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“O funcionamento da União Europeia também vai a votos nas eleições húngaras”
12 abr, 2026 - 15:01 • José Pedro Frazão
O influente eurodeputado romeno Siegfried Muresan acredita que as eleições húngaras podem ser um impulso a diversos processos negociados na Europa. Em entrevista à Renascença, o eurodeputado co-relator da negociação do próximo orçamento europeu diz que quem quiser receber fundos comunitários tem de respeitar os valores europeus, defende uma cláusula em defesa do Estado de Direito no próximo orçamento europeu.
Siegfried Muresan, eurodeputado romeno do Partido Popular Europeu é co-relator do Parlamento Europeu para as negociações sobre o próximo quadro financeiro plurianual de sete anos, entre 2028 e 2034, responsabilidade partilhada com Carla Tavares, eurodeputada eleita pelo PS.
Em conversa com a Renascença, à margem de uma recente visita de trabalho a Portugal, Muresan reconheceu a importância das eleições deste domingo na Hungria para a Europa e para o apoio à Ucrânia.
Discute-se neste momento um possível atraso no calendário negocial do quadro financeiro plurianual. O Chanceler alemão Merz fala mesmo na possibilidade de adiamento para o próximo ano. Considera isso cada vez mais plausível?
Um atraso seria um erro. O próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia deverá entrar em vigor a 1 de Janeiro de 2028. Continuará a financiar as áreas prioritárias tradicionais, como a Política Agrícola Comum ou a política de Coesão, mas terá também novas prioridades em matéria de segurança e defesa. Queremos que estas áreas, negligenciadas no passado - como a defesa - recebam apoio já no início de 2028.
Não podemos tolerar atrasos nesta área e, para que os beneficiários tenham acesso ao financiamento a 1 de janeiro de 2028 sem demora, é essencial que adotemos o orçamento para os próximos sete anos a nível europeu em breve, para que, posteriormente, as autoridades nacionais e regionais possam preparar os programas e a absorção dos recursos.
A eurodeputada Carla Tavares e eu apresentaremos, nas próximas semanas, a posição do Parlamento para as negociações com o Conselho e a Comissão. O nosso objectivo é que esta posição seja adoptada pelo plenário do Parlamento Europeu no final de Abril, para que o Parlamento tenha um mandato negocial.
Apelo veementemente ao Conselho e aos Estados-Membros que não atrasem as suas discussões. Devem adotar uma postura negocial também nos próximos meses, para que possamos reunir, negociar e concluir o mais rapidamente possível.
A expectativa do Parlamento é que as negociações estejam concluídas antes do final de 2026. Isto porque 2027 será um ano de eleições em muitos dos maiores Estados-Membros da União, provavelmente França, Itália, Espanha e Polónia. Será difícil aprovar um projeto com impacto para sete anos durante as campanhas eleitorais. Pensamos que o final de 2027 é demasiado tarde.
Comenta-se também o impacto destas eleições húngaras.
Infelizmente, este governo húngaro tem sido, durante muitos anos, um mero fantoche da Rússia e tem sabotado a União Europeia, de forma consciente e deliberada.
Mais do que isso, enfraqueceu também a Hungria. A Hungria tem mais de 20 mil milhões de euros em fundos da UE congelados porque este governo húngaro agiu contra as regras, contra os valores europeus, contra o Estado de Direito . Basicamente, empobreceu a Hungria e agiu contra os interesses do povo húngaro.
Portanto, o povo húngaro decidirá quem deseja que lidere o seu país e depois veremos como lidaremos com isso a nível europeu. Mas posso afirmar, com toda a clareza que quem quiser receber fundos europeus tem de respeitar os valores europeus. Precisamos de uma condicionalidade muito clara em matéria de Estado de Direito para o futuro.
A inclusão de uma cláusula sobre o Estado de Direito é essencial para o Parlamento Europeu?
Será muito importante. É fortemente defendida por todos os grupos pró-europeus no Parlamento Europeu. Queremos que uma cláusula sobre o Estado de Direito se aplique a todo o orçamento da União, para que quem receba fundos europeus tenha de respeitar os valores europeus.
Todos os governos devem estar conscientes disto e devem saber antecipadamente qual será o preço a pagar, quantos fundos serão suspensos se agirem contra o Estado de direito e contra os valores europeus.
Esperamos que, após estas eleições húngaras, haja um impulso para avançar com as negociações sobre o orçamento da UE, e acreditamos que isto também é do interesse do povo húngaro. Se Viktor Orbán bloquear toda a Europa, o povo húngaro também sairá a perder.
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Quanto à Ucrânia, existem vários bloqueias. Será que Viktor Orbán é mesmo o único culpado por esta situação?
Sim, existem nuances entre os governos dos Estados-membros da UE. Mas, por outro lado, todos os outros governos na Europa, com exceção deste tipo executivo húngaro, reconhecem objectivamente que a luta que o povo ucraniano está a travar é importante para a estabilidade e a segurança de toda a União Europeia.
Estou convencido de que Viktor Orbán está deliberadamente a servir a Federação Russa, a enfraquecer a Europa e a prejudicar o povo da Hungria.
Com todos os outros governos da União Europeia, existem nuances. Mas creio que poderíamos chegar a acordo com todos eles com base nas regras, leis e compromissos europeus.
Ainda não vimos nenhum outro governo da União Europeia agir de forma tão aberta e deliberada contra a Europa, contra o seu próprio povo e a favor da Rússia como vimos com Viktor Orbán. Com outros governos haverá nuances, discussões e negociações, mas não haverá certamente a sabotagem que existe com Viktor Orbán.
Conseguirá ultrapassar o veto húngaro que está em jogo agora?
Vamos esperar pelas eleições húngaras e depois veremos.
Então o futuro da Ucrânia também está em causa nas eleições na Hungria?
Penso que o funcionamento da União Europeia também está em causa nesta votação, porque votar em Viktor Orbán significa apoiar um governo que bloqueia a União Europeia, que serve a Federação Russa, que desvia fundos da UE do seu próprio povo húngaro.
A Hungria está hoje mais isolada, economicamente mais fraca, com mais desemprego e mais inflação do que estaria se tivesse um governo sério e que respeitasse as regras.
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E as reformas na Ucrânia estão no bom caminho? Muitos analistas falam ainda do combate à corrupção e até da questão das eleições em Kiev.
Com base nas leis e na Constituição ucranianas, as eleições não podem ocorrer durante a lei marcial e isso é algo reconhecido até pelos partidos da oposição. Mas a Ucrânia precisa de acelerar também as reformas para combater a corrupção e o branqueamento de capitais.
É claro que o país está numa situação difícil. É mais fácil fazer reformas em tempos de paz do que em tempos de guerra. E sabemos que também existem muitos funcionários públicos empenhados na Ucrânia, mas uma coisa é certa: queremos que a Ucrânia avance no seu caminho de integração europeia, porque isso significa tornar-se mais forte, mais moderna, mais reformada e, para conseguir isso, tem de dar prioridade ao Estado de Direito, ao combate à corrupção e ao branqueamento de capitais e à independência do poder judicial.
Tal como aconteceu com outros países candidatos, a Ucrânia ainda tem muito a fazer nesta área.
É viável que 2030 seja a data limite para a integração da Ucrânia?
Nós achamos positivo que a Ucrânia queira integrar-se rapidamente, porque isso mantém uma certa motivação da parte deles, mas ainda não existe uma data acordada entre a Ucrânia e a União Europeia.
A posição da União Europeia é clara. A Ucrânia é bem-vinda à União Europeia. As negociações de adesão podem avançar rapidamente, mas todos os países devem respeitar os critérios de adesão antes de aderirem à União Europeia, pelo que assim que a Ucrânia respeitar os critérios de adesão, será bem-vinda na União Europeia, tal como qualquer outro país candidato, a República da Moldávia ou os países dos Balcãs Ocidentais.










