Dezenas de denúncias de desinformação registadas durante as legislativas

29 jun, 2025 - 16:28 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização)

Gustavo Cardoso adianta que a maioria dos casos diz respeito ao tema da corrupção. Rita Figueiras, especialista no tema, aponta como causas "a desconfiança transversal às instituições democráticas".

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Dezenas de denúncias de desinformação registadas durante as legislativas

Foi a primeira vez que esteve em funcionamento e pôs os utilizadores a denunciar o que viam de mal na internet: na campanha para as legislativas de 18 de maio, o sistema de resposta rápida de notícias falsas identificou dezenas de casos de desinformação.

No podcast “Isto não é só Europa”, da Renascença/EuranetPlus, Gustavo Cardoso, coordenador do MediaLAB do ISCTE e responsável pelo instrumento, adianta que, na maioria, os casos identificados dizem respeito a narrativas criadas de base nas redes sociais.

“Alegações falsas sobre os milhões de imigrantes que não existem na realidade, a islamização de Portugal através da criação de um partido que não existe e a ideia de que os 50 anos de democracia tiveram mais corrupção do que os 50 anos de ditadura, o que, factualmente, também não é verdade”, esclarece.

Além destas situações, este professor universitário aponta que também houve situações denunciadas que não consistiam em desinformação, mas num desrespeito das regras eleitorais – “por exemplo, um discurso a dizer ‘vamos matar’ ou ‘vamos destruir’” – e outras que eram apenas uma questão de opinião.

“São sobre ideias diferentes que outras pessoas veiculam. Aqui estamos eu e a Rita, [há] uma ideia que a Rita diz e eu não gosto e, então, vou denunciá-la como desinformação”, refere, para depois acrescentar que, nestes casos, prefere dar sempre o benefício da dúvida.

“Há outras coisas que estão na fronteira. Se tenho dúvidas, então vou declarar desinformativo. Pessoalmente, acho que isso é o maior disparate, porque, a dada altura, coloca em causa a liberdade de expressão”, defende.

Na leitura deste especialista, e perante as eleições autárquicas no outono e das presidenciais em janeiro de 2026, era “conveniente” que Portugal acelerasse a implementação das recomendações vindas de Bruxelas para combater a desinformação e que incidem, principalmente, “na interação entre o Estado português e as entidades que podem atuar, que são as redes sociais”.

Portugal tem de estar atento ao perigo revisionista

Esse será “sem dúvida” um bom passo para prevenir e lutar contra a vaga de notícias falsas, mas Rita Figueiras, investigadora no tema e professora na Universidade Católica Portuguesa, antecipa outros entraves.

Esta especialista aponta que a sociedade atual é moldada “pela desconfiança em relação às instituições tradicionais”, onde entra o parlamento, a classe política convencional, mas também os órgãos de comunicação social. Tudo isso, assinala Rita Figueiras, faz com que muitas fações da sociedade procurem apenas informações que validam apenas “aquilo em que já se acreditava” e que “digam outras coisas e contrárias aos atores políticos habituais”.

É um cenário de “profunda alteração” e que dificulta, por exemplo, a prevenção dos mais novos na escola, perante posturas mais agressivas e defensivas por parte dos pais.

“O que é que é o conhecimento? É aquilo que confirma a minha visão das coisas e [de que] os outros é que estão todos errados. É uma postura também cultural face ao conhecimento e quem é que nós validamos como sendo as instâncias que têm a credibilidade para produzir esse conhecimento e para o transmitir”, considera.

Esta é também a lógica por trás de muitas narrativas revisionistas, populares nas redes sociais e que, apesar de ainda não terem chegado a Portugal, é “preciso estar alerta” – ainda para mais numa altura em que, na Europa, já há casos, como o presidente polaco recém-eleito, Karol Nawrocki, que põe em causa alguns aspetos do Holocausto.

Na leitura de Rita Figueiras, o algoritmo do Tiktok torna esta plataforma um dos terrenos mais férteis para a disseminação destas narrativas. Esta académica recordou o exemplo das Filipinas, com a candidatura presidencial do filho de Ferdinando Marcos (ditador no país no século XX) que captou o eleitorado mais jovem – “com lacuna de conhecimento histórico e também de cultura política” – a partir de vídeos online.

“Ele utilizou os artifícios do som, de imagem que o TikTok para uma espécie de 'glamourização' do passado ditatorial. Utilizou músicas muito conhecidas do presente e transformou questões complexas do passado em pequenos recortes no presente, transformando-os em vídeos virais. Foi uma manipulação total da memória histórica”, destacou.

Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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