HORA DA VERDADE

Vitória de Alexandra Leitão em Lisboa "não vai ser fácil", diz Leão. "Ser líder parlamentar é diferente de ser candidata a uma câmara"

30 jan, 2025 - 07:00 • Susana Madureira Martins , Marta Pedreira Mixão (Renascença) e Helena Pereira (Público)

O autarca de Loures anuncia que está em curso a notificação para despejo de 20% dos inquilinos que não pagam rendas camarárias de forma continuada e a compra de 12 viaturas para policiamento de proximidade.

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Vitória de Alexandra Leitão em Lisboa "não vai ser fácil", diz Ricardo Leão
Vitória de Alexandra Leitão em Lisboa "não vai ser fácil", diz Ricardo Leão

O dirigente do PS e presidente da Câmara de Loures, Ricardo Leão, antevê que a vitória de Alexandra Leitão na corrida à câmara de Lisboa “não vai ser uma tarefa fácil, mas não é uma tarefa impossível”, avisando a ainda líder parlamentar que “vai perceber que ser líder parlamentar de um partido com a importância do Partido Socialista é diferente de ser candidata à câmara”, registando ainda a mudança de posição da líder parlamentar socialista sobre imigração.

Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, o ex-líder da distrital do PS de Lisboa, protagonista da polémica dos despejos "sem dó nem piedade" de moradores em bairros municipais envolvidos em desacatos na Grande Lisboa, elogia o discurso de Pedro Nuno Santos sobre imigração, considerando que "toda a gente" no partido pensa como ele e defende que "não há problemas de esquerda e de direita".

Ricardo Leão anuncia que estão em curso notificações para despejo de 20% dos inquilinos que não pagam rendas camarárias, denunciando casos de irregularidades de alugueres. “O titular do contrato já nem sequer cá está e subalugou ao outro”, revela Leão.

O autarca de Loures admite que existe um problema de segurança no concelho, revelando dados que mostram que aumentaram a criminalidade violenta e a juvenil grupal. Leão diz que a resposta está no policiamento de proximidade e anuncia a compra de 12 viaturas novas para a Polícia de Segurança Pública pagas com o orçamento municipal.

Ficou surpreendido com a recente posição de Pedro Nuno Santos sobre imigração ou foi ao encontro daquilo que defende?
Fiquei surpreendido pela coragem que o secretário-geral teve num tema que é delicado. Fiquei contente por ser ele a colocar o tema. Não deve haver temas-tabu ou temas propriedade de ninguém. Os decisores políticos têm de encontrar respostas e soluções para todos os problemas. Dizer que este tema é propriedade da extrema-direita, da direita ou do A, B ou C, para mim, não pega mesmo. Foi importante o secretário-geral introduzir e recentrar este tema porque estava a ser discutido muito misturado com a segurança. Não é assim que se trata das coisas. Colar as duas iria dar mau resultado.

A que se deveu esta mudança de posição de Pedro Nuno Santos?
Não sei, mas foi trabalhada, amadurecida, não foi de forma espontânea e leviana. Estou expectante para ver as soluções que irão ser apresentadas pelo grupo parlamentar do PS. As soluções de há cinco, seis anos não são aquelas que hoje nos servem. A imigração evoluiu de forma muito repentina.

Pedro Nuno Santos está a ser acusado de ter mudado de posição para agradar aos autarcas do PS.
O PS não deve enfiar a cabeça na areia e não ter soluções para problemas chamados delicados. O pior que podia acontecer era o PS ter falta de comparência.

Em que sentido devem ir as alterações que vão ser apresentadas pelo PS?
A imigração faz falta. Em Loures, tínhamos uma população estrangeira de 20 mil pessoas em 2021, nos censos de 2023 passou para 32 mil pessoas. Isto criou desafios, nomeadamente, na habitação. Tem de haver também legislação que proteja os imigrantes de explorações de que poderão ser alvo.

António Costa também devia fazer um mea culpa sobre as suas responsabilidades sobre política de imigração?
Fará se entender que sim ou se não. Não comento.

"Imigração?O PS não deve enfiar a cabeça na areia e não ter soluções para problemas chamados delicados"

Pedro Nuno Santos diz que o PS não terá hesitações em fazer uma análise crítica do passado.

E acho bem. O pior que pode acontecer a um partido que quer ser poder é não responder aos problemas de hoje. Os problemas do passado são os problemas do passado. Hoje, estamos a viver problemas novos, uns resultantes de inércia do passado e de más soluções e outros não.

Quando cheguei à Câmara de Loures, no parque de habitação municipal de 2500 fogos, 55% dos inquilinos não pagavam renda. Eu tinha 14 milhões de euros de dívida. Naquilo que compete a um presidente de Câmara, eu vou sempre zelar para que haja direitos para todos, mas também haja deveres e obrigações e responsabilidades para todos. Estamos a falar de rendas de 4, 5 euros, que foram atualizadas, já por mim, para 10 euros. Há rendas mais altas, mas a grande maioria é esta. Nós baixámos de 55% de incumpridores, dados de hoje, para 20% de incumpridores através de um plano de regulação de dívida. Fui muito criticado, mas já ouvi Alexandra Leitão a dizer que também concorda com direitos e deveres.

Acha que ela mudou de posição?
Bom, isso tem de perguntar a ela. Na intervenção que ela teve recentemente, eu ouvi dizer que há direitos e há deveres. Ando a dizer isto há dois anos. Um autarca tem de saber sentir o pulso. Quando não debatemos temas porque são tabus da A e B, estamos a dar oportunidade à direita e à extrema-direita de se apropriar desses mesmos temas.

Agora que é candidata à Câmara de Lisboa, acha que Alexandra Leitão também pode ter percebido isso?
Ela vai perceber que ser líder parlamentar de um partido com a importância do Partido Socialista é diferente de ser candidata à câmara.

Além desta polémica com os despejos que têm a ver com pessoas que não pagam renda, disse também que defendeu o despejo “sem dó nem piedade” de inquilinos de habitações municipais que tenham participado em distúrbios, e na sequência disso demitiu-se da FAUL. Está arrependido de se ter demitido?
Não. O que aconteceu foi mais uma forma de proteger o PS de algumas pessoas que têm ideias diferentes da minha, que agora, porventura, já estão a mudar algumas das suas opiniões.

Quanto à questão do despejo, a única coisa de que me posso arrepender foi aquela afirmação do "sem dó nem piedade".

Mas considera que devem ser despejadas famílias de bairros municipais, por algum membro ter estado envolvido em crimes?
No Porto, aconteceram despejos por crimes de tráfico de droga.

O que é que diz o regulamento de Loures?
Está dentro daquilo que é a lei. Todo aquele indivíduo que pratica crime, que cria mal-estar, o regulamento permite a resolução do contrato.

"Rendas em atraso? Faltam 20% que há dois anos nem sequer se dignam responder à Câmara. Aí, estamos a fazer todos os trâmites para os respetivos despejos"

No último ano, quantas famílias foram despejadas por causa de estarem envolvidos em crimes?

Não tivemos nenhum caso desses ainda. Felizmente.

E despejos relacionados com falta de pagamento reincidente das rendas?
Não houve recurso quase a despejo nenhum, foi tudo com base no plano de redução de dívidas. Agora faltam 20% que há dois anos nem sequer se dignam responder à Câmara. Aí sim, estamos a fazer todos os trâmites para os respetivos despejos. São casos que nós já detetámos de irregularidades de alugueres. O titular do contrato já nem sequer cá está e subalugou ao outro. Portanto, há negócios.

António Costa escreveu sobre si que "ofendeu gravemente os valores, a identidade e a cultura do PS". Foi uma crítica muito dura.
Com todo o respeito, esse artigo até fala de imigração, quando eu não tinha falado sequer de imigração. Portanto, misturou assuntos. Porventura, alguém lhe escreveu o texto e assinou. Para mim, já digeri. Não esqueci, mas digeri.

Achou que foi injusto?
É muito injusto.

Ana Catarina Mendes, que é uma ex-ministra que também era muito próxima de António Costa, agora perante esta última entrevista sobre a imigração de Pedro Nuno Santos, diz que está a ver com pena a aproximação de Pedro Nuno Santos ao discurso da direita e da extrema-direita. O que é que está a acontecer no PS?
Se formos fazer uma sondagem aos militantes do partido, a grande maioria mesmo está com esta postura do Pedro Nuno Santos. Não vou comentar. Aquilo que disse já dentro do partido sobre os comentários de alguns camaradas não vou dizer aqui. O Pedro Nuno Santos está bem. Ele está certo. Está a olhar para o país de hoje e tem de encontrar soluções para os problemas de hoje. Foi isso que eu fiz na Câmara de Loures.

Não acha que Pedro Nuno Santos abriu aqui uma cisão grande no Partido Socialista - quando vemos pessoas ligadas ao anterior secretário-geral a fazer estas críticas, Ana Catarina Mendes, José Luís Carneiro - que pode vir a pôr em causa a sua liderança?
Então não falam do presidente do partido, Carlos César, e de outros camaradas?

Os “costistas” vão ficar a falar sozinhos, é isso?
Eu neste momento faço parte da mesa da Comissão Política Nacional do Partido. O PS é um partido que tem de ter respostas para os problemas de hoje. E não pode estar agarrado ao passado. É isso que o país espera que o Partido Socialista faça.

"Em Loures aumentou a criminalidade violenta e a criminalidade juvenil grupal. Um autarca não deve ignorar aquilo que vai ouvindo na rua"

Este tipo de questões, imigração, a habitação, devia constar de um guião para os autarcas do PS?

Podem vir 20 manuais. Eu vou seguir a minha consciência e as minhas convicções, sempre em defesa do interesse da população do concelho de Loures.

Estamos com um problema gravíssimo em toda a área de Lisboa e no país, que é importante que se fale também que é a população escolar. Em Loures, em cerca de 24 mil alunos, 5 mil alunos são oriundos de países estrangeiros. 3 mil não falam a língua portuguesa. É uma dificuldade acrescida de integração e de aprendizagem desses alunos.

Eu estou a fazer protocolos com as comunidades hindus, com a comunidade islâmica, abrir as escolas ao fim do dia e ao sábado para que essas crianças possam aprender a língua portuguesa. Mas devia haver uma medida nacional.

Acredita numa maioria absoluta do Partido Socialista na Câmara de Loures e isso seria uma bofetada de luva branca para alguns dirigentes do Partido Socialista, como Alexandra Leitão?
Se eu trabalhasse para a maioria absoluta em função do A, do B ou do C, era uma postura completamente errada. As maiorias absolutas merecem-se. E eu, nestes três anos e meio, tudo fiz para poder merecer essa confiança absoluta da minha população. A minha população conhece-me bem. E sabe bem que para mim não há temas tabus. Sou do PS, nunca deixei de ser. Mas tenho de responder perante os interesses das pessoas. E as pessoas hoje estão preocupadas com problemas de migração e que se não forem resolvidos da forma como nós queremos que se resolva, então aí é que é cavalgar a extrema-direita. Aquele discurso do “por nós não passarão e vamos falar mais alto ou vamos ignorar”, eu não partilho dessa postura. Eu partilho da postura que é querer resolver os problemas todos enquanto for presidente de câmara. Não admito sequer que me digam que este problema é da direita, ou é da esquerda. Aqui não há esquerda nem direita.

As pessoas estão preocupadas com a questão da segurança. Embora os dados digam que a criminalidade no geral baixou, em Loures aumentou a criminalidade violenta e a criminalidade juvenil grupal. Um autarca não deve ignorar aquilo que vai ouvindo na rua. Há um sentimento muito grande de insegurança que pode ser resolvido pelo policiamento de proximidade. É por isso que nós vamos adquirir mais viaturas. Vamos dar 12 viaturas à PSP, não é da nossa responsabilidade fazê-lo, mas é um contributo que o município de Loures vai dar para permitir esse maior aumento de policiamento de proximidade. E vamos ficar com a manutenção de mais seis viaturas.

"Espero que a Alexandra Leitão ganhe. Não vai ser uma tarefa fácil, mas não é uma tarefa impossível"

Mariana Vieira da Silva foi maltratada pela direção do PS, ela que se tinha disponibilizado para ser candidata a Lisboa?

Tenho uma grande estima e consideração e muito respeito pela Mariana Vieira da Silva. Eu já não estou da FAUL, saí, estava a tratar de uma determinada forma, entretanto saí.

Alexandra Leitão pode dar uma boa presidente da câmara de Lisboa? Tem hipótese de ser eleita?

Espero que a Alexandra Leitão ganhe, como espero que todos os candidatos do PS ganhem as suas câmaras. Não vai ser uma tarefa fácil, mas não é uma tarefa impossível. Acredito que a Alexandra Leitão tem capacidade, tem competência, tem garra, tem energia, mas não vou ser eu a responder. A resposta em todos os casos, até no meu, é da população que vai decidir se a escolha foi ou não foi acertada. Pergunta-me se a vejo com capacidade? Claro que sim. É uma pessoa que deu provas no Governo, que tem dado provas como líder parlamentar da sua energia e capacidade. Daquilo que conheço está muito motivada. Como militante do PS é obvio que me agradaria que a Alexandra Leitão ganhasse a Câmara de Lisboa.

No futuro, poderia ser de novo candidato à liderança da FAUL?
Não digo não, nem digo sim. Deixo a porta aberta.

Sobre presidenciais, que personalidade será o melhor candidato presidencial do Partido Socialista?
Não vou anunciar aqui. Vou fazê-lo no sítio próprio. O PS não pode fingir que não vai ter um problema sério nestas eleições presidenciais. Nós temos dois candidatos que estão na pole position mais à frente do que outros hipotéticos candidatos da ala do PS. É preocupante e por isso tem de haver muita serenidade.

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  • Feliciana Lourenço
    30 jan, 2025 Bairro de Santiago, camarate 23:01
    Tem o meu apoio, shro Presidente, Ricardo Leão, só se dá quando tem. Vivo em camarate a 20 poucos anos, vivia numa barraca em antigo Bairro da torre, recebi uma carta da câmara a anos, avisando que não tinha direito a habitação , fui alugar um quarto ,e meu filho tinha 5 anos, respeito é bom, muitos têm uma habitação mesmo assim com rendas minimas, não paga. Hoje tem mt gente que chega, assalta terrenos, constroem barracas, e quando a câmara parte, ja querem uma habitação. E quem ja está cá a mt, não tem direito. O senhor Nuno Santos devia ter vergonha, de sair em defesa, visto que abriram porta da emigração, sem ter condições, tanta gente dormindo na rua, e pôr baixo do viadutos. PS está pior que poleiro de galinha, tirando almas que não merecem. Tudo tem que ser justo.

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