HORA DA VERDADE
"Não vamos ter aumento muito significativo" da mortalidade associada à onda de calor, antecipa DGS
09 jul, 2026 - 07:00 • Susana Madureira Martins , Beatriz Martel Garcia (áudio) , Rita Gonçalves (vídeo) e Helena Pereira (Público)
Rita Sá Machado lembra que impacto das ondas de calor não é imediato, pelo que só após 15 dias haverá uma noção mais exata do que se passou. Para já, o excesso das duas ondas de junho e de julho é de 123 óbitos.
Rita Sá Machado, diretora-geral da Saúde, diz que será preciso esperar para perceber qual o impacto da mais recente onda de calor, mas os dados indicam que o excesso de mortalidade em julho ficou aquém do previsto. "Não vamos ter aumento muito significativo" de óbitos, assume a dirigente em relação às previsões do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA).
Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, a médica e antiga conselheira da Organização Mundial de Saúde mostra-se preocupada com o aumento das doenças sexualmente transmissíveis. "Temos de fazer renascer esta utilização do preservativo porque é a medida mais eficaz para a prevenção das infecções sexualmente transmissíveis", avisa Rita Sá Machado.
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A diretora-geral da Saúde considera ainda que se trata de uma "falha" que o país não tenha uma lei de proteção em emergência de saúde pública e, mesmo após a pandemia, mantém-se o problema de não existir capacidade para impor uma quarentena ou um isolamento obrigatório.
Já tem números sobre a mortalidade devido a esta onda de calor extremo dos últimos dias?
Desde o dia 10 de junho até agora tivemos duas ondas de calor. As previsões feitas pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) apontavam para aproximadamente 60 óbitos em excesso na primeira onda de calor e eles foram efetivamente confirmados, com um pico a 16 de junho.
Em relação a esta segunda onda, começamos já a ter alguns números: um excesso de 63 óbitos, em torno do dia 6 de julho. Mas é importante clarificar que as ondas de calor têm um impacto que não é imediato e, portanto, ainda temos de aguardar aproximadamente 15 dias para conseguirmos monitorizar melhor e perceber com maior exatidão este fenómeno.
Não vamos ter um aumento muito significativo. Aquilo que aconteceu vai ficar abaixo da previsão
Qual é a previsão do INSA para esta segunda onda?
Não vamos ter um aumento muito significativo. Aquilo que aconteceu vai ficar abaixo da previsão. Na plataforma europeia Euromomo, que monitoriza os indicadores de excesso de mortalidade, conseguimos ver que, na semana 26, Portugal está abaixo do nível de risco de excesso de mortalidade, enquanto Espanha, França e Reino Unido estão ligeiramente acima. Esta informação diz respeito sobretudo à primeira onda de calor, que foi bastante grave na Europa Central. Por isso, conseguimos já perceber que a mortalidade associada ao calor será mais reduzida do que inicialmente prevíamos.
Mortalidade
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E isso pode significar que estamos a preparar-nos melhor para as ondas de calor?
Há muitos fatores que influenciam este resultado. Nos últimos dias houve um esforço muito grande por parte das autarquias, dos agentes de proteção civil e de outras entidades comunitárias, não só para transmitir recomendações claras à população, mas também para criar respostas locais, como os chamados abrigos climáticos.
Existem abrigos temporários e outros espaços geridos pela proteção civil e pelas autoridades de saúde locais destinados a pessoas que já não têm condições para permanecer nas suas casas.
Acha que isso funcionou? Nós, jornalistas, questionámos várias autarquias para saber de que abrigos dispunham e não tivemos resposta.
Daquilo que conseguimos apurar em alguns locais do país, funcionou. Houve autarquias que abriram complexos desportivos, bibliotecas e outros espaços para acolher as pessoas.
Não foi tardia a comunicação à população? Foi só na véspera.
Não foi tardia. Claro que há sempre formas de melhorar. O objetivo é que, cada vez mais, os cidadãos saibam antecipadamente onde ficam esses abrigos e locais de acolhimento para os quais se devem dirigir em situações deste tipo.
Até quando é que a DGS vai manter as recomendações ativas? Esperam mais ondas de calor?
O IPMA faz previsões a dez dias, mas existem estudos académicos que indicam um aumento do número de ondas de calor este ano e que estas poderão prolongar-se até outubro. Por isso, as recomendações da DGS deverão manter-se ativas pelo menos até outubro.
O país também é vítima do seu nível de pobreza energética, que não permite a muitas famílias ter ar condicionado ou uma simples ventoinha. Os programas que existem para os cidadãos fazerem obras e equiparem as suas casas são suficientes ou devia ir-se mais longe?
Do ponto de vista da saúde, sabemos que aquilo que influencia a saúde dos cidadãos vai muito além das fronteiras do setor da saúde. Agora, se essas medidas estão ou não a ser devidamente implementadas, não é algo que acompanhe diariamente.
Dessas pessoas que morreram por causa do calor, sabem-se as causas? Estavam em casa, em lares ou a trabalhar ao ar livre?
Esse tipo de informação é muito detalhado e não faz parte da monitorização rápida que realizamos. Sabemos que houve uma maior sobrecarga de mortalidade nas pessoas com 75 ou mais anos e que muitas delas tinham doenças crónicas. Sabemos também que os óbitos ocorreram sobretudo devido a cancros e doenças do aparelho circulatório, nomeadamente enfartes e acidentes vasculares cerebrais.
Acha que devia ser legislada a redução do horário laboral ou a proibição de trabalhar em certos horários em profissões mais expostas às condições climáticas?
O que a saúde pública nos diz é que devemos legislar o mínimo possível e implementar medidas muito específicas em função da avaliação de risco. Aquilo que faz sentido para um trabalhador na região de Santarém pode ser diferente daquilo que é adequado para alguém que trabalha ao ar livre em Peniche. Há ainda uma outra questão relevante: as populações do litoral e do interior adaptam-se de forma diferente ao calor. Muitas populações do interior já estão mais habituadas a estes extremos de temperatura e desenvolveram algumas boas práticas.
O surto de Mpox já está controlado? Não tem havido novos casos?
Continuamos a ter novos casos de mpox e sabemos que, em períodos associados a festividades e férias, tende a verificar-se um aumento. Estamos a assegurar a disponibilidade de vacinas para a população. É importante que as pessoas se vacinem.
Com as alterações climáticas tem havido também uma migração para a Europa de insetos que podem transmitir doenças como zika ou dengue. Temos de estar preparados para isso?
Temos absolutamente de estar preparados. Temos em Portugal, na Madeira e em algumas zonas do continente, o mosquito Aedes aegypti e também o Aedes albopictus. Estes mosquitos não transmitem doenças a não ser que estejam infetados. O trabalho da saúde pública passa por vigiar as populações de mosquitos, detetar rapidamente eventuais doenças e identificar a sua origem para poder implementar medidas de controlo.
Chegou a estar preparada uma lei de proteção em emergência de saúde pública, mas nunca avançou. Isso não é um problema? Continua a não haver respaldo legal para quarentenas ou isolamentos obrigatórios por motivos de saúde pública.
Se me pergunta se temos capacidade para implementar uma quarentena ou um isolamento obrigatório, a resposta é não. É uma falha.
Diria que em Portugal há uma quebra de confiança nas vacinas? Há sinais de preocupação?
Publicámos na semana passada o relatório do Programa Nacional de Vacinação e Portugal continua a ter boas coberturas vacinais. Apesar disso, existem algumas bolsas de população mais vulneráveis no território nacional.
Em que zonas do país isso acontece?
Temos várias, sobretudo em algumas zonas do Alentejo e do Algarve. No caso da vacinação sazonal, a situação é diferente. Está a diminuir a adesão à vacina contra a covid-19, mas não à da gripe. Continuamos entre os cinco países com melhor cobertura vacinal contra a gripe a nível europeu e mundial. Já na vacinação contra a covid-19, estamos a perder cerca de dez pontos percentuais de adesão por ano.
O que é que a DGS está a prever para o novo plano de vacinação do próximo inverno?
Estamos a ultimar as datas, mas a nova campanha deverá arrancar entre o final de setembro e o início de outubro. Vamos introduzir algumas alterações que interessam sobretudo aos profissionais de saúde, com a inclusão de algumas doenças que não estavam contempladas anteriormente. Mas a grande novidade será a imunização universal dos bebés contra o vírus sincicial respiratório. Na época 2026-2027 conseguiremos imunizar todos os bebés nascidos durante a chamada season, ou seja, entre abril de 2026 e março de 2027.
A tendência é para continuar a aumentar o número de casos de sarampo? Isso está relacionado com resistência à vacinação?
Não necessariamente. Pode haver populações provenientes de países onde esta vacinação não é obrigatória, como acontece nos Estados Unidos. As políticas de imunização de grandes potências internacionais têm impacto em toda a Europa. Os casos de sarampo registados em Portugal são considerados importados.
Não há casos de sarampo em crianças nascidas em Portugal que não tenham sido vacinadas?
Tivemos apenas um caso.
Verifica-se uma diminuição da utilização do preservativo em Portugal e no resto do mundo. Temos de recuperar esta utilização porque continua a ser a medida mais eficaz para prevenir infeções sexualmente transmissíveis
As infeções sexualmente transmissíveis não param de aumentar na Europa e Portugal não foge à regra. O que é que a DGS está a fazer para tentar reverter esta tendência?
É uma das questões que mais preocupa não só Portugal, mas também os restantes países europeus. Aquilo que era uma prática habitual de prevenção deixou de fazer parte da rotina de muitas pessoas. Verifica-se uma diminuição da utilização do preservativo em Portugal e no resto do mundo. Temos de recuperar esta utilização porque continua a ser a medida mais eficaz para prevenir infeções sexualmente transmissíveis. Por outro lado, queremos reforçar o diagnóstico precoce através da expansão das consultas de saúde sexual. Já existem centros deste tipo no Porto, está a ser criado um em Braga e pretendemos alargar esta resposta a todo o país, permitindo um acesso mais rápido e eficaz.
No capítulo do planeamento familiar, algumas das pílulas mais vendidas e alguns métodos contracetivos não são distribuídos nos centros de saúde. Qual é a explicação? É uma questão financeira?
Existe um acordo-quadro do Serviço Nacional de Saúde para o planeamento familiar onde estão contemplados praticamente todos os métodos. Depois, cada instituição do SNS escolhe os métodos que vai adquirir ao abrigo desse acordo. Por isso, não consigo dizer especificamente quais são os métodos escolhidos por cada instituição nem os critérios utilizados.







