas declarou corretamente que este é um ‘bom dinheiro sujo’ vindo de algumas empresas.
Gostaríamos de nos livrar das sanções. Tudo isto é ilegal. Sanções que não têm a base das Nações Unidas são ilegais. São sanções unilaterais, sanções secundárias e outras de conformidade. Todas estas sanções são ilegais.
Mas com esta forma de pressão máxima, como Trump também disse, continuam com esta sanção ilegal contra o Irão. Gostaríamos de ser independentes, de ter cooperação e uma relação com todos.
Até o nosso presidente e o nosso ministro, logo no primeiro dia, disseram a Trump que desejamos que fosse um presidente da paz. Mas, infelizmente, ele não desempenhou esse papel.
Mas diz que, nos primeiros dias deste protesto, discutiram com as pessoas dos mercados as ideias para tentar resolver a situação. Mas não conseguiram resolvê-lo.
Não, resolvemos. Acabou. Não encontra outra manifestação nos mercados. Mas tornou-se num plano previamente preparado por outros para transformar a manifestação pacífica em tensões orientadas para motins, para matar inocentes, polícias e guardas, atacar e disparar no mercado e assim por diante. Isso não é uma manifestação.
Como é que vão impedir isso?
Isso já parou por agora. Gostaríamos que, num futuro próximo, não houvesse mais tensão dentro do Irão. Tanto quanto possível, precisamos de controlar os grupos terroristas e mercenários estrangeiros, pagos por eles, para virem aumentar a tensão no nosso país.
Mas é um protesto alargado, muito amplo em muitas cidades do Irão.Todos estes alegados “terroristas”, como lhes chama, “com intervenção estrangeira” estão espalhados por todo o Irão?
É o que têm de perguntar à Mossad, que disse que tem agentes por todo o Irão.
É Israel que está a executar isto?
Eles afirmam que treinaram, pagaram e durante muitos anos trabalharam para aumentar a tensão. Isto está a aumentar a instabilidade. Não está protegido pelo direito internacional. E para um Médio Oriente mais seguro, precisamos de entender que todos têm direito a viver. E precisamos de reconhecer a paz e a segurança como prioridade máxima para a nossa região.
Considera muito possível que haja um ataque ao Irão por parte dos EUA? O regime está preparado para reagir ara este tipo de ataque?
O que quer dizer com regime?
O regime de Teerão.
Não é regime, mas governo de Teerão, sim. Com base no Artigo 51 da Carta das Nações Unidas - precisamos de proteger a Carta das Nações Unidas - a melhor proteção é a defesa dos seus próprios valores, do seu país e da sua nação. Definitivamente, se acontecer alguma coisa como antes, defender-nos-emos.
Defender é atacar os interesses dos EUA na região?
Se alguém nos atacar com base no direito internacional, temos de proteger a nossa própria nação e retaliar.
Está a falar dos interesses dos EUA na região?
Qualquer coisa, qualquer pessoa. Não nos interessa o nome ou o título do outro lado.
Não nos importa o nome ou os títulos dos que estão do outro lado. Um ataque a qualquer país deve ser respondido com base no artigo 51.º da Carta das Nações Unidas. Caso contrário, o Conselho de Segurança deveria intervir para o impedir. Mesmo que o Conselho de Segurança não tenha intervindo, o país que é vítima aqui, o Irão, precisa de se proteger.
Qual a sua opinião sobre a posição portuguesa a este respeito?
Infelizmente, recebemos dois tweets dos portugueses a dizer que condenavam. Condenavam o quê? Eles condenam e dizem - não tenho aqui o tweet do Ministério dos Negócios Estrangeiros - mas devem sim condenar claramente o principal infrator.
O governo do Irão dá o seu melhor pela sua nação e isso deve ser aqui elogiado. Devem condenar qualquer atividade terrorista e proteger os direitos humanos em todos os aspetos, enfatizando o fim das sanções ilegais impostas pelo Ocidente.
O Ocidente, por um lado, clama pelos direitos humanos no nosso país e, ao mesmo tempo, aumenta o nível máximo de sanções contra essa nação específica. Este é um péssimo exemplo de hipocrisia.
Esperava algum outro comportamento das autoridades em Portugal?
Vemos que o vosso governo segue a posição europeia. Mas, mais uma vez, a Alta Representante da Política Externa Kaja Kallas disse algo muito radical: “estamos focados nos direitos dos iranianos”.
Com base no direito internacional, deve primeiro enfatizar-se o direito dos iranianos a livrarem-se das sanções. Estão a aumentar, passo a passo, as sanções, enquanto incomodam esta nação. Ao mesmo tempo, fingem que vão apoiar os direitos humanos, quando estes dizem respeito em primeiro lugar ao direito à comida, ao direito a uma vida normal. Voltamos à leitura das sanções ilegais. Eis uma face da hipocrisia contra o meu país.
António Costa é português e o presidente do Conselho Europeu. Tem alguma mensagem do Irão para ele?
O senhor Costa foi primeiro-ministro. Conheci-o uma vez. É um homem muito simpático. Acredito que ele conseguiria mudar a União Europeia, que precisa de se erguer e ser uma verdadeira defensora dos direitos humanos e do direito internacional. Por mais que Antonio Guterres não tenha terminado o seu trabalho, por mais que estejam no Conselho Europeu, por mais que vão juntar-se ao Conselho de Segurança, com todos estes bons passos e grandes conquistas, vocês poderão desempenhar um papel melhor.
Este não é necessariamente seguir o que os europeus ditam, sobretudo alguns países da EU. Precisam de aumentar os vossos talentos, de aumentar a qualidade e quantidade das novas ideias. Não se pode, de uma só maneira, bombardear as nações sob o nome das sanções ilegais, enquanto se fala dos direitos humanos. Somos mães muito mais bondosas para a nossa própria nação do que as nossas madrastas.
Teve algum contacto com o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal? Parece que não tem assim tanto contacto com o ministro Paulo Rangel.
Tentámos reunir-nos com eles, mas tiveram aqui um seminário diplomático, e depois disseram que estavam ocupados com isso. Gostaríamos de poder reunir o mais rapidamente possível, não com o senhor Rangel, mas até com o Diretor-Geral de Política Externa.
Enviámos o nosso pedido, para que eles ouçam todas as vozes. Têm que ajustar a sua antena para apanhar todos os canais, e não apenas um, que fala unilateralmente sobre a nação. Acredito que também precisam de nos ouvir para compreender.
O nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros no Irão pediu a todos os embaixadores e diplomatas que fossem ao seu gabinete no Ministério dos Negócios Estrangeiros e explicou-lhes o que aconteceu no Irão.
Talvez não tenha chamado o português.
Não sei. Se o embaixador não estiver, o encarregado de negócios deve ter estado. Normalmente convidam todos os embaixadores e diplomatas.
Mas já pediu uma reunião com o Ministro dos Negócios Estrangeiros?
Sim, sim.
Teve alguma resposta?
Sim, disseram que estavam ocupados. Estamos na lista de espera.
E que tipo de palavras esperam do governo português?
Não posso falar em nome deles. Precisamos de ver qual é a resposta. Até agora, consideramos que os nossos colegas no ministério português dos Negócios Estrangeiros são pessoas muito simpáticas.
Mais uma vez, precisamos que a comunidade internacional se reconheça mutuamente na realidade. Como advogado de direito internacional, já disse antes, que é uma grande contradição que a UE esteja a falar de multilateralismo e, ao mesmo tempo, o seu sistema de votação é por adesão ao consenso. O que significa aderir ao consenso? Significa que todos têm de seguir isso. Como se pode falar sobre multilateralismo e, ao mesmo tempo, o vosso sistema deve aderir à metodologia do consenso?
Devem avaliar se isso é democrático, porque houver alguma ideia na UE apresentada por dois ou três países maiores, normalmente outros vão a seguir.
Irão
Joe, nome fictício, vive na Noruega e acompanha à (...)
Há alguns portugueses que querem sair do Irão. As autoridades iranianas podem fazer algo para ajudar estes cidadãos portugueses?
Isto é um exagero. Do que é que está a falar? Há voos a entrar e a sair do Irão. Temos dezenas de voos do estrangeiro a entrar e sair. O Irão não os está a bloquear. Podem ir ao Dubai, ao Qatar. Todos os dias temos dezenas de voos para a Turquia e outros países.
Não vejo razão para responder a esta pergunta, porque eles podem vir e podem ir, não é um problema.
No último, houve uma polémica com aviões americanos a passarem pelos Açores a caminho de algumas operações militares. O que faria se houvesse alguma intervenção americana que precisasse de novo de usar o espaço aéreo ou aeroportos portugueses para este tipo de operações?
Existe o direito internacional. Se se envolverem em qualquer formato, em qualquer agressão, é parte da agressão. Não é só para Portugal, Irão ou UE.
É o direito internacional. É da responsabilidade do Estado. Gostava que nunca, jamais acontecesse que Portugal ou outros países participassem numa agressão. Qualquer agressão ou uso da força deve ser seguido pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas, não pelo unilateralismo.
Mas já na última situação disse que estava a tentar obter alguma informação sobre isso e respondeu mais ou menos isso.
Não há ainda uma resposta.
Não?
Ainda estamos à espera.
Acha que é uma forma de não vos responder?
Não sei. Não podemos obrigar a outra parte a responder. O que podemos fazer, ao abrigo dp direito internacional, podemos simplesmente perguntar.
Mas os factos que tem permite dizer que Portugal estava com o agressor?
Não, não responderam. Silêncio. Nada. Estamos à espera. Até insisti uma ou duas vezes. Não recebi qualquer feedback sobre isso. E é surpreendente para nós, chocante. Porque acreditamos que Portugal é um país único, pelo menos nesta parte do euro, como subpotência.
O que é que é chocante?
De repente apercebemo-nos deste abuso de território por parte dos americanos. Ainda não recebemos qualquer informação, mas os americanos alegaram que usaram estas ilhas [Açores] para atacar o Irão. É chocante, porque Portugal é um país neutro e cumpre o direito internacional. Esse foi um ataque completamente ilegal.
Mas isso alterou a relação com Portugal?
Não, a nossa relação é firme e continuamos a ter relações em muitos aspetos. Apoiamo-nos mutuamente a nível internacional, por exemplo, em seminários ou nos sistemas de votação. Em muitos casos, apoiámo-nos mutuamente. Por exemplo, na candidatura [de Portugal] ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, nós apoiamos-vos e vocês apoiam-nos. Cooperamos em muitas áreas. Mas é chocante para mim, porque Portugal não é um país hostil.
Vão apoiar Portugal na candidatura ao Conselho de Segurança?
Sim, sim, vamos apoiar.
Porque é que o Irão apoia Portugal?
Primeiro, porque Portugal vai apoiar-nos. E, em segundo lugar, porque acreditamos que Portugal pode participar num Conselho de Segurança como lugar para aqueles que tentam fazer o melhor pela paz e segurança, não apenas para se juntarem aos clubes ou para apenas beneficiar da política para si próprios, sabe, a qualquer preço.
De muitos pontos de vista, porque primeiro, sou Embaixador aqui. Gostaria de apoiar Portugal, porque é o meu país favorito, na qualidade de Embaixador aqui. Cada Embaixador tenta aumentar o nível do seu próprio país.
Sepideh Radfar afirma que o povo iraniano tem moti(...)
Mas disse que Portugal também vos apoia. Como?
Isto dá-se por meio da troca de notas diplomáticas. Também somos candidatos para os próximos anos. Estamos a trocar notas bilateralmente.
E Portugal votará em vós?
Sim, sim, sim.
Têm essa garantia?
Sim, é isso que estamos a trocar no âmbito da relação bilateral.
E como comenta a presença de vários cidadãos iranianos que estiveram aqui à porta da embaixada a protestar?
São os nossos cidadãos. Têm o direito de se manifestar. Nós respeitamo-los. Eles estão aqui, têm aqui os seus próprios processos. Vêm aqui para receber os seus documentos consulares.
Mas garanto que a maioria deles está a ser influenciada pela ‘propaganda tóxica’ do Ocidente, especialmente da União Europeia. Por exemplo, muitos deles acham que o Irão está sob demasiada tensão. Mas quando ligam para o Irão, descobrem que as suas famílias estão muito seguras. Dizem: "Ah, o que lemos aqui e o que ouvimos das nossas famílias é completamente diferente."
Não é muito seguro estar no Irão neste momento.
Porquê?
Há relatos de atos de violência pelos meios de comunicação internacionais que, como sabe, não têm permissão para relatar livremente a situação a partir do vosso país.
Porque não? Então, como vimos esta grande quantidade de propaganda contra o Irão? Se não permitirmos, como é que obtêm essa informação?
Têm alguma informação e fontes. A Renascença por exemplo não tem ninguém no Irão.
Quero dizer, no Irão, todos os dias, temos muitas notícias que podem publicar. Mas o importante é que não devemos ser egoístas. Por exemplo, esta segunda-feira, milhões de pessoas vieram às ruas apoiar o governo, apoiar a segurança policial. Quantas notícias se podem contar sobre isto na BBC, CNN e outras?
É muito mau. A propaganda e a radiodifusão egoísta, monopolizando e duplicando o serviço nas mãos de alguns políticos, não é boa para os media.
Porque não lhes dão autorização ou um visto para irem lá e observarem por si próprios?
Recebemos pedidos aqui e enviámos [para Teerão]. Mas como sabe, quando qualquer jornalista vai ao Irão, precisa de ter um agente lá para o apoiar, para o ajudar. Pode pedir o visto e nós apoiamo-lo. Apoiamos todos os pedidos.
Porque é que não é possível ir e trabalhar sem “agentes” no Irão?
Porque vocês fazem um trabalho profissional. Se for ao Irão, tem de poupar tempo. Encontrar as pessoas relevantes, as empresas relevantes, quem pode ajudar-te? Um guia turístico? Não. Um guia de agência pode ajudar-te. É um favor das autoridades iranianas. E não está no nosso ministério, é o ministério da Orientação Islâmica que os distribui.
Outros diriam que querem controlar os jornalistas.
Pode perguntar a quem foi ao Irão. Controlavam-no ou não? Se eles controlam, porque é que pedem vezes sem conta para ir? Novamente, isso é propaganda. Com esta propaganda e com este abuso de direitos, não podemos alcançar mais do que isto. Precisamos de nos reconhecer. Precisamos de deixar que as pessoas da comunidade internacional se encontrem. A política deve estar ao serviço da humanidade.
Finalmente, que ligações faz entre estes acontecimentos no Irão e a situação internacional como a intervenção americana na Venezuela e todos os desenvolvimentos mais recentes na Gronelândia, e assim por diante?
É uma grande questão. Dava para um seminário. Mas, pelo que vejo, o uso da força, o abuso de poder, dia após dia, tornou-se uma norma. E parece que vai ligar-se ao direito consuetudinário. É muito mau. Precisamos de parar o uso da força, o abuso de direitos, o abuso de poder em qualquer formato, e pedir ao multilateralismo que trabalhe em nosso favor.
Mas hoje a Venezuela, amanhã talvez a Ilha dos Açores, quem os pode parar? Se começassem a ‘engolir’ todos os lados, e se algumas pessoas estiverem caladas aqui, então no futuro não poderão defender outros casos.
Gostava que pudéssemos transmitir coisas positivas sobre os outros. Por exemplo, em Portugal, alguém morreu numa ambulância nas últimas noites
Alguém foi morto por um tiro no ano passado. Por exemplo, há muitos problemas no vosso aeroporto. Têm muitos problemas aqui , por exemplo, de contrabando, tráfico humano, pessoas sem-abrigo. Mas nunca vai encontrar tais notícias nos media iranianos. Porque nós, na embaixada, não somos responsáveis por interferir nos assuntos internos dos outros, nem sequer em manifestações ou algo do género. Precisamos de proteger o direito de governo com base no Artigo 2, Parágrafo 4 da Carta das Nações Unidas. Estes são assuntos internos, e o governo deve ser apoiado.
Mas tudo o que acontece no Irão torna-se subitamente um problema para a União Europeia. A mesma União que continua sem parar as sanções ilegais, até nas áreas da medicina, nas universidades. Sanções sobre doenças pesadas e más como a talassemia e sobre pessoas cancerígenas e os seus medicamentos.
Acha que os portugueses reportam sobre os iranianos ao contrário do que diz que os iranianos não fazem sobre a situação portuguesa?
Não, vou reportar. Apenas digo que este aspeto negativo não ajuda. Porque sabemos que o governo aqui está a fazer o seu melhor. O que é que isso tem a ganhar? O que é que fazemos ao dizer que há milhares de sem-abrigo em Lisboa? Precisamos de nos apoiar uns aos outros. O governo precisa de se apoiar mutuamente para resolver o problema. Mais uma vez, para o Irão, é estar livre de sanções. Não podem julgar-nos quando estão a maximizar as sanções.
Acha que consegue resolver o problema falando com o seu próprio povo, com os iranianos?
Estamos a fazer o nosso melhor, mas somos uma comunidade internacional.
Quando exportamos ou importamos algo, de repente vemos o aumento da taxa do dólar ou do euro. Os nossos empresários estão a perder dinheiro. Veem o aumento do petróleo e perguntam porque foi a subida.
Voltar às sanções sobre o petróleo iraniano, ao apreender os nossos bens, ao ameaçar a nossa região e a nossa segurança, não é bom. Trump poderia ser um grande político do mundo e deixar de si uma boa herança como a de Nelson Mandela. Mas, infelizmente, vemos que a herança é apenas aumentar o uso da força, o abuso de poder. Isto funciona de alguma forma, mas não vai levar ao que imaginávamos antes. Gostava que pudéssemos ter um mundo mais seguro. Gostava que pudéssemos ser verdadeiros políticos, aqueles que estão à disposição da vontade da sua própria nação.