Isto não é só Europa

Ressentimento e populismo. Os políticos estão a aproveitar-se dos jovens “magoados e perdidos”?

28 nov, 2025 - 13:21 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização)

Carlos Guimarães Pinto (IL), o editor de livros e jornalista Henrique Pinto de Mesquita e a psicóloga e politóloga Cristina Sá Carvalho debatem os efeitos do ressentimento em Portugal e na Europa, desde as redes sociais à classe média. Sobre os jovens, há alertas e "mea culpas": são a "primeira geração" com uma vida pior que os pais, mas também não foram preparados em casa para enfrentar essa realidade.

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Ressentimento e populismo. Os políticos estão a aproveitar-se dos jovens “magoados e perdidos”?
Ouça aqui o episódio desta semana. Foto: DR/Fábio Oliveira/Beatriz Pereira/RR

Com o “ressentimento mais forte do que nunca” em Portugal, o dedo tem de ser apontado aos políticos, da esquerda à direita, que simplificam demasiado os problemas complexos e tentam explicá-los com fatores que nascem apenas do “ressentimento”. O “mea culpa” é feito por um deputado: no podcast Renascença/EuranetPlus, “Isto não é só Europa”, Carlos Guimarães Pinto, da Iniciativa Liberal (IL), criticou as narrativas utilizadas pelos partidos.

“Grande parte das pessoas não tem tempo ou disponibilidade para entender os problemas em toda a complexidade. E a forma simples de mostrar que se quer resolver os problemas é simplificá-los até ao ressentimento. É dizer: ‘A saúde não funciona porque estas pessoas específicas estão a usar o nosso sistema de saúde. Os preços das casas estão altos, de quem é a culpa? É daquele pequeno conjunto que anda a comprar casas caras’”, defende, assinalando ainda que, depois de oito anos de governo PS, o ressentimento está agora “mais à direita do que à esquerda”.

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Henrique Pinto de Mesquita, antigo editor de livros e ensaísta, acrescenta a esta visão que os maiores prejudicados do ressentimento são os “ressentidos”, que não veem nada ser resolvido. Para este especialista em cultura europeia, esta arma eleitoral é, por isso, “falível” e cabe aos partidos não populistas saber prevenir e contrariar o ressentimento antes do momento chave, nas urnas. “Temos de garantir que não há motivos para estas pessoas se sentirem ressentidas”, aponta.

Para Cristina Sá Carvalho, psicóloga e politóloga, este fenómeno não é novo e há provas disso na história mundial (como a Revolução Francesa) e também na portuguesa, como o Verão Quente de 1975, quando as ocupações no Alentejo “foram acompanhadas de ressentimento, que existia há muitas décadas”.

A professora da Universidade Católica ressalva, no entanto, que esses tempos – com discursos “muito ideológicos” do PCP – estão longe da utilização do ressentimento pelos partidos populistas emergentes nos últimos anos, grupo onde inclui o Chega.

“A minha visão sobre esse fenómeno e esse género de partidos é que funcionam um bocado como as seitas, não é? Não sentem responsabilidade sobre coisa nenhuma, sentem estas necessidades, como todos sentimos obviamente por parte das pessoas, e tratam-nas sem respeito nenhum, e oferecem-lhes um mundo impossível”, critica.

Sobre o 25 de Novembro, o liberal Carlos Guimarães Pinto reconhece que há ressentimento por parte da direita e, embora “compreenda” essa posição, não concorda.

“Como a esquerda, ou a esquerda mais à esquerda, insiste muito que os valores de abril são os ‘nossos valores’, depois houve uma reação que eu entendo, mas que foi errada. [Por parte] da direita, que é: ‘Se o 25 de abril é a vossa data, então nós vamos criar uma para nós'”, afirmou, embora vinque que, para si, é “muito claro” que “derrubar uma ditadura que é muito mais complicado e tem muito mais valor do que evitar outra que não chegou a existir”.

Afinal, o que é o ressentimento?

Falta de respostas na saúde, dificuldade em comprar uma casa, o salário que não cresce anos a fio. Tudo isto são causas apontadas pelo painel deste episódio do “Isto não é só Europa” para o ressentimento crescente na sociedade portuguesa e europeia – mas, afinal, por que razão é uma arma eleitoral tão útil?

Os partidos querem resolver os problemas e simplificam até ao ressentimento

“O ressentimento faz parte daquilo que nós chamamos de emoções negras. Afloram de uma forma muito volátil e muito perigosa, portanto o ressentimento não pode ser ignorado, nem pode ser tratado como panos quentes”, explica Cristina Sá Carvalho, que esclarece ainda que, muitas vezes, surge na sequência de situações de “cólera” tão fortes que levam as pessoas a arranjar um alvo para descarregar a raiva.

Tem de se procurar alguém para direcionar, porque isso promove um certo alívio na pessoa que se está ressentida. A questão do ressentimento também é muito forte porque está associada à perda da expectativa de um ‘status’ de igualdade com as outras pessoas”.

Na análise da politóloga e psicóloga, o ressentimento é especialmente “destrutivo do tecido social” em países democráticos – em parte, porque há partidos que “cavalgam” esse sentimento, mas também porque essas emoções ganham força de uma forma quase orgânica, criando um “ressentimento coletivo”.

Procura-se alguém para direcionar, porque promove alívio no ressentimento

“Ele vai-se agregando. É um mistério da psicologia: quando as pessoas partilham uma dimensão profundamente negativa da sua vida, acabam por se descobrir umas às outras e, de alguma forma, associar-se”, acredita.

Geração Z, os primeiros com a vida pior que os pais

Teorias e explicações pode haver muitas, mas Henrique Pinto de Mesquita acredita que um ponto é consensual: as populações do interior e, principalmente, os jovens são os mais afetados pelo ressentimento.

É a primeira vez que uma geração está em piores condições de vida do que as anteriores. É a primeira vez que os filhos, agora dos ‘boomers’, não conseguem comprar casa, não conseguem comprar carro, não conseguem ter nada, do que os seus pais tiveram de forma quase facilitada”, realça, vincando que a principal causa disto tudo é a dificuldade em “arranjar um emprego numa situação não precária”.

Para o liberal Carlos Guimarães Pinto, esta leitura falha no diagnóstico do principal motivo para o ressentimento entre os jovens. Na sua perspetiva, este problema é um pau de dois bicos: o crescimento da classe média trouxe mais conforto aos jovens no começo de vida, mas também aumentou a concorrência e diminui-lhes as certezas de que podem “evoluir na vida e crescer na carreira” com facilidade.

“Há 30 anos, em média, um jovem de 25 anos não tinha um curso superior. Portanto, nessa definição de classe média não pertencia à classe média. Eu acho que a definição de classe média ou a definição de classe mediana é que mudou um bocadinho nestes últimos 30 anos”, defende.

É a primeira vez que uma geração está em piores condições de vida do que as anteriores

Cristina Sá Carvalho, por seu turno, nota um “defraudamento generalizado” das expectativas dos jovens, que sofrem tanto com as “vantagens e as desvantagens da globalização”. Em parte, por azar das últimas décadas – com a Troika e os conflitos –, em parte por uma espécie de “hiperprotecção” vinda dos pais.

“A minha geração tem uma responsabilidade enorme. Não fizemos nada para evitar este contexto e também vos facilitámos demasiado em fases precoces da vida. Não vos preparámos para o combate, foram demasiado protegidos. Não contribuímos educativamente para o fortalecimento psicológico de uma geração e, agora, estamos muito arrependidos”, assume.

Redes sociais – que mundo para os nosso filhos?

As caixas de comentário com ofensas, o conteúdo falso com mensagens de ódio, os poucos filtros nas contas que chegam até às crianças online. Tudo isso preocupa o painel deste episódio do "Isto não é só Europa".

Cristina Sá Carvalho admite que as redes sociais podem tornar o ressentimento numa bola de neve difícil de quebrar, ao incutir desde cedo nas gerações mais novas sentimentos negativos em relação à confiança nas instituições, por exemplo. Na leitura desta especialista, a situação é especialmente preocupante nos ambientes familiares onde se encontram pais com elevados níveis de ressentimento e que não ajudam os filhos a desmistificar aquilo que veem online.

Não vos preparámos para o combate, foram demasiado protegidos

“Isto é uma espécie de vasos comunicantes”, resume na relação entre pais e filhos. “Toda a classe média, que está muito depauperada e em condições de vida mais difíceis, toda a sua energia e atenção é vocacionada para colocar comida na mesa. Têm mais do que fazer do que pensar racionalmente sobre o que está a acontecer”, alerta.

Na leitura de Henrique Pinto de Mesquita, isto explica, em parte, o crescimento do ressentimento em tratar outros temas, como a imigração. Mas mais do que as redes sociais, este antigo jornalista foca-se no contributo “negativo” da comunicação social, nomeadamente das estações televisivas que promovem o ressentimento.

“O facto de as televisões privadas necessitarem de audiências para sobreviver promove programas mais agressivos, belicistas. É uma espécie de arena mediática que também alimenta esta bipolarização. É uma espetacularidade destes comportamentos. Passamos a política para as televisões como se fosse um Big Brother, uma coisa simplesmente cosmética, estética”, critica.

Carlos Guimarães Pinto prefere, por sua vez, afastar-se destas visões mais negativas. Para o fundador e antigo líder da IL, as revoluções e a introdução de novas tecnologias na comunicação de massas provocaram momentos de tensão desde sempre, fosse com as “guerras religiosas pouco depois da invenção da imprensa ou com a Segunda Guerra Mundial, na década a seguir à proliferação da rádio”.

Toda a energia é para colocar comida na mesa. Têm mais do que fazer do que pensar racionalmente nas redes sociais

Por essa razão, acredita que o tempo vai também ajudar a um maior civismo online, sem necessidade de limitar desde já o uso da liberdade de expressão.

“Nós temos certamente muitas pessoas que abrem as redes sociais, veem um recorte de jornal e acreditam naquilo. Até as pessoas ganharem as defesas para terem um sentido crítico pode demorar. E aí é que pode ter consequências mais dramáticas no curto prazo – dez, 20 anos, o que seja”, remata.

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