Entrevista a Peter Rough
"Trump quer que Europa passe de ‘tigre de papel’ a um ‘dragão de aço’ que mete medo ao ‘urso russo'"
29 jun, 2026 - 23:51 • José Pedro Frazão
A Europa ainda é importante para os EUA, mas os desafios atuais exigem uma Europa militarmente mais autónoma. A análise é de Peter Rough, diretor do Centro para a Europa e Eurásia do Instituto Hudson, que esteve recentemente em Lisboa no âmbito do Foro la Toja.
Apesar das divergências na segurança e defesa e da atenção americana face à China. os parceiros europeus são ainda muito relevantes para Washington. A opinião é de Peter Rough, director do Centro para a Europa e Eurásia do Instituto Hudson.
De passagem por Lisboa para o Foro La Toja, este analista concedeu uma entrevista à Renascença onde salienta a importância estratégica de países do Leste europeu, como a Polónia, e assegura que há sinais de que o laço transatlântico se mantém forte nas bases republicana e democrata norte-americana.
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Lendo com atenção a estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, a defesa de uma mudança na Europa, no plano da democracia e do populismo, pode ter falhado no seu primeiro teste, que seriam as eleições para a Hungria. O que é que Trump quer realmente da Europa?
Não creio que esta administração esteja interessada em operacionalizar uma campanha política na Europa, como os Estados Unidos fizeram no início da Guerra Fria. Na altura, não era claro se a França seguiria o caminho do comunismo ou se a Itália se juntaria ao Bloco de Leste. Tivemos operações da CIA em locais como Bolonha para encorajar os social-democratas a tomar o país, em vez dos comunistas, numa campanha realmente sofisticada.
Isto parece-me mais uma declaração aspiracional de algumas partes da administração. O próprio Presidente é muito mais transacional em relação à política externa em geral. Não acho que esteja tão envolvido nestes debates ideológicos específicos.
Viktor Orbán era importante para Trump por causa da grande lealdade pessoal que Orbán lhe demonstrou após 6 de janeiro de 2021, quando toda a Europa já tinha passado para Joe Biden – porque era então Presidente –, mas também pensava que Donald Trump estava acabado para sempre. Viktor Orbán manteve-se com o Presidente Trump, e penso este quis retribuir isso. Mas não acho que seja uma campanha política sofisticada.
Vimos o Presidente fazer comentários sobre o Canadá, sobre a Dinamarca, sobre a Hungria, e tivemos eleições desde então, mas os EUA não tiveram um papel importante. Na verdade, Viktor Orbán perdeu, Mette Frederiksen foi reeleita e Pierre Poilievre perdeu a eleição para Mark Carney depois de ter uma vantagem considerável.
Se os EUA estivessem realmente envolvidos num jogo político sofisticado, ou não resultava de todo, ou saía-lhe pela culatra. Não creio que seja muito mais do que apenas um comentário público ocasional.
Karol Nawrocki pode ser a exceção. Trump apoiou o candidato polaco que concorria contra o então presidente da câmara de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, e Nawrocki acabou por vencer. Mas não acho que isto seja realmente um ponto significativo ou algo que se possa retirar da Estratégia de Segurança Nacional. Há outras partes que podem ter leituras completamente diferentes.
Há alguma coerência entre o que está nesse documento e todos os discursos e tweets do Presidente Trump?
Podemos extrair determinadas passagens da Estratégia, como a que acabou de referir. Mas a mensagem geral é de que precisamos de reforçar as nossas próprias defesas. O Indo-Pacífico é o palco principal da defesa e da política externa americanas. A Europa precisa de assumir uma maior responsabilidade pelo equilíbrio das suas próprias defesas. Isso está claro como água nesse documento e definitivamente na Estratégia de defesa nacional.
Penso que isso também reflete a direção que a Administração Trump está a tomar em termos de conteúdo. A um nível muito abstrato, "a 30.000 pés de altura", existe, na verdade, apoio bipartidário para algumas destas iniciativas. Por exemplo, a partilha de encargos é algo com que os democratas também concordariam.
Isso vem do passado. Obama disse o mesmo sobre os europeus assumirem uma parte maior dos custos de defesa na NATO.
Exato, o que explica por que razão Donald Trump adotou uma tática diferente. Ele concluiu que as palavras amáveis de Obama não eram suficientes.
Mas quão importante é a Europa para os Estados Unidos? Porque o foco, há uns 10 a 15 anos, tem sido a China e o Pacífico.
A Europa é uma prioridade absoluta em termos de segurança nacional para os EUA, por uma série de razões, a começar pela enorme relação de investimento. Cerca de 60% do investimento direto estrangeiro a nível global é transatlântico. 40 dos 50 estados dos EUA fazem mais comércio com a Europa do que com a China. O comércio transatlântico de bens e serviços ultrapassa qualquer outra relação comercial que os EUA tenham em qualquer parte do mundo.
No entanto, temos um adversário em ascensão na China, que pretende subverter a ordem internacional construída pelos EUA. A Europa não o faz. Por isso, os EUA têm de se adaptar e concentrar-se em como conter essa ameaça e controlá-la. Mobilizar a Europa para projetar poder noutras regiões continua a ser uma característica da política externa dos EUA.
Dado que a Rússia lançou uma guerra ativa contra a Ucrânia na Europa, tudo começa com a Europa a ser capaz de fazer mais a nível interno, porque a defesa europeia tem de começar pela Europa e só a partir daí é que pode expandir-se.
Mobilizar a Europa para projetar poder noutras regiões continua a ser uma característica da política externa dos EUA
No seu argumento, jogou a "carta económica" ao falar sobre a Europa. Isso é suficientemente transacional para chamar a atenção do Presidente?
Sim, penso que sim. O Presidente, o povo americano, os jornalistas, os senadores, deputados, decisores e intelectuais públicos — todos têm apreço pela Europa, não apenas como um "primo civilizacional" do passado ou um local agradável para passar férias, como Portugal, mas como algo extremamente importante para a prosperidade americana. E essa postura está a ser recompensada. Por exemplo, vê-se a tendência de os europeus aumentarem os gastos com a defesa.
É difícil dizer exatamente, em termos percentuais, o que é que está a levar a Europa a gastar mais. Certamente, em parte, deve-se à invasão da Ucrânia por Vladimir Putin. Se os russos tivessem seguido o caminho de uma democracia liberal e a transição de Yeltsin tivesse decorrido de forma diferente, os Estados Unidos poderiam fazer todo o alarido que quisessem, mas os europeus provavelmente não gastariam mais em defesa. Vladimir Putin é claramente um revanchista, ambiciona a Ucrânia e, potencialmente, ainda mais. Esse é um dos elementos da questão.
E depois há outro ponto: o Presidente está a expor os europeus ao poder russo. Os europeus ouvem da administração que estamos comprometidos com o Artigo 5.º, veem responsáveis da administração a comparecer em reuniões-chave da NATO, ouvem também o Presidente reiterar a importância destes tratados, alianças e parcerias. Mas ouvem também o presidente dizer outras coisas. Isso é parte da tensão que o Presidente está a tentar criar para manter o ímpeto.
Portanto, a ideia da NATO como um "tigre de papel", como Trump a classificou em março, não deve ser interpretada pelo seu valor facial?
É o Presidente a tentar encorajar a Europa a transformar esse "tigre de papel" num "dragão de aço". Algo forte, com dentes e fogo, de que o "urso russo" tenha medo.
Qual a sua perceção sobre as garantias de segurança que os Estados Unidos, provavelmente, poderão oferecer para a solução na Ucrânia?
Com base em todas as notícias divulgadas publicamente, a posição americana é a de que a Ucrânia deve admitir concessões na região do Donbass, em Donetsk e Luhansk. Os ucranianos respondem dizendo que aquelas são as suas principais posições defensivas e que, se cederem algumas dessas posições ou criarem uma zona neutra ou algum tipo de zona tampão – seja qual for o mecanismo que venha a ser adotado – isso deixa-os expostos a novos ataques da Rússia a posições fracamente defendidas no coração da Ucrânia.
A resposta americana a isso tem sido a de os tranquilizar, afirmando estarem preparados para colocar algum tipo de garantia de segurança bilateral em cima da mesa. E esperemos que isso seja suficiente para os encorajar a criar a confiança de que necessitam para dar esse tipo de passo.
Mas, até à data, os ucranianos não têm realmente querido aceitar essa troca. Não tenho a certeza de que estejam inteiramente convencidos de que essa garantia de segurança seria eficaz. Não escapa a ninguém o facto de a Ucrânia estar a lutar sozinha. Nem os europeus nem os americanos estão ativamente em guerra com a Rússia e com a Ucrânia.
Talvez eles calculem que um cessar-fogo preparado pelos americanos, iniciado por Trump e associado a uma garantia de segurança americana, com assinatura do Presidente, colocará Trump numa situação de risco, de modo a dissuadir os russos de retomarem as hostilidades.
É possível imaginar os ucranianos a pensar que Vladimir Putin esperou até aos últimos dias da administração Bush para avançar contra a Geórgia. Ele poderá esperar até aos últimos dias da administração Trump para avançar sobre o resto da Ucrânia, quando o Presidente estiver potencialmente enfraquecido politicamente.
Os ucranianos simplesmente não estão preparados para fazer esta troca. Por isso, neste momento, trata-se apenas de uma negociação abstrata.
Recordo que a Polónia e os países bálticos eram importantes na retórica americana sobre a defesa da Europa. E agora já não vemos tanto isso.
A Polónia e os países bálticos têm uma posição muito importante na visão dos EUA. A Alemanha é vista como a potência económica que, cada vez mais, está a transformar-se em potência militar e no pilar da defesa no coração da Europa. A Polónia é vista como um país com forças armadas bastante tenazes e sérias, com elevados gastos com a defesa. Os Estados bálticos gozam de grande prestígio em Washington. No flanco sul da aliança, a Turquia estabeleceu uma boa relação com a administração Trump.
A Roménia tem sido elogiada graças à Base Aérea MK ("Mihail Kogalniceanu") e a parte do apoio logístico prestado à Operação Fúria Épica. A Grécia reforçou a sua posição. O secretário da Energia anunciou uma nova iniciativa ligada a um gasoduto proveniente da Croácia. Por isso, penso que o flanco oriental da aliança está em boa forma. Historicamente tendem a ser pró-americanos, nacionalistas corajosos, que acreditam no ‘hard power’ e na defesa e compreendem a ameaça que a Rússia representa, porque está tão perto das suas fronteiras. Tudo isso agrada, em geral, aos conservadores e aos republicanos que compõem a coligação de Trump.
Na verdade, têm sido os países da Europa Ocidental que têm ficado para trás. Por exemplo, os espanhóis têm frustrado a administração.
Mas, no Congresso, os legisladores estão divididos sobre se a Rússia continua a ser uma ameaça. Isso remete-nos para a mentalidade da "Guerra Fria".
A Rússia continua a ser considerada um grande rival e uma ameaça adversária pela grande maioria dos membros do Congresso e da opinião pública americana. A questão que se coloca é: qual deve ser a postura de defesa dos Estados Unidos à luz da crescente ameaça que enfrentamos da China e da região do Indo-Pacífico, tendo em conta que acabámos de esgotar os nossos recursos em categorias significativas para a guerra contra o Irão e que temos problemas no nosso próprio hemisfério?
Trata-se mais de uma questão de definição de prioridades do que de um desinteresse total pela Rússia ou de uma atitude ingénua em relação aos russos.
Voltando-nos para o vosso próprio continente, na posição contra a Venezuela ou na retórica sobre o Canadá, são mais as palavras do que as ações da administração Trump?
Claramente, não no caso da Venezuela, porque o Presidente chegou mesmo a ordenar uma incursão.
Isso não mudou o regime.
Mudou a liderança e pode ter alterado os cálculos do regime. Deixou componentes-chave do regime no poder, porque a rejeição da experiência de uma intervenção com tropas terrestres ao estilo de George W. Bush foi parte do que impulsionou Donald Trump para a vitória.
Penso que não tenciona enviar tropas para o terreno, a menos que se esteja preparado para o fazer de forma ampla, significativa e sustentada. Tal como Donald Trump colocou a questão, Corina Machado não tem a força, nem as armas. Em vez disso, há Delcy Rodríguez, porque o aparelho de segurança continua em vigor.
Esta é outra área em que muitas vezes ouvimos críticas europeias sobre questões legais. Kaja Kallas veio fazer uma crítica, sobre se esta rusga foi ou não apropriada. Entretanto, se perguntarmos ao povo venezuelano, a esmagadora maioria estava a favor e, pelo menos, vê uma oportunidade para um futuro melhor, mesmo que não seja um momento mágico de transformação.
Agora que Delcy Rodríguez ficou "alerta", está ciente do que o poder americano é capaz de fazer, de que os americanos estão atentos e de que Trump está preparado para correr riscos. Isso pode, ao menos, influenciar os cálculos do regime, mesmo que muitos dos mesmos atores brutais, e de certa forma perniciosos, continuem no poder, tal como estavam antes da incursão.
Estávamos à espera de um efeito dominó frenético que, partindo da Venezuela, chegasse a Cuba e assim por diante, mas isso não aconteceu.
Não. A administração acredita que Cuba está economicamente destruída, arruinada, num estado de colapso. E que é apenas uma questão de tempo até que, eventualmente, um novo regime assuma o poder em Cuba. Mas não tenho qualquer previsão para isso. E, claramente, o presidente não tencionava passar rapidamente de uma operação na Venezuela para Cuba, porque não o fez. E, desde então, assistimos ao início de uma grande guerra no Médio Oriente.
Diz que os venezuelanos são a favor deste tipo de operação e os europeus têm em conta a vertente jurídica da questão. Será que o que é alegadamente melhor para as pessoas representa o fim da abordagem destes temas pelo prisma do direito internacional?
Não considero que se trate de uma violação do direito internacional. Essa é apenas uma afirmação que se ouve nas capitais europeias. Houve quantidades enormes de drogas transferidas da Colômbia, com a facilitação dos venezuelanos, para a Europa, matando europeus ou tornando-os viciados em cocaína, entre outras mercadorias perniciosas.
Nem os europeus nem os americanos reconheceram Nicolás Maduro como presidente da Venezuela. Os venezuelanos estavam a espalhar todo o tipo de instabilidade pelos países vizinhos imediatos. 8 milhões de refugiados fugiram da Venezuela. Isso não é necessariamente um motivo para intervir, mas penso que há muitas outras justificações relacionadas com o narcoterrorismo e tudo isso está descrito na acusação que está a ser apresentada contra Nicolás Maduro em Nova Iorque, onde vai ser julgado.
Esta atitude europeia de que a soberania estatal é tão inviolável que o critério da iminência tem de ser aplicado, significa que é preciso ver os sequestradores a caminho das Torres Gémeas ou os venezuelanos a iniciar uma guerra contra um dos vossos países. Não acho que esse seja um critério adequado.
Haja ou não um padrão de violação do direito internacional, primeiro tomam Caracas, depois tomam Teerão?
Não creio que estejam a querer tomar Teerão. Como disse Friedrich Merz, os iranianos estavam a violar todos e cada um dos preceitos básicos de conduta estatal e a via negocial estava a alcançar muito pouco ou a fazê-los recuar.
Os iranianos estavam a violar o direito internacional, através do seu apoio ao Hezbollah no sul do Líbano, aos houthis no Iémen, às milícias xiitas no Iraque, e a lista continua. Os iranianos estavam a reforçar uma brigada nos Montes Golã. Qasem Soleimani estava a posicionar-se na Síria e no Iraque ao longo do Eufrates. Estavam a matar soldados americanos.
Há toda uma lista de violações bastante dramáticas e graves do direito internacional básico, por parte dos iranianos. E a via das negociações não estava a produzir praticamente nenhum resultado em cada uma dessas frentes. Assim, a questão que se coloca é: qual é a maior violação do direito internacional? Uma violação da soberania estatal através de um ataque ou permitir que a contraparte recorra simplesmente ao bloqueio básico que é a bipolaridade da competição sino-americana no Conselho de Segurança para impedir a aprovação de qualquer resolução?
A política norte-americana para o Médio Oriente não está a ser sequestrada pela estratégia israelita de Netanyahu para a região?
Esta é uma jogada americana. Quando Donald Trump disser ao primeiro-ministro Netanyahu «acho que esta guerra está a acabar» ou «está na hora de um cessar-fogo», o primeiro-ministro responderá: «Concordo consigo, presidente Trump», porque ele está a agir no contexto das operações dos Estados Unidos na região.
O Atlântico é importante para Portugal onde os americanos são os nossos vizinhos. Qual é o verdadeiro desafio geopolítico no Atlântico?
Preocupo-me com o GIUK GAP [canal estratégio de acesso ao Atlântico entre a Gronelândia, Islândia e Reino Unido]. Quando o Presidente Trump se referiu à Gronelândia, pelo menos identificou como essenciais diversos pontos estratégicos no mundo, desde o Canal do Panamá ao Canal do Suez, passando pelo Estreito de Ormuz e pelo Estreito de Malaca, até ao canal GIUK.
Temos ouvido testemunhos de comandantes americanos e britânicos, que concordam sobre a crescente atividade da Rússia no extremo norte, no Ártico, e a sua potencial penetração no Atlântico através do GIUK. Isso é algo que me preocupa e que temos de acompanhar de perto.
Em segundo lugar, preocupo-me com a costa atlântica de África e com os potenciais interesses que a Rússia e a China possam manifestar nessas áreas, com implicações para a segurança na região.
Os Açores dizem-lhe alguma coisa em termos de geopolítica neste momento?
Portugal assumiu uma posição sensata e razoável em relação às operações dos EUA contra o Irão através da base aérea das Lajes. Como é óbvio, desempenhou um papel histórico importante na preparação para a guerra do Iraque, quando o Presidente Bush, o Primeiro-Ministro Aznar, e o Primeiro-Ministro Blair se reuniram para um encontro final muito importante. Tem utilidade estratégica num ponto intermédio de enorme importância. Os Açores têm um grande valor estratégico para a Aliança Atlântica.
Por outro lado, como comenta a posição espanhola na arena internacional?
É fácil criticar o presidente Trump, porque ele recorre a uma retórica de ‘showman’ (homem do espetáculo) e é criticado por isso nas conferências europeias. O que Pedro Sánchez está a fazer é vergonhoso.
Para si próprio ou para a NATO?
Não sei. Ele só se preocupa consigo próprio, então suponho que seja para ele mesmo. Mas está a pôr em risco a posição do seu país na Aliança.
Estou preocupado com a base naval de Rota, que tem um enorme valor estratégico para os EUA, e com as capacidades de projeção de força da Espanha no futuro. E preocupo-me com o precedente de basicamente ‘vender’ a sua política externa devido a uma eleição regional da Andaluzia ou de Castela-Leão, porque ser popular para a extrema-esquerda.
É uma forma infeliz de escapar aos seus próprios problemas políticos internos, sejam de corrupção ou de outra natureza, refugiando-se na cena internacional e atraindo o desdém do presidente americano. Keir Starmer, em contrapartida, não pretende esse desdém, mas apenas se colocou, infelizmente, numa posição em que levou com a ira do Presidente.
Pedro Sánchez é o único líder no Ocidente que está a tentar ganhar manchetes ao atacar Donald Trump. Simplesmente não acho que seja uma jogada inteligente.
Qual é a sua opinião sobre esta questão entre Donald Trump e o Papa Leão XIV, que é também cidadão americano?
O Papa estará sempre a favor da paz. E acho que é bom e saudável que o Papa se pronuncie sobre questões de grande importância moral. Ele só tem uma arma, que é a retórica.
Ao mesmo tempo, acho que se trata de uma história apócrifa. Todo este episódio faz-me lembrar a conversa que Estaline aparentemente teve com Churchill, na qual perguntou retoricamente: «Quantas divisões comanda o Papa?» Sendo a resposta, muito claramente, nenhuma. A Guarda Suíça não vai libertar o Estreito de Ormuz. Não vai retirar o urânio enriquecido das quatro instalações de Isfahan, no Irão. Estas são respostas que têm de ser encontradas em Washington e não no Vaticano.
Seria sensato que Washington avançasse, tendo em conta algumas das lições e conselhos que o Santo Padre está a apresentar. Porque, no final de contas, ele tem grande prestígio e autoridade moral. Num mundo cada vez mais perigoso, conflituoso e violento, é bom escutar uma voz de paz por aí.
Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.








