24 jan, 2026 - 00:22 • José Pedro Frazão
Luís Alves tem-se deslocado regularmente à Ucrânia desde junho de 2023 e desenvolvido, a partir de Portugal e de Bruxelas, diversas iniciativas de cooperação que agora são reconhecidas pelo Estado ucraniano.
Em entrevista à Renascença, o diretor da Agência Nacional Erasmus+ lembra que os jovens ucranianos vivem em grande disrupção no país, com uma guerra que sucedeu ainda à pandemia de Covid-19.
Luís Alves foi condecorado com a Ordem de Mérito pelo Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
Ficou surpreendido com esta distinção?
Sim, no sentido em que não me foi dito, nem nada do que tenho feito na relação de cooperação com a Ucrânia tinha como ambição ver essa cooperação reconhecida nestes termos. Muito me honrou, muito me sensibilizou [esta distinção]. A notícia foi mesmo uma emoção muito grande de que objetivamente não estava à espera.
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De que forma é que o trabalho da Agência Nacional Erasmus+ se foi desenvolvimento ao longo da guerra?
Logo nos primeiros tempos da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, mobilizámos o conjunto das agências nacionais de toda a Europa neste esforço de cooperação com a Ucrânia, usando um programa que não seria óbvio enquanto instrumento de cooperação.
O Erasmus+ é muito associado à mobilidade de jovens, que num cenário de guerra estava muito comprometida. Em conjunto com a Comissão Europeia e mobilizando as agências nacionais, a agência portuguesa assumiu um papel de coordenação e de representação de toda esta rede, no uso dos programas europeus nesta cooperação.
Eu próprio fui à Ucrânia já quatro vezes neste contexto de guerra. Temos assumido esse papel de articulação, apoiando também o governo ucraniano no uso dos programas e também na transição da Ucrânia enquanto país-programa do Erasmus+, o que vai ser muito importante também no reforço do uso deste programa.
Mobilizámos as agências nacionais no sentido de desenvolver projetos Erasmus que apoiam as organizações ucranianas e também a diáspora ucraniana nos vários países europeus. Esse foi o contexto e a circunstância que - pelo menos de acordo com os critérios do presidente Zelensky - justificaram esta atribuição do título de "Cavaleiro da Ordem de Mérito", que ainda me custa pronunciar, porque foi mesmo uma grande emoção.
Ucrânia
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Que diferença fará numa juventude muito afetada pela situação de guerra no país?
É evidente que o Erasmus+ é muitas vezes confundido apenas com um programa de apoio à mobilidade de estudantes. O Erasmus+ é muito mais do que isso. É um programa muito mais abrangente e um instrumento muito importante de formação de técnicos de juventude, de apoio à capacidade de intervenção das entidades públicas no domínio das políticas de juventude, mas também - e é nessa matéria que estamos a ajudar muito na recuperação da Ucrânia - no apoio às organizações de juventude.
Sabemos que é muito importante a existência de uma sociedade civil forte, com capacidade de iniciativa, não apenas no presente, mas para o futuro democrático de uma Ucrânia livre e independente. Para isso é preciso que as organizações sobrevivam também a este cenário de crise severa que a Ucrânia atravessa.
Temos utilizado o programa especificamente de apoio e financiamento às organizações de juventude, de formação aos seus técnicos, de apoio às políticas públicas na Ucrânia nessa matéria, mas também no investimento na ligação de jovens ucranianos que neste momento estão em outros países europeus, na sua ligação quer ao sistema de ensino ucraniano, quer à sua própria comunidade.
Nós temos ucranianos que vivem em países europeus a desenvolverem projetos da própria comunidade ucraniana e de apoio também aos próprios na Ucrânia. Hoje o Erasmus+, é um instrumento muito mais complexo, muito mais capaz de dar respostas diferentes às políticas públicas e sobretudo às organizações de juventude.
A juventude ucraniana vive um cenário de grande disrupção nas suas vidas
Esta distinção dirige-se à agência portuguesa. É o trabalho de coordenação europeia que é aqui galardoado?
Sou membro da coordenação europeia de todas as agências e, por razões que resultaram da própria dinâmica da agência portuguesa, assumimos o papel de representação de todos os países europeus nesta relação de cooperação com a Ucrânia.
Temos apoiado todos os países europeus a desenvolver projetos nesta matéria e temos desenvolvido muitos projetos-piloto que depois têm apoiado a capacidade dos vários países a desenvolverem projetos de cooperação com a Ucrânia.
Ainda há pouco tempo desenvolvemos aqui em Portugal, há dois meses, um projeto 'Resilience in Action', em que recebemos jovens ucranianos em situação de especial vulnerabilidade, porque viveram experiências traumatizantes relacionadas com a guerra.
É um projeto-piloto para desenvolver metodologias de trabalho de apoio psicossocial a esses jovens, para eles poderem recuperar de alguma maneira a alegria e a confiança na sua própria vida e no seu próprio futuro.
Esse projeto agora vai apoiar dezenas de outros projetos noutros países europeus, apoiando milhares de jovens ucranianos que infelizmente estão nessa circunstância. Portugal tem assumido esse papel de coordenação, de ligação direta à Ucrânia - tenho sido eu, em concreto, que me tenho deslocado à Ucrânia para estabelecer estas relações também de confiança com esses parceiros - para que saibamos todos que o Erasmus+ não é apenas uma promessa de futuro para a Ucrânia.
É muito importante para os jovens, e para a Ucrânia, encontrar respostas de cooperação, que lhes deem soluções agora mesmo, nas circunstâncias presentes, de grande dificuldade e exigência, e não apenas promessas para o futuro.
Apenas com o orçamento europeu destinado a Portugal no programa Erasmus+, apoiámos já 80 projetos envolvendo cerca de 50 organizações ucranianas em todos estes domínios: intercâmbios de jovens, formação de técnicos de juventude, projetos de apoio às políticas públicas só em Portugal.
Isso tem acontecido em todos os países-programa, com a nossa coordenação e o nosso apoio, e com certeza também com a Comissão Europeia a validar essa dinâmica e a estabelecer também os projetos de cooperação com a Ucrânia como uma prioridade do programa Erasmus+.
A prioridade da cooperação europeia está nos assuntos porventura mais óbvios neste momento crítico, como o apoio militar e financeiro. Mas o Erasmus+ é também um instrumento muito significativo de cooperação com a Ucrânia e de respostas reais aos problemas dos jovens, no apoio psicossocial, no apoio às suas organizações, às políticas públicas ucranianas - que estão muito focadas, por razões compreensíveis, no esforço militar e na guerra que estão a travar -mas que têm encontrado no Erasmus+ um instrumento para dar respostas aos jovens ucranianos também nesta circunstância.
GUERRA NA UCRÂNIA
Um grupo de 33 ucranianos aterrou esta tarde em Po(...)
Este trabalho nada tem a ver com a cooperação bilateral na área da educação, nomeadamente na reconstrução na zona de Zhythomir?
Não tem a ver com essa cooperação, sendo certo que, em cenário de crises, os papéis setoriais deixam de ser tão estanques. A Ucrânia, a Comissão Europeia e as outras agências, têm encontrado na agência portuguesa - e em mim em particular - muitas vezes um pivô de aproximação de atores diferentes, de programas diferentes, de instrumentos diferentes de cooperação para dar respostas a problemas que muitas vezes escapam ao Erasmus+.
Tenho sido interpelado para projetos na área da saúde, da economia, até às vezes na área do esforço militar. Temos servido de pivô de aproximação de programas, de instituições, de organizações de países diferentes nessa matéria.
Não fui chamado a participar nesse projeto em concreto, mas conheço-o de forma muito mais próxima, porque estive em Zhythomir antes mesmo desse projeto existir.
A escola de Zhythomir foi bombardeada logo no início da guerra e Portugal tem esse compromisso, essa promessa de reabilitar essa escola. As entidades em Zhythomir sabem bem isso, a Câmara Municipal, os jovens, todos interpelaram-me também relativamente a esse projeto. Espero que ele se concretize o mais rapidamente possível.
Como descreveria esta juventude ucraniana a crescer num país em guerra?
A juventude ucraniana vive um cenário de grande disrupção nas suas vidas. Estamos a falar de quatro anos de guerra, com tudo o que isso significa na vida de um jovem, na sua capacidade de se projetar no futuro, a que acrescem todas as dúvidas das próprias circunstâncias juvenis.
Já não nos lembramos que a juventude ucraniana está há quatro anos em guerra e teve antes dois a três anos de Covid. Isto quer dizer que a juventude ucraniana quase não conhece tempos de normalidade e, portanto, é um cenário de grande desafio, de grande exigência para as novas gerações ucranianas.
Tenho encontrado na Ucrânia, na relação com os jovens e com as organizações, um cenário de grande esperança no futuro, de grande confiança no futuro. E a utilização do Erasmus+ enquanto instrumento de cooperação com a Ucrânia - para além daquilo que tem significado em projetos em concreto - leva também muito essa esperança de grande confiança na Ucrânia e no seu futuro, livre, independente, soberano, no futuro.
Nós temos encontrado no Erasmus+ também esse instrumento de grande confiança e convicção no sucesso e no futuro da Ucrânia. Mas tenho também visto sinais de grande capacidade de resistência do povo ucraniano.
A resistência expressa-se de forma muito dura e cruel na própria guerra- Os jovens são, de facto, a camada da população que sofre as consequências da guerra de forma redobrada, porque eles próprios são mobilizados para participar no esforço militar.
Vemos uma juventude ucraniana também muito mobilizada em projetos de voluntariado de apoio à comunidade, não apenas nas consequências da guerra, mas de maneira a substituir políticas públicas que, neste momento, pelas circunstâncias da guerra, não são capazes de oferecer respostas capazes aos cidadãos.
Vemos muitos sinais de resistência da juventude ucraniana também num esforço civil que mantém a economia, o apoio social e os projetos educativos a funcionar. Essa é a grande lição de resistência que tenho aprendido nas minhas visitas à Ucrânia. É essa capacidade de resistir em múltiplas dimensões que esta guerra lhes tem colocado.