15 dez, 2025 - 09:00 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização)
Não é pelas negociações de paz das últimas semanas que o cenário mudou: o conflito pode escalar rapidamente e transbordar da Ucrânia para a NATO a qualquer momento, seja dentro de “três ou quatro meses, ou de três ou quatro anos”. Para Manuel Poêjo Torres, especialista em temas internacionais, a possibilidade de passar de uma guerra “híbrida” (por exemplo, com ataques informáticos e uma posição hostil contra a construção europeia) para um conflito convencional está “cada vez mais próxima” – apesar de os atores políticos europeus a tentarem camuflar.
“Não quer dizer que daqui a três, quatro meses ou três ou quatro anos não seja uma guerra absolutamente simétrica, convencional. Eu penso que a perceção política existe. Não existe é coragem para dizer o que está a acontecer, porque está a acontecer e o que é necessário fazer para travarmos o nosso maior adversário”, considera o comentador da Renascença e antigo funcionário da NATO no podcast “Isto não é só Europa”, em parceria com a EuranetPlus.
As reuniões em busca de um cessar-fogo nas últimas semanas (e a falta de resultados) revelam como “não existem soluções fáceis” – e se o presidente dos Estados Unidos (EUA) prometia terminar a guerra em 24 horas, Poêjo Torres considera que está agora provado como o conflito dificilmente terminará sequer em “24 meses”, já que a origem do problema reside na mentalidade russa sobre os povos com quem convive no xadrez geográfico e político.
“A Rússia vive momentos de transformação imperialista e isso só tem dois resultados. Ou a paz pela força das suas espadas, conquistando tudo e todos, ou a guerra por ser travado esse espírito de conquista. Temos de encontrar uma solução que perdure no tempo e que não permita que as próximas emulações russas nos levem de volta a este fado geográfico”, defende.
O objetivo é tentar desbloquear um acordo a tempo (...)
Depois de um fim de semana de negociações, os delegados dos EUA e o presidente da Ucrânia reúnem-se novamente esta segunda-feira em Berlim, na Alemanha, para continuar a discutir o plano de paz. Ao mesmo tempo, e também na capital alemã, está marcada uma cimeira de líderes de países europeus, da União Europeia (UE) e da NATO para discutir o apoio a Kiev.
Na leitura de Manuel Poêjo Torres, dificilmente se conseguirão tréguas duradouras, mas em janeiro “poderá haver resultados”. Ainda assim, os líderes europeus têm de bater o pé num tema: a eventual divisão de territórios.
“O grupo E3 (Reino Unido, França e Alemanha) tem de dizer ao presidente Trump que não é aceitável um segundo acordo Ialta, em que a Europa e a Ucrânia são divididos e retalhadas entre Estados Unidos da América e Rússia sem que os europeus conversem sobre assuntos em que os europeus estejam envolvidos. E esse momento é um momento de força”.
Para que esta estratégia tenha sucesso, há dois “pontos importantes”: em primeiro lugar, dominar a “linguagem da tensão política” preferida por Donald Trump e, depois, colocar na equação a Itália de Georgia Meloni que é “respeitada pelos EUA” e ainda a Polónia, por ser uma “peça fundamental neste xadrez”.
Das últimas semanas, há uma panóplia de possíveis condições para um acordo de paz parte-a-parte: o impedimento de adesão de Kiev à NATO, eleições na Ucrânia, prazos de entrada da UE, divisão e cedência de territórios à Rússia são apenas algumas delas.
Na leitura de Poêjo Torres, há uma especialmente preocupante: a proposta de Donald Trump em tornar a região do Donbass (por onde começou a invasão em 2022 e com tensões separatistas) numa zona de comércio livre. Porquê? “Não passa de uma falácia” para passar o território para o Kremlin.
“Está a tentar democratizar uma posição que seria inaceitável para qualquer democracia. E não deveria ser aceitável para os Estados Unidos da América não fossem eles liderados neste momento, e a tempo certo, esperemos, por um líder que está mais interessado em fazer negócios em prol daquilo que deveria ser a manutenção dos seus interesses e da esfera de influência do Ocidente”, defende.
Já quanto à adesão de Kiev à União Europeia, o prazo de dois anos até 2027 é “desafiante”, mas “exequível”, desde que sejam postas em curso o quanto antes reformas sobre a corrupção na Ucrânia e também os critérios orçamentais. O maior problema, contudo, não reside nessas regras, mas sim na alimentação e na Política Agrícola Comum.
“Trata-se da injeção dos bens alimentares, agrícolas e de pecuária da Ucrânia naquilo que é um mercado altamente monopolizado. E isso vai pôr em questão interesses dos franceses. Se acontecer um volte-face em França e o partido [de Emmanuel Macron] perder as eleições para o partido de Marine Le Pen, claramente a resposta é não entrar”, alerta Poêjo Torres.
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Outra das condições exigidas por Trump passa pela convocação de eleições presidenciais na Ucrânia: uma hipótese já admitida por Zelensky “dentro de dois ou três meses”.
Poêjo Torres prevê também inúmeros desafios e riscos militares e logísticos – que vão desde a segurança física fraudes eleitorais e ataques russos nas filas de voto até à dificuldade em definir o território que participa nas eleições e à impossibilidade em mobilizar e atualizar o recenseamento de soldados e refugiados.
Trata-se de um “enorme esforço” que trará poucos resultados: Trump “não deixará” de pôr em causa Zelensky (com elevada probabilidade de reeleição) ou outro líder ucraniano.
“Hoje ataca-se a legitimidade do presidente, amanhã ataca-se a credibilidade do novo chefe de Estado. Isto são tudo manobras políticas de influência, de projeção, de discórdia, de tentativa de semear o caos, para enfraquecer o coração e as mentes que estão no centro de gravidade das nações”, avisa.