Isto Não É Só Europa

"Seria um desperdício" não ter tutores de IA nas escolas, diz ministro da Reforma do Estado

13 nov, 2025 - 09:30 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização) , Ricardo Fortunato (vídeo)

Gonçalo Matias garante que nem professores vão ser substituídos, nem vai haver redirecionamento de verbas. Sobre o anúncio de colocar Portugal na liderança mundial de inteligência artificial, o ministro aponta como prazo para o objetivo "um ou dois anos" - já quanto às críticas, responde que "estava entusiasmado".

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"Seria um desperdício" não ter tutores de IA nas escolas, diz ministro da Reforma do Estado
Veja a entrevista ao ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias.

O ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, defende que a utilização do Amália, o ChatGPT "à portuguesa" lançado há um ano pelo primeiro-ministro, pode ajudar os alunos portugueses e garante que "não está em causa" nem a redução do papel do professor nem o desvio de dinheiro que podia ser utilizado para atrair docentes.

No podcast Renascença/EuranetPlus "Isto não é só Europa", gravado ao vivo na Web Summit em Lisboa, o responsável pela pasta da digitalização avança também que está a ser estudada a possibilidade de prevenir fraudes no Serviço Nacional de Saúde através da inteligência artificial e insiste nos projetos-piloto para introduzir tecnologia na triagem de doentes na linha SNS 24 e no INEM.

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Quanto ao anúncio feito na Web Summit - de que quer tornar Portugal em "líder mundial" de inteligência artificial -, Gonçalo Matias adianta que quer o objetivo concretizado num máximo de dois anos e rejeita as críticas sobre uma meta demasiado ambiciosa ou um estilo excessivo: "Eu estava entusiasmado, mas não me arrependo".


No arranque da Web Summit, lançou Portugal para a liderança mundial neste setor, nomeadamente para a construção de gigafábricas de inteligência artificial, mas sem estratégia vai ser difícil. Já anunciou que vai lançar a Estratégia Nacional para a Inteligência Artificial, a minha pergunta muito concreta é: quando e quando é que entrará em vigor?

Nós temos uma estratégia dupla. Por um lado, uma estratégia para a inteligência artificial que será lançada até o final deste ano. E também uma estratégia para posicionar Portugal como um “hub” de “gigafactories” de inteligência artificial. São duas estratégias paralelas, mas que não são exatamente iguais.

Sobre as gigafábricas, a estratégia é muito específica e eu gostava de explicar isso para não parecer algo que é irrealista, que é sonhador e que não tem adesão à realidade. Portugal tem uma condição única do ponto de vista geoestratégico, da qualidade das suas infraestruturas e também da amarração dos cabos submarinos que vêm dos Estados Unidos e que ligam a Europa a outros continentes. Isto torna Portugal numa localização única e um interesse grande para as empresas.

Brad Smith, o presidente mundial da Microsoft, com quem estive reunido, anunciou um investimento de cerca de dez mil milhões de euros. E há outras empresas a olhar para essa realidade.

Mas não tendo Portugal ainda nenhuma gigafábrica, lançá-lo já como um líder mundial, não terá sido precipitado?

Há, sobretudo, uma ambição. É evidente que essa realidade não existe hoje, mas o tamanho do nosso sucesso será o tamanho da nossa ambição. Sines é um hub que já existe, nós temos uma candidatura junto da Comissão Europeia para a construção de uma gigafábrica em Portugal. Enquanto representante do governo português, tenho que projetar essa ambição de Portugal num evento que tem milhares de pessoas.

Eu estava entusiasmado, é verdade, é preciso contextualizar, era uma plateia com 70 mil pessoas e eu estava a projetar a imagem de Portugal. Não me arrependo um segundo disso.

E há um prazo específico para concretizar essa ambição? Cinco ou dez anos?

É bem menos que isso e vou dizer-lhe porquê. Porque esta tecnologia muda todos os dias, porque esta tecnologia avança a um ritmo alucinante. E se nós não temos condições para atrair e fixar este investimento e oferecer condições rápidas para atrair esse investimento, ele não vai acontecer. Temos de ter a acontecer dentro de um ano, eu diria.

Ter Portugal como líder mundial?

Posicionar Portugal como uma referência, foi isso que eu disse, posicionar Portugal como uma referência na inteligência artificial e na atração de gigantes. Dentro de um, dois anos. Agora, há um aspeto fundamental que não pode estar desligado disto e que está dependente também do Ministério que eu lidero, que tem a ver com a guerra à burocracia, para atrair este tipo de investimentos em Portugal. Para isso nós temos de fazer a simplificação e digitalização da nossa economia. E, já agora, outro aspeto: garantir a soberania digital. Ainda ontem estive numa reunião com a vice-presidente executiva da Comissão Europeia e discutíamos isso.

O seu discurso foi muito criticado, se calhar por um entusiasmo excessivo, como já deu a entender aqui. Como é que responde muito diretamente às críticas da oposição, nomeadamente da Iniciativa Liberal, que dizem que os objetivos do Governo não correspondem à realidade?

Temos de olhar para as críticas com “fair play”. Eu estava entusiasmado, é verdade, é preciso contextualizar, era uma plateia com 70 mil pessoas e eu estava a projetar a imagem de Portugal. Não me arrependo um segundo disso. Eu acho que a minha missão é projetar a imagem de Portugal e dar de Portugal uma imagem que é realista, que não é falsa, mas que é uma imagem de modernidade, de atração de investimento, de tecnologia. Temos problemas, com certeza, mas justamente por isso é que temos um ministério da Reforma do Estado. Queremos garantir que a nossa administração pública é mais digital, é mais próxima dos cidadãos – vamos lançar esta semana a Loja do Cidadão Virtual.

A IA é da maior utilidade na gestão dos meios disponíveis, na própria triagem das urgências e na triagem das ocorrências

E para isso será preciso literacia digital. Vai lançar o Pacto das Competências Digitais também no início do próximo ano. Como é que o Governo vai fazer chegar a formação destas competências à população do interior do país, tantas vezes isoladas e sem acesso à internet?

O nosso projeto de Pacto das Competências Digitais vai ter impacto em cerca de 2 milhões de pessoas. É feito pelo Estado, mas também em parceria com entidades privadas e em parceria com as autarquias locais. Nós queremos chegar ao interior, isso é muito importante, nós não queremos deixar ninguém para trás. Sobre a Loja do Cidadão Virtual, [ela] não vai substituir as lojas físicas: nós temos cerca de 80 Lojas do Cidadão no país inteiro, vamos terminar o próximo ano com 1.200 Espaços do Cidadão.

Quanto é que custará este pacto das competências digitais?

Este pacto é feito em vários níveis. Numa primeira fase, nós estamos a estimar algo como 25 milhões de euros e depois vamos aumentando ao longo dos próximos anos. Isto não é um projeto para se fazer apenas num ano.

Uma das medidas que tem também gerado alguma controvérsia é precisamente dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial. Isto não é estar a assumir que não é possível resolver a falta de professores em Portugal?

Não há qualquer substituição dos professores, não há qualquer ligação entre uma coisa e outra. Nós temos um projeto de Large Language Model (LLM) com inteligência artificial, o Amália. Foi lançado aqui no Web Summit pelo senhor primeiro-ministro há um ano e está pronto, o seu calendário foi cumprido. Uma parte do Amália consistia precisamente em ter uma integração com o sistema educativo, uma integração com os alunos e com os professores. Isto está a ser trabalhado também pelo ministério da Educação, Ciência e Inovação. Não é uma substituição dos professores, isso foi uma descontextualização.

Mas com os problemas no setor da educação, nomeadamente a falta de professores, não é estar a desviar recursos para introduzir esses sistemas de inteligência artificial nas escolas?

Não, de todo, de todo.

E há professores para acompanhar os alunos?

De todo, porque o Amália está orçamentado. O que não seria admissível da nossa perspetiva era desperdiçar este investimento que foi feito num instrumento de inteligência artificial português e que tem sido aliás elogiado no mundo inteiro. Mas não há nenhum desvio de recursos, é nenhuma substituição.

O argumento do desvio de recursos e da falta de professores são desculpas, então?

Isso não é aplicável, porque o modelo Amália está financiado, está construído, e o que nós estamos a garantir é que ele chegue às escolas e aos alunos. Seria, na minha perspetiva, um desperdício se isso não acontecesse.

E na saúde, como é que seria útil a inteligência artificial?

Não tenho dúvida que é da maior utilidade na gestão dos meios disponíveis, na própria triagem das urgências e na triagem das ocorrências. Portanto, não tenho a mais pequena dúvida que a inteligência artificial pode ser útil.

Nós não vamos privilegiar ninguém [nos projetos de centros de dados]

Gostava de ver a inteligência artificial, por exemplo, na linha SNS24 ou no INEM?

Estamos a estudar essas soluções e, portanto, não estou em condições de as anunciar. Em todo o caso, seriam anunciadas seriam pela senhora ministra da Saúde.

Mas não é mais de uma vez tapar o sol com a peneira? No caso do INEM, devido à falta de técnicos da emergência pré-hospitalar, se recorrerá à tecnologia?

Há vários países que estão a usar a tecnologia na saúde. Tenho falado com várias empresas de grande capacidade mundial que estão a trabalhar com Estados ajudando na gestão da saúde.

Ainda na área da saúde, a inteligência artificial poderia ser útil para aumentar a fiscalização e até, por exemplo, se calhar impedir, prevenir a existência de certos casos como os que surgiram nas últimas semanas e meses?

A inteligência artificial, a tecnologia é muito útil na administração pública em vários setores, prevenindo, obviamente, desvios, fraudes. Isso está a acontecer, não necessariamente em inteligência artificial, mas tecnologia muito sofisticada está a acontecer neste momento na segurança social. Na contratação pública, estamos a trabalhar na alteração ao Código dos Contratos Públicos, que vai ser mais digital também para garantir que há menores desvios, menor fraude, menor corrupção.

Mas no caso específico da saúde. Já falou com a Ministra Ana Paula Martins sobre essa possibilidade de introduzir a inteligência artificial para reduzir o número de fraudes, tendo em conta até o caso da dermatologia em Santa Maria?

Tenho falado com a senhora ministra sobre muitos assuntos e, certamente, também sobre tecnologia.

O Governo pretende também adotar uma Estratégia Nacional de Centros de Dados que, segundo já disse, quer criar o conceito de zonas pré-licenciadas para estas infraestruturas. Ou seja, o Executivo está empenhado em legislar para evitar novos casos como aquele que aconteceu no centro de dados de Sintes com a Operação Influencer?

Sem nenhum comentário ao processo em concreto, o que quer dizer, e já há pouco referi isso, é que a burocracia é um problema na atração de investimento estrangeiro. Seja nos Centros de Dados, seja na Inteligência Artificial, seja na construção, seja em fábricas que são necessárias para apoiar toda esta indústria, o licenciamento é um problema, demora tempo, seja ele o industrial, o ambiental e o urbanístico.

Nós estamos em concorrência com outros países, com outros países logo aqui ao lado, com outros países europeus. Se nós não dermos uma resposta em termos de burocracia, nós vamos perder este investimento.

No caso específico do “datacenter” de Sintes, considera o objetivo foi bem desenhado, mas depois tudo o resto, nomeadamente a burocracia, falhou e desviou as atenções?

Eu não vou comentar casos que estão em investigação. O que lhe posso dizer é que nós estamos a combater a burocracia e garantir que ela não é um entrave ao investimento em Portugal.

E que também não deixa dúvidas à Justiça?

Não, sabe porquê? Porque isto faz de forma geral e abstrata, como se diz em direito. Quando nós mudamos as leis, quando nós facilitamos e reduzimos a burocracia, isto é válido para todos, desde o cidadão ao empresário. Nós não vamos privilegiar ninguém: nós vamos garantir que todos têm um ambiente mais adequado, mais ágil e mais rápido para os seus investimentos.

Qual é o objetivo que não quer ver falhado, neste mandato como ministro?

Acho que temos uma oportunidade única, temos condições de estabilidade económica, social e, deixe-me dizer, de estabilidade política para fazer uma reforma do Estado com grande profundidade, como nunca foi feita. Portanto, aquilo que eu não me perdoaria a mim próprio era que nós não deixássemos para os nossos filhos, e para as futuras gerações, um país muito melhor.


Esta é a segunda parte da entrevista ao ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias. Veja a primeira parte aqui

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