"Portugal não é Espanha. Temos de privilegiar os EUA", diz ex-embaixador na NATO

30 abr, 2026 - 09:00 • Alexandre Abrantes Neves

Embaixador Almeida Sampaio considera que a Europa, e especialmente Portugal, deve proteger as relações transatlânticas "apesar de Trump e por causa de Trump", afastando críticas severas a Washington. Já sobre o investimento português em defesa, o diplomata pede explicações "escrupulosas" ao governo.

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O embaixador Luís de Almeida Sampaio – que representou Portugal junto da NATO entre 2015 e 2019 – avisa que Portugal é a "ponte, a entrada" do outro lado do Atlântico na Europa e que, por isso, se deve manter à margem da onda de críticas a Washington na sequência da guerra no Irão.

"Portugal não é Espanha. Temos de privilegiar os Estados Unidos", afirma, em entrevista à Renascença.

Na leitura do diplomata (que também passou pela embaixada em Berlim e em Praga), a Europa tem desperdiçado sem razão a postura de "adulto na sala" com declarações como a do chanceler alemão, Friederich Merz, que afirmou que os EUA estavam a ser "humilhados" pelo Irão.

Numa entrevista com vários alertas sobre o crescimento da Rússia perante as divisões, Almeida Sampaio antecipa uma cimeira "nada fácil" em Ancara, na Turquia, no início de julho. Já quanto ao investimento em defesa, lamenta a falta de explicações por parte do governo português e aponta que a verdadeira autonomia estratégica só chega com "investimentos entre os 12% e 17% do PIB.


Como é que analisa a mais recente tentativa de ataque a Donald Trump?

Aquilo que me parece significativo é que este tipo de eventos que se repetem designadamente em relação ao Presidente atual dos Estados Unidos são um epifenómeno de uma sociedade norte-americana com profundas clivagens, com profundas divisões e com um discurso político muito de conflituosidade, de muita agressividade, parte a parte, e essa agressividade, essa conflitualidade da narrativa, tem obviamente consequências. Eu tenho dito isso em várias ocasiões públicas: é preciso muito cuidado com as narrativas políticas inflamadas. Narrativas políticas inflamadas, sejam elas de que origem for, são obviamente perigosas, porque alimentam sempre extremismos, radicalismos e fenómenos que mesmo aparentemente isolados, são fenómenos objetivamente violentos. O discurso político tem de ser um discurso sereno, tem de ser um discurso sóbrio, informado.

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A Alemanha acusou os EUA de falta de estratégia. Disse até que Donald Trump está a ser humilhado pelo Irão.

Mais uma vez, todo esse tipo de linguagem é um tipo de linguagem completamente desnecessário no atual contexto. Eu não partilho da opinião que os Estados Unidos estejam a ser humilhados. É preciso perceber e dizer as coisas de uma forma muito clara. O regime iraniano muito provavelmente, neste momento, está mais fortalecido porque mais radicalizado: os ataques americanos e israelitas terão contribuído para uma radicalização e para um reforço da ala mais radical dentro do regime iraniano. Outra coisa é dizer que o regime iraniano está a humilhar Washington.

Das suas palavras pode deduzir-se que estas declarações da Alemanha mostram alguma irresponsabilidade por aprofundarem a brecha dentro da aliança?

Este é o momento de grande responsabilidade, designadamente declaratória, por parte de europeus, por parte de americanos, no sentido da preservação da relação transatlântica.

Se, do lado europeu, há muitas vezes a pretensão de utilizar esse argumento de autoridade moral e dizer nós temos de ser os adultos na sala, agora – e num momento em que a relação transatlântica está a sofrer desafios – não é com esse tipo de declarações que se contribui para uma atitude de natureza responsável, serena e que contribua ela mesma para o reforço da relação transatlântica.

Caso não seja possível reatar relações, quem sai mais prejudicado? Europa ou EUA?

Do ponto de vista estratégico, é gravíssimo este tipo de afirmações, até sobre a vontade de aumentar a autonomia da Europa em relação aos EUA. Se eu fosse inimigo do Ocidente, a minha principal preocupação estratégica seria dividir os dois lados do Atlântico. Foi isso que a União Soviética tentou fazer durante décadas, é isso que a Rússia continua a fazer designadamente a propósito da Ucrânia e, nesse sentido, até é possível dizer, forçando um bocadinho a nota, que então Donald Trump é um dos principais inimigos do Ocidente.

O que quero dizer com isto é que a preservação da relação transatlântica, por razões estratégicas, de preservação das democracias, civilizacionais, é uma tarefa fundamental, apesar de Trump e por causa de Trump.

Nesse sentido, como é que avalia a reação de Mark Rutte à renovação das ameaças de Donald Trump de saída da Nato? Rutte disse perceber o “desapontamento” com aliados.

Mark Rutte foi primeiro-ministro da Holanda, como todos sabemos, e em Portugal é muito associado à Troika, aos anos difíceis e não é propriamente o político europeu mais bem-amado, designadamente na comunicação social portuguesa, por razões naturalíssimas. Mas é um político muito hábil e era muito hábil já na NATO, como primeiro-ministro da Holanda, durante a primeira administração de Trump.

Mark Rutte conhece muito bem Donald Trump e, obviamente, tenta falar com ele numa perspetiva que preserve e proteja a relação transatlântica. Se ele fosse secretário-geral da Nato e tivesse um discurso antagonizando o presidente dos Estados Unidos, que são o principal baluarte da relação transatlântica, não só do ponto de vista militar, do ponto de vista financeiro e, obviamente, do ponto de vista político, ele não estaria a cumprir o seu papel.

Ameaças de Trump. "Rússia não precisou de fazer nada para NATO se desmontar"
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Perante o cenário atual, considera que a semana de julho em Ancara, na Turquia, pode ser um momento para apaziguar tensões como foi em Haia o ano passado? Ou este cenário é muito mais complicado?

Eu diria que é mais complicado. É mais complicado porque aquilo que está a acontecer no Médio Oriente agudizou estas tensões e com uma componente muito significativa de política interna. Eu espero que prevaleça o bom senso, e daqui até julho, em política dois ou três meses são uma eternidade. Pode haver uma evolução muito significativa na situação no Médio Oriente. Não é de excluir que isso aconteça, também pode acontecer que a tragédia suba o lume e que haja um alargamento do conflito.

Mas alcançar a paz, ou pelo menos um cessar-fogo mais duradouro, poderia fazer Trump esquecer a postura de alguns aliados nas últimas semanas?

Eu acho que ele não vai esquecer aquilo que, e não só não vai esquecer, como vai fazer questão de o dizer na cara dos seus pares europeus à mesa do Conselho. No primeiro mandato, Donald Trump disse na cara de Angela Merkel, a propósito do gasoduto Nord Stream 2: “Você está no bolso de Putin”. Ele tem este tipo de discurso e de linguagem mesmo em reuniões à porta fechada. Portanto, eu não tenho nenhuma dúvida de que não vai ser bonito o diálogo entre Donald Trump e os seus pares.

Agroa, a construção de uma declaração, se possível curta, com objetivos muito claros, que resulte da Cimeira e, sobretudo, que resulte de uma negociação muito séria entre os aliados, isso é o mais importante. O que aconteceu nas últimas semanas vai deixar cicatrizes? Sobre isso, não tenho a menor dúvida.

Nesta preparação da cimeira, como é que gostava que Portugal se posicionasse em julho pelo primeiro-ministro, que será quem normalmente atende à Cimeira da Nato, mas também pelo Presidente da República, perante esta tensão nas relações transatlânticas?

Eu tenho, em relação ao Presidente da República, António José Seguro, não só em relação a ele, por ele, mas eu estou muito confortável com o facto de ele ter a melhor assessoria diplomática possível – escolheu a embaixadora Manuela Teixeira Pinto, que foi minha número dois.

Aquilo que eu espero é, sobretudo, que o governo tenha absoluta consciência do seguinte. Nós não somos a Espanha. Nunca devemos perder de vista que temos não só relações transatlânticas privilegiadíssimas: basta pensar nos Açores (que foram o motivo inicial da nossa participação na fundação da NATO), mas também temos uma relação com o Atlântico Sul, Brasil. Nós não somos um daqueles países que tem apenas a Europa como destino coletivo. Nós somos a porta, a ponte, a chave para além da Europa. Não podemos nunca esquecer isso designadamente quando o tratamos em matérias de defesa e de segurança.

E, nesse sentido, não vê necessidade numa revisão do Acordo da Base das Lages?

O Acordo da Base das Lages é um acordo que pode ser sempre revisto, no sentido em que pode ser sempre aperfeiçoado. Mas deve ser aperfeiçoado, se for o caso disso, revisto, justamente no sentido do aprofundamento da relação transatlântica. Não deve ser nem revisitado, nem revisto, no sentido de poder prejudicar a relação transatlântica.

E Portugal poderá ganhar se Trump começar a mover tropas norte-americanas entre bases de aliados? Para “castigar” quem foi mais crítico da operação no Irão?

Se houver benefícios estratégicos designadamente em matéria de defesa, de cooperação militar, tecnológica, de transferência de tecnologia, se houver vantagens significativas para Portugal em receber bases norte-americanas, sim. Para os Estados Unidos é indiferente se essas bases estão em Espanha ou estão em Portugal. É indiferente se essas bases estão na Alemanha ou estão em Beja. Não temos de nos submeter a outro tipo de ditames, não temos de nos submeter a qualquer fantasia de solidariedade com os nossos aliados espanhóis e, por isso, não aceitamos que os Estados Unidos transfiram as bases militares da Espanha para Portugal. Isso, na minha opinião, seria um erro político monumental.

O governo português diz já ter chegado aos 2% do PIB em investimento em defesa. Até 2035, a meta é os 5%. Está suficientemente bem explicado como é que Portugal vai alcançar estes números?

Tem absolutamente de ser, escrupulosamente, muito bem explicado. Acredito na boa fé do primeiro-ministro e do ministro da Defesa quando dizem que 5% são alcançáveis sem pôr em causa políticas públicas de grande impacto social. Mas eu gostava de ver isso explicado em números.

Todos os estudos, e eu tenho tido felizmente acesso a alguns dos mais cotados desses estudos, apontam para números que são os 12% e os 17% do PIB de cada um dos países membros da NATO e simultaneamente membros da União Europeia se, efetivamente, se enveredasse pelo caminho de uma verdadeira autonomia estratégica em matéria de defesa e de segurança.

E a razão é muito simples, porque não são só as despesas com armamento convencional, as despesas que no fundo têm a ver com todo o tipo de equipamentos de projeção de poder de natureza estratégica para além das fronteiras da própria União Europeia, mas têm a ver sobretudo com a componente da dissuasão nuclear.

De resto, ainda muito recentemente, o primeiro-ministro espanhol, na minha opinião e de uma forma extemporânea e leviana, voltou a falar da criação de um exército europeu. Aquilo que eu estou a dizer é que a criação de um exército europeu, que está implícito no tipo de declarações como essas recentes do primeiro-ministro espanhol, implica que os governos que tenham a responsabilidade por tomar essas decisões e expliquem também às suas opiniões públicas que estão a falar de algo que acabaria por acarretar despesas da ordem dos tais 12% a 17% na matéria de PIB.

Se o governo incluir no 1,5% de “dual use”, militar e civil, o novo aeroporto de Lisboa ou a terceira travessia sobre o Tejo, isto é algo que faz sentido à luz da NATO? Ou é uma manobra matemática e prejudicial?

Os governos dificilmente resistirão à tentação de tentar todas as formas que possam, por um lado, alijar o impacto, mais uma vez, em políticas públicas de relevo social das tais despesas com implicações em matéria de defesa. Diria é que vai, inevitavelmente, haver um momento de verdade nestas coisas e esse momento de verdade pode chegar mais cedo do que mais tarde.

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Neste tema, quero chamar a atenção para o seguinte. Se os alargamentos da União Europeia tiverem lugar, designadamente à Ucrânia, o impacto verbal na política agrícola comum, Portugal pode perfeitamente passar de país beneficiário líquido para país contribuinte líquido para a União Europeia.

E, no dia em que isso acontecer, é que eu quero ver a maioria da opinião pública portuguesa em relação à nossa atitude europeia. A Europa não é apenas uma fonte de financiamentos, mas é uma exigência enorme do ponto de vista dos nossos compromissos em matéria designadamente de democracia e liberdade.

Nos últimos anos, houve a decisão de reintroduzir o serviço militar, como na Alemanha e na Finlândia, com os moldes a dependerem consoante o país. Esteve deveria ser um tema de maior debate em Portugal?

A minha opinião, pessoalíssima, é que em Portugal não estão reunidas as condições para que haja um debate consequente com objetivos normativos, no sentido do regresso a um sistema de serviço militar obrigatório.

Talvez para terminar esta questão seja muito importante, como sabe, os países nórdicos, designadamente, têm vindo a desenvolver, já há anos, aquilo a que eles chamam o conceito de total defense, defesa total. Cada cidadão tem exatamente um rol de informações e responsabilidades para cumprir quando e se uma situação de crise eclodisse. Nós não temos nada disso. Estamos ainda muito longe de percorrer esse caminho, que a mim me parece fundamental e prévio a qualquer discussão sobre o serviço militar obrigatório.

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