Um mês de guerra no Médio Oriente

"A escalada externa produziu uma consolidação interna no Irão"

27 mar, 2026 - 23:45 • José Pedro Frazão

Um mês depois dos primeiros ataques israelo-americanos ao Irão, o presidente executivo do Observatório do Mundo Islâmico diz que a resposta iraniana é uma espécie de vitória num conflito que não terá vencedores. João Henriques afirma que o Irão está a conduzir uma guerra de desgaste para a qual os norte-americanos não estavam preparados.

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O presidente executivo do Observatório do Mundo Islâmico acredita que o Irão vai continuar a atacar os países do Golfo onde há presença ocidental e não acredita em retaliações armadas diretas contra Teerão por parte destes países.

Em entrevista à Renascença, João Henriques lembra que a questão central se joga mesmo no Estreito de Ormuz, onde o Irão está neste momento a cobrar uma espécie de "portagem" a determinados navios, que têm que ser paga em moeda chinesa. A exceção parece ser um país europeu, a Espanha.


Que balanço faz de um mês de conflito no Médio Oriente?

Sem cair na tentação de fazer futurologia, a situação continua a desenrolar-se sem qualquer tipo de abrandamento. Houve uma impreparação por parte da administração norte-americana, um cálculo errado sobre a reação que o Irão acabaria por tomar. Isto é uma manifestação de desconhecimento do que é a matriz persa iraniana. O resultado está à vista.

Os serviços de informações norte-americanos e israelitas não foram competentes na análise do potencial bélico iraniano, que não era declarado, mas que objetivamente existia e continua a existir, embora se vá degradando e diminuindo. Mas o mesmo acontece também com as outras partes que estão em confronto, como os Estados Unidos e Israel.

O regime iraniano aguentou melhor os bombardeamentos do que se esperava?

Absolutamente. Poderíamos falar em duas décadas de assumida consciência por parte da liderança iraniana para esta preparação cuja grande parte foi feita com desconhecimento tanto de Israel como dos Estados Unidos.

As eventuais futuras investidas por parte dos Estados Unidos, que já ameaçou com intervenção no terreno - e ao que parece, com contingentes militares enviados desde os Estados Unidos - não deveriam ser uma surpresa.

Outro acontecimento que não fazia parte da leitura dos Estados Unidos foi o estrangulamento seletivo que está a acontecer no Estreito de Ormuz, que naturalmente virou do avesso a economia internacional, e ainda mais estará para acontecer.

O estreito de Ormuz revela-se verdadeiramente sob controlo do Irão. É mesmo assim?

É a minha avaliação. O poderio militar do Irão é francamente inferior ao de Israel e dos Estados Unidos.Muito armamento foi debilitado, mas a utilização de armas mais estratégicas, incluindo mísseis que eram do desconhecimento do Ocidente, está a promover ataques seletivos, pondo em causa até a qualidade da defesa antiaérea israelita, com a ‘Cúpula de Ferro’ à cabeça.

Sabemos que nunca foi declarada como eficaz a 100%, mas a estratégia do Irão também passou por desgastar a capacidade de reação da ‘Cúpula de Ferro’. O Irão disparou mísseis de grande potência que causaram dano, romperam a ‘Cúpula de Ferro’ e destruíram objetivos militares israelitas. As populações de Telavive e de Jerusalém também sofreram com as consequências destruidoras desses mísseis, em bairros residenciais e a atormentar a população israelita.

Quando surgiram ameaças de Donald Trump sobre Ormuz, houve uma corrida à colocação de minas que destroem os barcos que por ali circulam com bastante facilidade. O barulho proporcionado pela deslocação dessas embarcações, acaba por detonar as minas aquáticas perfeitamente destruidoras e que põem fora de combate qualquer embarcação que queira atravessar o estreito de Ormuz.

O estreito vai continuar a ser uma arma de grande alcance, de grande significado. As ameaças de retaliação de Trump não têm surtido efeito.

O Conselho de Cooperação do Golfo veio queixar-se da cobrança de taxas pela passagem segura de navios no Estreito de Ormuz. Que armas têm os países do Golfo para contrariar esta realidade?

Os países do Golfo confiaram demasiado nas capacidades dos Estados Unidos, do seu ‘guarda-costas’. Eles próprios estão a sofrer no seu território com as reações iranianas, porque esses países do Golfo albergam bases norte-americanas que alegadamente têm servido de lançamento de projéteis para o território iraniano. Portanto a justificação é de autodefesa.

No entanto isso tem criado alguns pruridos, alguns bastante assinaláveis, por parte desses países do Golfo que acusam o Irão de estar a envolvê-los na guerra. Este envolvimento dos países do Golfo também poderá corresponder a uma estratégia de guerra por parte do Irão, porque a instabilidade do Médio Oriente pode significar ganhos para o Irão.

Não quero dizer que o Irão é um vencedor, claro que não é. Julgo que não haverá vencedores aqui, porque os Estados Unidos e Israel também não estão a sentir o sabor da vitória. Mas se o Irão mantiver esta tónica de determinação, já é uma vitória.

Mas estamos longe de embarcar nos comentários recorrentes de Donald Trump que diz que o Irão está a implorar por um cessar-fogo e pelo fim da guerra.

Esta é uma guerra de desgaste e os Estados Unidos não estavam preparados para este modelo de reação por parte das autoridades iranianas. Vão sendo eliminados líderes ou coordenadores militares ou político iranianos e outros substituem-nos rapidamente. Portanto esta guerra de desgaste é uma guerra para a qual o Irão continua preparado por mais algum tempo.

Os países do Golfo foram demasiadamente surpreendidos?

Eles foram avisados antes de terem sido atacados. As autoridades iranianas disseram que os países que albergassem as tais bases militares - que funcionassem como catapulta para ataques ao território iraniano - eram considerados inimigos. Portanto o Irão considera que não está a atacar a soberania desses países do Golfo. A retórica iraniana é de que os inimigos que estão a atacar são os Estados Unidos. Essa é uma mensagem que não foi acautelada ou assumida pelos líderes dos diferentes países do Golfo e agora estão a sofrer as consequências.

Apesar de já se ouvirem algumas vozes de dirigentes desses países do Golfo que estão a ser atacados pelo Irão, admitindo que poderão reagir também com o recurso ao armamento. Não creio que isso passe de uma tentativa dissuasora para que haja alguma contenção por parte de Teerão. Mas Teerão não vai resfriar e enquanto continuar a agressão norte-americana por via desses países que têm essas bases instaladas, o Irão vai continuar o seu percurso de contra-agressão.

Como vão os países do Golfo travar a degradação das condições nos seus países?

É uma situação que será resolvida com o tempo. Este ano é para esquecer, naturalmente, porque há um sentimento de insegurança em todo aquele vasto território. Há o golpe no turismo, porque estes países são procurados por grande parte da população mundial, que procura as férias na região do Médio Oriente. Isso vai ter impacto direto.

O impacto mais significativo é o da interrupção ou estagnação da comercialização do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz. 20% do petróleo atravessa aquele estreito e os países do Golfo são os primeiros a ser penalizados. A Federação Russa está a beneficiar em grande parte com este estrangulamento.

A passagem está controlada, embora os barcos espanhóis passem livremente como compensação pela posição de Pedro Sanchéz sobre o conflito.Nas embarcações dos outros países, o Irão cobra entre um milhão a dois milhões de dólares, num equivalente em yuanes. Isto vai ao encontro daquilo que pretende ser a ‘desdolarização’, num combate económico que já começou há muito tempo e que aponta para que a influência da moeda chinesa seja cada vez maior.

A China agradece, tal como acabarão por agradecer todos os outros países membros dos BRICS +, como o Irão, um dos membros que constitui o atual quadro de membros dos BRICS +.

Qual é a sua leitura da invasão do Líbano por Israel?

Houve uma reação por parte do Hezbollah, que, para as autoridades de Telavive, já tinha desaparecido. Nem o Hezbollah desapareceu, nem o Hamas ou os huthis deixaram de existir. Eles mantiveram-se na expectativa sobre o que isto poderia dar.

A invasão por parte de Israel ao território libanês acontece como uma reação ao torpedeio do Hezbollah ao norte do território israelita. O que aconteceu é uma resposta natural e expectável face ao que ia acontecer porque o Hezbollah, em sinal de solidariedade com o Irão, de quem se diz ser o seu patrocinador. Isso está a significar um custo para a população libanesa.

Telavive diz que a erradicação do Hezbollah é responsabilidade de Beirute, portanto do governo libanês. O Hezbollah é um componente importante até na governação. Tem dois braços, um político e outro armado, não sabemos exatamente onde é que está a fronteira. O Hezbollah é apoiado largamente pela população libanesa.

Está a ser um pretexto ótimo para Telavive e nomeadamente para os seus dirigentes ultraortodoxos, a começar logo por Benjamin Netanyahu. Israel tem intenção de tornar desmilitarizada a zona a sul do rio Litani, à exceção das forças armadas libanesas - mas não de qualquer grupo jihadista como é o caso do Hezbollah.

A contestação interna com manifestações no Irão quase desapareceu nestes 30 dias, depois de meses muito fortes de protestos com milhares de mortos em janeiro e fevereiro. A ofensiva foi contraproducente nesse particular e acabou por reforçar o regime?

Atenuou, protelou e suspendeu essa contestação. As manifestações praticamente não existem no espaço público. Agora, a parte agressora devia ter considerado que este tipo de ações contra uma nação e um Estado soberano, iria provocar uma onda de solidariedade por parte da população que viu o seu país ser atacado.

Aquilo que está a acontecer é um desmantelamento dos agressores. A escalada externa produziu uma consolidação interna, e isto não é só visível no atual momento dos ataques ao Irão.A história já nos revelou outras situações idênticas. Esta agressão contribuiu para o reforço da coesão nacional, em duas componentes.

Há a reação contra os agressores, onde a população une-se. No entanto, não deixam de querer que a economia melhore, que haja mais liberdade da expressão, no que ao vestuário diz respeito. Essa luta vai continuar. Está a haver uma suspensão dessas manifestações agora, mas elas serão retomadas quando todo este conflito terminar.

Fora do Irão, fala-se muito em Pahlavi, o filho do Xá. Ele tem pouca influência dentro do Irão, mas tem alguma influência na diáspora, sobretudo naquela que reside nos Estados Unidos. Aí a voz dele poderá ser mais ouvida, mas Pahlavi não é de modo algum a melhor solução. Dentro do Irão não existe uma oposição orgânica, está dispersa, e isso não contribui naturalmente para o bom desfecho.

Podemos esperar do regime teocrático, com a nova liderança de Mojtaba Khamenei, algum abrandamento, algumas concessões, olhando até para o lado, para o que está a acontecer no Reino da Arábia Saudita, e se calhar também tendo como modelo, o que a população turca está a vivenciar. Agora, tão depressa, o regime teocrático do Irão não vai desaparecer.


Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.

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