Entrevista
Laurence Debray: "Juan Carlos é um equilibrista, mas também um camaleão"
09 abr, 2026 - 23:34 • José Pedro Frazão
É um dos mais marcantes monarcas europeus. Geriu a transição democrática espanhola e, agora confirmado por mais documentação, foi decisivo a travar o golpe de Estado de 1981. No seu livro de memórias, Juan Carlos deixa vários lamentos sobre a frieza como o seu filho, o rei Felipe VI, o tem tratado. A sua biógrafa, Laurence Debray, atesta que o rei emérito teme o enfraquecimento da monarquia espanhola.
Laurence Debray já tinha escrito a biografia de Juan Carlos antes das memórias do rei emérito, lançadas no final de 2025 em Espanha e traduzidas este ano em Portugal.
No livro, o rei emérito explica as suas opções de exílio após o escândalo financeiro em que se envolveu, assume ter confiado em quem não devia e diz-se ilibado de qualquer acusação.
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Tendo Portugal como segunda pátria, Juan Carlos fala pela primeira vez da trágica morte do seu irmão no Estoril e confessa-se triste e até abandonado pelo seu filho.
Em entrevista à Renascença, a autora jura que a dimensão pessoal não foi o motivo pelo qual as memórias do rei se chamam “Reconciliação”.
No seu livro, Juan Carlos exprime o desejo de voltar a Espanha. O seu regresso definitivo é muito provável?
Não creio que esteja previsto a curto prazo. Sei que o rei emérito Juan Carlos quer regressar a Espanha e também à sua residência, o Palácio da Zarzuela. E, para já, não tem acesso aos Palácios do Património Nacional, e muito menos à Zarzuela. O rei Juan Carlos não está a fazer planos para o futuro. Vive os próximos dias, um após o outro. Por enquanto está em Abu Dhabi, mas viaja para Espanha para participar nas suas regatas na Galiza e fica hospedado em casa de um amigo. Fica lá apenas dois ou três dias e depois regressa a Abu Dhabi.
A Casa Real disse que a decisão do regresso de Juan Carlos a Espanha é da exclusiva responsabilidade do rei emérito.
É fácil dizer isso quando se sabe que o rei depende da Casa Real. Se voltar a Espanha, precisa de ter segurança social espanhola, segurança, carro, alojamento. Tudo isto se organiza, mas têm que pagar. Não recebe nada do povo espanhol, então como vive? Há muitas questões em aberto que não foram resolvidas. Assim, o que Zarzuela está a dizer parece-me um pouco simplista demais.
Sei que o rei emérito Juan Carlos quer regressar a Espanha e também à sua residência, o Palácio da Zarzuela
Essas são as condições para Juan Carlos voltar a Espanha?
Não, não são condições. Estou aqui para falar sobre o livro, não sou porta-voz do rei, mas estas parecem-me questões óbvias, certo? Como qualquer cidadão que viaja para um país, não é só chegar de avião. E depois o que é que acontece? Há muitos pormenores práticos que ainda não foram resolvidos.
Na página 32 do livro, o rei emérito fala dessa situação e reafirma que foi totalmente ilibado, que não tem culpa decretada por qualquer tribunal que o tenha julgado. Ele diz neste livro que a Zarzuela é a sua casa.
Ele é um senhor de 88 anos que sempre viveu ou no exílio ou no Palácio da Zarzuela. Franco disponibilizou-lhe a Zarzuela pouco antes do seu casamento com a rainha Sofia. Portanto, claro, é a casa dele. No final de contas, ele gostaria de estar lá pelo menos durante algum tempo, o que me parece humano, não?
Uma das partes interessantes do livro diz respeito à relação entre o rei emérito Juan Carlos e o rei atual Felipe. Há descrições de relações muito frias, poucos telefonemas. Que contacto real têm como pai e filho?
Temos de distinguir duas coisas: a relação entre os dois reis e a relação familiar entre pai e filho. Ambos os reis sabem que a sua missão é preservar a coroa e tudo farão para a alcançar. Assim, o pai aceita todas as decisões que o filho toma para preservar a coroa, mesmo que isso implique viver longe. Mas compreende que há razões que são mais fortes ou importantes do que os laços pessoais.
Por outro lado, claro, a relação entre pai e filho é algo fria. Estão longe, não falam muito, porque é mesmo assim. Há uma certa distância física e emocional que magoa muito o pai, que se sente um pouco abandonado.
Esse sentimento de abandono está bem explícito no início do livro. É um abandono entre pai e filho ou de um rei com o seu país?
De um ponto de vista pessoal, é um pai magoado que se sente abandonado pelo filho, mas não guarda qualquer ressentimento em relação a Espanha ou ao povo espanhol. Ele compreende que pode ter desiludido alguns espanhóis, mas não há esse tipo de amargura ou ressentimento. É uma pessoa que aceita o seu destino.
Há uma certa distância física e emocional que magoa muito o pai, que se sente um pouco abandonado
Mas na página 31 o rei emérito manifesta receio de que, ao excluí-lo, a Casa Real fragilize a monarquia. Esta é uma leitura um pouco mais política da separação entre Juan Carlos e a coroa espanhola.
Sim, tem medo. Na realidade, ele é o "pai" da Constituição espanhola — chamada Constituição do rei Juan Carlos — e também, de certa forma, o "pai" da monarquia, que tem 50 anos. Explica no seu livro, que o rei Felipe, seu filho, desvinculou-se da sua base que é o rei Juan Carlos. A base institucional, histórica e política vem do rei Juan Carlos. Este teme que interromper a transmissão possa enfraquecer um pouco a monarquia atualmente.
Por enquanto, posso dizer que o rei Felipe está a sair-se bem num contexto difícil, com um governo complexo. Está a manter-se firme. A monarquia tem-se mantido bastante bem, até agora.
O rei emérito compreende a posição do rei Felipe?
Sim, o rei Juan Carlos apoiará sempre o rei Felipe, sempre. É o seu filho e também um bom rei, que está a fazer o melhor que pode numa situação difícil. Nunca criticará o seu filho, na sua perspetiva como rei. Os reis apoiam-se mutuamente.
Mas o seu desejo máximo é, como no título do livro, a "reconciliação"?
Quando escolhemos este título, a ideia de reconciliação era mais para descrever o seu reinado. O rei Juan Carlos, após a Guerra Civil e 40 anos de ditadura, reconciliou o povo espanhol. Mais tarde, o povo espanhol – ou alguns leitores – interpretaram o título de forma diferente, mas não era essa a intenção inicial.
O rei Juan Carlos apoiará sempre o rei Felipe, sempre
Tem um duplo sentido.
Exatamente. Não tinha visto nos dois sentidos, mas é assim – os livros escrevem-se e depois pertencem aos seus leitores.
A gestão da saída do rei para Abu Dhabi não foi pacífica. Juan Carlos considera que cometeu algum erro nesse domínio?
Não sei, não posso falar pelo rei a este respeito. Pelo que sei, é mais fácil ir embora do que voltar. E foi-se embora a pensar que ficaria fora por alguns meses, mas cinco anos depois, ainda está em Abu Dhabi. Portanto, acho que ele não previu isso.
No livro aborda a gestão da informação nessa saída, porque considerou outros países como destino. Portugal foi mesmo uma possibilidade para o rei?
Sim, considerou Portugal, mas como o objetivo era afastar-se dos holofotes mediáticos, sabia que Portugal – que considera a sua segunda pátria – seria o destino onde todos os jornalistas espanhóis o procurariam, e não conseguiria ter a discrição que procurava. Quando saiu, queria "desaparecer do mapa" e isso não seria possível em Portugal. Abu Dhabi oferece-lhe essa discrição. A sua vida privada é totalmente respeitada e é lá que vive há cinco anos.
No livro, reconhece que cometeu erros ao confiar em pessoas em quem não devia
Juan Carlos confessa fraqueza ao ter confiado em pessoas, dando como exemplo alguns empresários. Do que é que o rei emérito se arrepende verdadeiramente?
No livro, reconhece que cometeu erros ao confiar em pessoas em quem não devia e ao aceitar um presente muito generoso que não devia ter aceitado. Ele reconhece ali os seus erros.
Fala de algo como de outro tempo: "Hoje temos que justificar tudo. Há 30 anos isso não interessava a ninguém".
O rei emérito nasceu antes da Segunda Guerra Mundial, numa época em que se caçava muito. O pai caçou muitas vezes, os avós também, e era igual em todas as famílias reais. Não havia tanta exigência de transparência em relação às finanças. Por exemplo, a vida do seu pai foi financiada pelos grandes de Espanha, e ninguém questionava os impostos sobre estas doações, e assim por diante.
Vivia num mundo sem redes sociais, onde ninguém espiava o outro durante todo o dia, onde a privacidade era um pouco mais respeitada. Portanto, é verdade que o mundo mudou, mas ele não. Penso que não se adaptou a estas novas exigências dos cidadãos.
Fala também do desafio de comunicação com os cidadãos por parte das monarquias. Ao falar em detalhe das suas conversas entre pai e filho, não está a cair numa contradição?
Ele foca-se na relação com o filho, no impacto que teve na sua vida pública, também para desmentir muitos rumores e mentiras que circulavam. Assim, quis apresentar a sua versão dos factos.
Por exemplo, em questões mais quentes do ponto de vista mediático, Juan Carlos escreve que a entrada de Letícia na família real não foi fácil para a estabilização das relações familiares.
Bom, ele disse essa frase, mas também disse que a rainha Letizia era uma ótima mãe. Os jornalistas focam-se nas coisas negativas e não nas positivas.
Na questão política da transição espanhola, ele descreve-se a dado momento como um equilibrista. Que valores nortearam Juan Carlos durante a transição?
Trata-se de negociação. Ele é um homem de compromisso, de como conciliar as forças armadas, os franquistas, os comunistas e os socialistas. É também uma questão de equilíbrio.
Mas há a confissão de momentos muito difíceis.
Sim, muitos riscos, muitas tensões, muitos perigos. Foram anos muito delicados que conseguiu gerir, mas o surpreendente é que, mesmo durante a liderança de Franco, já tinha antecipado isto. Os contatos já tinham começado com o Partido Comunista através da Roménia e com outros dirigentes da oposição. Não se sabia muito que ele já tinha previsto a transição uns anos antes.
A desclassificação dos documentos do golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981 pode cruzar-se com o testemunho de Juan Carlos aqui no livro. Fica clara a posição do rei, mas ele mesmo diz que continua a ter dúvidas sobre a forma como os acontecimentos se processaram. Que dúvidas são?
Não consigo dizer...
Na página 301, escreve que o rei continua a questionar-se sobre o que sucedeu e o papel de algumas pessoas, reconhecendo que há algumas "nuvens" na interpretação dos factos.
Bom, não posso dar mais pormenores.
Mas, como alguém que escreveu este livro com o rei, ficou surpreendida com o teor do material desclassificado?
Não, de todo. Confirmou tudo o que foi escrito.
Falemos de Portugal. Ele considera de facto esta como a sua segunda casa. O seu pai viveu mais de 35 anos no Estoril.
Ele também viveu no Estoril durante parte da infância. A irmã ainda visita o Estoril com frequência. É um país pelo qual têm muito carinho. O rei passa por aí muitas vezes. A ida para Abu Dhabi era uma questão de discrição, porque ele não queria a atenção dos media e sabia que mudar-se de Madrid para o Estoril não lhe traria muitos benefícios. Por isso, em Abu Dhabi, estando mais distante, isolava-se mais, porque a ideia era como que desaparecer. Mas agora, para ir a Sanxenxo, à Galiza, para competir nas regatas, passa muitas vezes por Lisboa para evitar ir a Madrid.
Tem ainda muitos amigos em Portugal?
Sem dúvida, tem amigos de infância.
Morte do irmão no Estoril? Foi a primeira vez que falou sobre o assunto publicamente
Explicador
Ascensão e queda de Juan Carlos. De "melhor embaixador de Espanha" a Rei no exílio
Subiu a chefe de Estado com Franco e por saber "le(...)
Há um momento muito negro, a morte do seu irmão por acidente no Estoril. Foi difícil falar disto com o rei?
Eu não queria pressioná-lo demasiado. Quando começámos o livro, concordámos que tínhamos de falar sobre tudo: o bom, o mau, o difícil, o emocional e assim por diante. Mas eu respeitei a sua voz e o facto de que ele falaria comigo sobre isso quando estivesse preparado ou quisesse. E foi a primeira vez que falou sobre o assunto publicamente.
O que a surpreendeu mais neste testemunho do rei Juan Carlos?
Já tinha escrito uma biografia sobre ele, portanto tinha projetado coisas que, no final de contas, não correspondem à sua natureza. Por exemplo, imaginava-o muito mais maquiavélico e apegado ao poder. E descobri um homem que, sendo de facto um verdadeiro ‘animal político’, não tem medo dos riscos e é muito determinado, mas não tão apegado ao poder. A prova disso é que ele se foi embora e abdicou.
É mais uma questão de carácter. Imaginava um determinado homem, mas depois de dois anos a trabalhar com ele, descobri uma pessoa diferente.
A classificação de "equilibrista" feita por ele mesmo é a melhor definição política do rei Juan Carlos?
Diria que é um equilibrista, com certeza, mas também é um camaleão. Ele adapta-se a tudo. Nasceu no exílio e é agora um rei num exílio isolado. Adapta-se a todos os desafios que o destino lhe apresenta.
Incluindo esta separação?
Claro, ele adapta-se a tudo, desde a infância até hoje. Adaptou-se a viver entre Franco em Espanha e Dom Juan no Estoril. Adapta-se a tudo e a todas as situações.
Uma adaptação, contudo, com alguma tristeza por não estar em Espanha? Ele fala muito das viagens que moldaram o seu carácter.
Sim, é absolutamente verdade. Teve um reinado muito internacional. Viajou muito, conheceu todos os chefes de Estado, fala muitas línguas, viveu em muitos países. É um homem com um perfil muito internacional e sempre viajou muito.
Era alguém que tinha acesso a todos os maiores e mais importantes chefes de Estado, que negociava ao mais alto nível, que sempre foi muito ativo. Portanto, é mesmo assim, mais uma mudança.
Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.












