07 nov, 2025 - 07:00 • Ana Catarina André
No fim do verão de 1975, depois de meses de greves e protestos, os estúdios da Renascença, em Lisboa, continuavam ocupados pelos trabalhadores. O conflito com a entidade patronal não parecia ter fim à vista e, apesar das ordens do governo para que os ocupantes abandonassem a estação e a devolvessem à Igreja, sua proprietária, o diferendo mantinha-se.
Perante o impasse, o Conselho de Ministros e o Conselho da Revolução optaram, então, por uma solução radical e ordenaram a explosão dos emissores da Buraca. Às 4h30 da madrugada de 7 de novembro de 1975, a Companhia de Caçadores Para-quedistas 122 colocou duas bombas nos emissores, silenciando, assim, a Rádio Renascença ocupada.
O episódio marcaria o início da devolução da emissora à Igreja que, desde abril de 1974, era palco de um conflito entre os trabalhadores e a entidade patronal. “Num processo revolucionário que foi bastante violento e onde houve uma propensão estatizante do Estado, que é concretizada, a Igreja resistiu. A Renascença é mais do que um símbolo. É a devolução à Igreja da sua propriedade”, considera a historiadora Paula Borges Santos, no quinto episódio do podcast “Igreja e Liberdade”, já disponível.
O caso Renascença, como assim ficou conhecido, implicou negociações entre o Patriarcado de Lisboa e os trabalhadores que ocuparam a estação, motivou a intervenção do governo e culminou com a devolução da emissora à Igreja, a 28 de dezembro de 1975.
“A Renascença foi um farol de liberdade e assim ajudámos a libertar Portugal de um extremismo que queria conquistar tudo”, afirmou, em 2018, Fernando Magalhães Crespo, que em 1975 se tornou gerente da Renascença.
Um dos momentos marcantes deste período teve lugar no Verão Quente de 1975. A 18 de junho, diversos sindicatos dos setores da informação e das telecomunicações convocaram uma manifestação de apoio aos funcionários da Renascença, a ter lugar em frente ao Patriarcado de Lisboa que, naquela altura, ficava no Campo de Santana. Contavam com partidos como a UDP (União Democrática Popular) e o MES (Movimento da Esquerda Socialista), mas também com o suporte de alguns cristãos que criticavam a hierarquia da Igreja Católica.
Pouco depois, outro grupo, de católicos, mobilizou-se para apoiar o Cardeal-Patriarca D. António Ribeiro, e defender a Renascença, numa ação agendada precisamente para o mesmo local e hora. Maria Luisa Falcão, uma das católicas que ali esteve em solidariedade para com o bispo, conta que, pouco depois de as duas manifestações se terem juntado, começou a ser empurrada contra o edifício do Patriarcado.
“Começaram a atirar-nos pedras. Uma acertou-me na cabeça, em pleno lado esquerdo. Havia um senhor que tinha óculos e ficou com vidros espetados no rosto”, recorda a docente universitária que acrescenta que, perante a escalada da violência – os militares dispararam tiros para o ar, na tentativa de controlar a situação – acabou por se refugiar no interior do edifício do Paço Episcopal, juntamente com os restantes católicos que tinham vindo apoiar a Igreja.




Durante a noite, D. António Ribeiro foi fazendo vários contactos com o exterior para que aqueles cerca de mil fiéis pudessem sair do Patriarcado em segurança. “Soubemos que o Dr. Mário Soares teve uma ação pacificadora e mandou aquela gente muito excitada, na maioria jovens, dispersar”, lembra Maria Luisa Falcão, revelando que o grupo saiu dali em carrinhas, regressando a casa em segurança.
Além de Maria Luisa Falcão, o quinto episódio do podcast “Igreja e Liberdade” conta com os testemunhos dos jornalistas António Ribeiro Cristóvão, João Pacheco de Miranda e Eduardo Oliveira e Silva, do economista e ex-ministro das finanças Luis Campos e Cunha e do administrador da Renascença, José Ramos Pinheiro. À semelhança dos episódios anteriores, a coordenação científica é de Paula Borges Santos, numa parceria com o IPRI – Instituto Português de Relações Internacionais.
Focado no papel dos católicos na transição democrática e nas transformações ocorridas na Igreja neste período, o podcast “Igreja e Liberdade” aborda, ao longo de cinco episódios, temas como a participação política dos católicos, a luta dos cristãos contra a guerra colonial e contra a ditadura e o papel do episcopado na adaptação da Igreja à democracia.