Entrevista Renascença

Viviane Reding: "Quinze anos depois da Troika, o sucesso económico de Portugal é enorme"

05 jun, 2026 - 07:00 • José Pedro Frazão

Aos 75 anos, Viviane Reding diz não ter tempo para discutir o pessimismo que invade muitos analistas e líderes europeus. Em entrevista à Renascença, a antiga vice-presidente da Comissão Europeia reconhece que para chegar a algum lado na Europa é preciso entrar em muitas discussões e renovar constantemente o espírito europeísta.

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Viviane Reding: "15 anos depois da Troika, o sucesso económico de Portugal é enorme"
Viviane Reding: "15 anos depois da Troika, o sucesso económico de Portugal é enorme"

Considerada uma das figuras mais carismáticas dos corredores do poder em Bruxelas, a antiga vice-presidente da Comissão Europeia Viviane Reding recebeu recentemente a Ordem Europeia do Mérito, tal como Angela Merkel e Cavaco Silva.

Entrevistada pela Renascença em Estrasburgo, a luxemburguesa que foi comissária europeia durante 15 anos recorda o caminho positivo feito por Portugal desde a intervenção da Troika e reconhece a lentidão dos processos de decisão na Europa.

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O que é que mais valoriza do seu tempo como decisora, tanto na Comissão como no Parlamento Europeu?

Já me fizeram esta pergunta várias vezes e ainda não cheguei a uma conclusão. Sempre que abordava um assunto, este tornava-se o mais importante do mundo, para o qual era preciso encontrar uma boa solução.

Vou dar-lhe uma ideia. No ano 2000, eu era responsável pelo cinema europeu. O cinema europeu estava morto, subfinanciado, e os jovens talentos não tinham possibilidade de fazer filmes. Então decidi: "Muito bem, vou dar nova vida ao cinema europeu".

Encontrámos uma solução, em conjunto com outros comissários, para permitir que o cinema fosse financiado pelos Estados-membros. Eliminámos as regras que proibiam o financiamento. Criámos possibilidades financeiras muito sólidas para o cinema na Comissão. E os novos talentos e os talentos mais antigos floresceram. E organizámos no Festival de Cannes um Dia da Europa, onde todos os ministros vieram com os seus cineastas nacionais. Já ninguém se lembra disso, mas achei que era importante dar ao cinema uma nova oportunidade. E fiz o mesmo com tudo aquilo em que me envolvi.

Tentei também dar uma nova oportunidade também à educação. O programa Erasmus já existia, por isso pensei num Erasmus para o mundo inteiro, Por isso, desenvolvi o Erasmus Mundus. Porque não fazer com que as universidades colaborassem entre si? Criei um Mestrado Europeu, em que três universidades de três países diferentes tinham de colaborar. Além do intercâmbio de estudantes, avançámos também com um intercâmbio de professores.

Por isso, em tudo o que tomei em mãos, tentei fazer algo que valesse a pena.

Nos debates europeus, por vezes, há algum pessimismo sobre a forma como a Europa está a avançar. Passamos demasiado tempo a pensar na Europa como algo que não vale a pena?

É preciso renovar o espírito todos os dias. Se começarmos a descansar sobre o que já foi feito, não conseguimos fazer coisas novas. A ação política não é algo em que nos possamos acomodar. Temos de lutar e empenhar-nos. É exatamente o que aconteceu com o cinema europeu. Descobri-o num determinado momento e precisei de fazer algo para resolver o problema. Caso contrário, teria morrido, sem dúvida. Hoje, 25 anos depois, quem se dedica ao cinema europeu tem de inventar algo novo, adaptado aos tempos atuais.

Dou-lhe o exemplo do Erasmus, que existia e não precisava de reforma. Era maravilhoso, mas podia ter uma extensão, e foi isso que eu fiz. Não se deve reinventar o mundo, mas torná-lo num lugar melhor.

Onde encontra a origem de algum pessimismo que por vezes encontramos quando falamos da Europa hoje em dia?

Não participo nessas discussões porque não tenho tempo para isso. Temos tanto para fazer, e, com o pessimismo, só se consegue desfazer as coisas. Por isso, o pessimismo é um luxo que não posso ter. Preciso de otimismo para ter sucesso.

Só dessa forma, é possível ultrapassar os obstáculos que por vezes se encontram no processo europeu de tomada de decisões, porque, por vezes, é um processo lento.

Se começarmos a descansar sobre o que já foi feito, não conseguimos fazer coisas novas. A ação política não é algo em que nos possamos acomodar

Tenho a certeza de que, nas suas funções, terá por vezes desabafado: "Temos de avançar mais depressa, temos de avançar mais depressa". Como lidou com isto?

Sim, por vezes, gostaria de ter sido uma ditadora: teria uma boa ideia e ia simplesmente pô-la em prática agora, ponto final. Mas vivemos numa democracia, e há muitas discussões a decorrer.

Temos uma ideia, depois há pessoas que debatem essa ideia e, por fim, temos de convencer as pessoas a ajudar-nos. Na Europa, não basta ter uma ideia enquanto comissário europeu. Temos de persuadir também o Parlamento Europeu e os governos e, juntos, temos de tomar uma decisão. Por isso, é um processo de tomada de decisão muito árduo e demorado. Poderia ser mais rápido? Sim, poderia mesmo, mas não nos esqueçamos: a democracia avança lentamente.

A democracia continua a ser um dos grandes temas na Europa, com a ascensão do populismo. Qual é o maior desafio político da Europa atual?

Estou muito feliz pelo facto de que o grande problema que tivemos com Orbán na Hungria – que durou décadas – ter finalmente chegado ao fim. Foi o povo da Hungria que decidiu que acabou. Não veio de cima para baixo, veio de baixo para cima. Simplesmente votaram num político mais razoável, que consegue resolver os problemas e não criar mais alguns.

Por isso, vê-se que há esperança, mesmo quando se pensa que o sistema já não permite avançar. Algo em que tenho dúvidas é sobre os movimentos de direita em ascensão, que não têm quaisquer soluções, limitando-se a dizer que tudo o que estamos a fazer é mau e que eles farão melhor.

Em regiões ou cidades onde estes movimentos de direita chegaram ao poder, o seu discurso esgotou-se muito rapidamente. Quando são confrontados com a realidade e têm de resolver problemas, o discurso não basta.

Em regiões ou cidades onde estes movimentos de direita chegaram ao poder, o seu discurso esgotou-se muito rapidamente

Mas acha que isso pode pôr em risco a ideia de Europa ou apenas é um problema para cada Estado-membro que está a lidar com a ascensão destas forças?

Nem todos os Estados-membros têm um problema com a direita. Há alguns países que têm um problema real. É preciso analisar cada Estado-membro, porque as situações são diferentes na política nacional, de onde vem este problema. Talvez devêssemos analisar por que razão esta extrema-direita teve sucesso e, depois, fazer com que isso não possa continuar.

No Luxemburgo, por exemplo, a extrema-direita tentou várias vezes emergir. Não conseguiu, de todo. Temos vários partidos políticos, da direita à esquerda, passando pelo centro, mas a extrema-direita não foi aceite pelo povo.

Os problemas de que falavam não existiam no Luxemburgo. Somos um país de imigração. Como sabe, temos uma enorme imigração portuguesa. Mas somos um país que integra os seus migrantes. Isso significa que as crianças vão à escola, os pais são aceites no bairro, existem associações, e eles sentem-se bem-vindos e estão integrados na sociedade. Se integrarmos os migrantes na sociedade, então não temos problemas.

Muitos analistas dizem que, se aplicarmos as medidas dos relatórios Letta e Draghi, tornando a Europa mais competitiva, isso resolverá alguns destes problemas económicos e prejudicará a agenda política da direita face aos problemas que apontam na Europa. Acha que a resposta está na economia?

Os relatórios Draghi e Letta não tratam de dar dinheiro às pessoas. Pretendem analisar por onde temos que ir no futuro para sermos competitivos. Somos suficientemente fortes em tecnologia ou fomos ultrapassados pela China e pelos Estados Unidos? Precisamos de desenvolver as nossas 'startups' para que se tornem empresas 'campeãs europeias'? Se precisarmos de fazer isso, temos capital de risco e dinheiro de investimento suficientes para estas empresas?

Não se trata de subsídios, mas de transformar uma pequena empresa numa grande 'campeã europeia' e, por essa via, numa 'campeã mundial'. Foi isso que Draghi e Letter afirmaram.

Devemos garantir que o dinheiro que existe – e que está adormecido nos bancos neste momento – seja investido nas empresas, em tecnologias. O que sai atualmente das nossas universidades e dos nossos talentos,vai para as pequenas empresas e depois fica parado para ser comprado pelos americanos, porque não fornecemos dinheiro para que essas empresas cresçam.

Não se trata de distribuir o dinheiro, mas de tornar as empresas capazes de agir no nosso território, de fazer da Europa um continente soberano em tecnologia, e não como um mendigo.

Nada é perfeito, em lado nenhum. Mas o sucesso de Portugal e dos nossos países do Sul em matéria económica e social é enorme

Há 15 anos, a Europa do Sul, como Portugal e a Grécia, vivia tempos duros. Uma década e meia depois, como olha para o que esses países, nomeadamente Portugal, se tornaram?

Os países do Sul eram pobres e mal organizados. Os seus governos não estavam a dar a resposta que a indústria, os cidadãos ou os trabalhadores precisavam. Por isso, foram necessárias muitas reformas. Muito dinheiro foi investido para ajudar a economia a crescer.

Veja o resultado. Há alguns anos, toda a gente discutia que a Grécia sairia da Europa e do euro. Hoje, a Grécia é uma economia em crescimento e está bem no euro.

Há alguns anos, as pessoas de Portugal precisavam de emigrar porque não encontravam emprego nem meios de subsistência no vosso país. Hoje, os filhos desses emigrantes regressam a Portugal para trabalhar em Portugal, porque conseguiram fazer crescer a vossa economia e garantir o bem-estar da população.

Nada é perfeito, em lado nenhum. Mas o sucesso de Portugal e dos nossos países do Sul em matéria económica e social é enorme.

E, por fim, falemos das mulheres. Uma das suas lutas foi sobre a representação das mulheres na sociedade, nas empresas e no poder político. E agora têm uma presidente da Comissão Europeia, uma presidente do Parlamento Europeu. Será que chegámos ao melhor momento que já tivemos em termos de representação feminina?

Foi uma grande luta. Fiz a minha primeira campanha eleitoral em 1979. E não havia mulheres por perto. Por isso, estávamos muito sozinhas. Não havia mulheres no poder, nem gestoras nas empresas, ninguém.

Hoje, o reconhecimento de que o talento feminino é tão importante como o talento masculino é generalizado. E escolhe-se uma pessoa não por ser homem ou mulher, mas porque ela ou ele tem algo a oferecer.

Tenho uma ressalva ao que acabei de dizer. Ainda há muito poucas mulheres nas áreas STEM [Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática]. Quando olho para as nossas universidades, normalmente as mulheres estão na gestão, na economia e nas ciências humanas, até mesmo na medicina, mas nas áreas técnicas. Temos uma média de apenas 7% ou 8% de mulheres nos departamentos STEM. E isso não é bom para o futuro. Temos de trazer mais mulheres para este que será o conhecimento do futuro.


Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.

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