Isto não é só Europa

Irão. A UE está a proteger-nos do terrorismo ou a alinhar na "lei da selva" de Trump?

05 mar, 2026 - 20:14 • Alexandre Abrantes Neves , Diogo Casinha (sonorização)

A ação militar dos EUA não mereceu uma condenação direta por parte da UE e, para a socialista Marta Temido, isso é "inaceitável". A eurodeputada deixa também críticas a Paulo Rangel, a quem acusa de "declarações ridículas" sobre as Lajes. Já a bloquista Catarina Martins avisa que pode estar em causa a "sobrevivência da UE" com a possível crise energética, enquanto a centrista Ana Miguel Pedro deixa alertas sobre eventuais vagas terroristas: "Obviamente, há riscos de segurança".

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Com os ataques instalados no Médio Oriente e sem previsão para acalmarem, a União Europeia (UE) mede cada vez mais as palavras sobre a posição a tomar, com os partidos a pressionarem Bruxelas a não ficar entalada entre a condenação da ação dos Estados Unidos e o medo de sofrer represálias por parte de Washington.

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A Renascença juntou três eurodeputadas num debate para debater o papel e a influência da UE na crise com o Irão. No podcast EuranetPlus “Isto não é só Europa”, Marta Temido (PS), Ana Miguel Pedro (CDS-PP) e Catarina Martins (BE) falam sobre a postura espanhola e a solidariedade europeia, a polémica sobre a base das Lajes, a ameaça de terrorismo na Europa e ainda a crise energética iminente.

A visão sobre a operação norte-americana e israelita varia muito entre as três, mas num ponto concordam: “ninguém quer” uma guerra no Médio Oriente, nem uma nova ação militar da NATO, do género Afeganistão ou Iraque.

UE está a alinhar na “lei da selva”?

“Inaceitável”, “Difíceis de entender”, “não posso aceitar”. Marta Temido distancia-se da posição assumida até agora pela União Europeia e pela chefe da diplomacia Kaja Kallas, que, embora peça contenção e respeito pelo direito internacional, tem apenas apontado o dedo diretamente ao Irão e não aos Estados Unidos.

“Imagino que estejamos de acordo em dizer, na mesma frase, que o regime iraniano é exemplo de autoritarismo, daquilo que a todos nos repugna, mas que, nem por isso, é aceitável que haja uma interferência externa para mudar um regime pela força. Ou pior do que isso: para garantir que os interesses de um determinado país, região, se alinham com interesses nacionais [dos EUA]. Isto é guerra, guerra declarada, é a lei da selva”, aponta.

Na leitura da eurodeputada eleita pelo PS, criticar a UE publicamente pode levar a uma “fragilização” da postura europeia sobre o conflito, mas isso não pode fazer desmobilizar a defesa dos valores europeus – mesmo que isso traga problemas com os Estados Unidos.

“Compreendo que temos dependências dos Estados Unidos, compreendendo que não estamos livres de uma série de ameaças ou de uma série de decisões impossíveis, mas não vai ser o medo que vai guardar a vinha”.

A bloquista Catarina Martins alinha nesta perspetiva, não só para assegurar que o direito internacional não deixa de ser uma “garantia” para todos, mas também por considerar que a intervenção norte-americana e israelita foi “ilegal”. “A UE tem de ser uma voz com o mínimo de sensatez no mundo a defender o direito internacional porque isso é também a única coisa que nos defende neste momento no mundo”, avisa.

Já a centrista Ana Miguel Pedro prefere analisar o caso pelo prisma da segurança internacional, frisando que a operação não se consubstanciou numa “invasão como a que a Rússia fez à Ucrânia”, mas sim numa ação para reduzir os perigos de um conflito nuclear.

“Acho que este não é o momento para nós fazermos pedagogia com os nossos aliados”, vinca. “Impedir que o Irão desenvolva armas nucleares é um interesse, obviamente, estratégico comum e não é o momento para a Europa virar costas aos seus aliados”.

Lajes. “É ridículo. Mais vale dizer que temos medo”

Dentro da União Europeia, uma das vozes mais críticas é Espanha, que já proibiu o uso de bases militares pelos Estados Unidos. Donald Trump reagiu e ameaçou cortar as relações comerciais com Madrid. Para Ana Miguel Pedro, esta reação norte-americana “não é proporcional”, mas a postura espanhola também teve erros.

“Também é legítimo perguntar se a estratégia do governo Pedro Sánchez não acaba por deixar a Espanha mais isolada dentro do espaço euro-atlântico e – reforço – no momento em que a coordenação entre aliados é fundamental para lidar com esta crise”, considera.

Marta Temido contrapõe, deixando inclusivamente um desafio a Luís Montenegro. “A minha pergunta seria se o primeiro-ministro está solidário com o primeiro-ministro espanhol e com Espanha”.

Já quanto à polémica com a Base das Lajes, a socialista lamenta que as explicações do governo saiam a “saca-rolhas” e critica fortemente Paulo Rangel por não assumir uma posição inequívoca de defesa dos interesses portugueses.

As declarações do Ministro dos Negócios Estrangeiros são absolutamente ridículas. É o que se chama tentar tapar o sol com a peneira com algo que não engana ninguém. Mais vale dizer assim: ‘Temos medo’. Isso toda a gente compreende. Do que está a tentar dizer isto foi enquadrado para não pôr em causa os nossos valores. Quais valores e princípios? Já abdicaram deles, claramente, há tanto tempo”, defende.

Terrorismo? “Existem riscos de segurança interna”

O receio veio ao de cima em junho, com a primeira operação dos Estados Unidos no Irão, e agora regressou: o aumento das tensões no Médio Oriente pode ou não levar a uma nova vaga de terrorismo Europa fora? Na visão da centrista Ana Miguel Pedro, essa éuma hipótese a ter em atenção.

Existem obviamente riscos de segurança interna, porque uma mudança nesta postura nuclear, ou a perceção de que temos um alinhamento mais duro, podem ser exploradas por estas organizações terroristas, grupos ligados ao ‘jihadismo’ ou redes radicais, que podem obviamente tentar instrumentalizar esta narrativa de conflito com o Ocidente”, avisa, acrescentando contudo que a Europa tem feito um “esforço de cooperação” para prevenir e responder a eventuais ameaças deste tipo.

Catarina Martins diz esperar que “esta não se torne numa preocupação”, mas, a acontecer, afirma que também a União Europeia terá culpas no cartório pelo ressurgimento de uma onda de terror – nomeadamente, França que já anunciou uma estratégia de “dissuasão avançada”, com um reforço do armamento nuclear.

“Só estamos a dar mais poder aos aliados de Trump e de Putin, dos quais teoricamente nos queremos defender. E todas estas manobras são muito perigosas. É tão fundamental que a Europa, tendo capacidade de cooperação na defesa e na segurança, tenha uma posição claramente sobre paz, sobre direito internacional”.

Já quanto à possibilidade de a situação no Médio Oriente vir a desencadear uma operação da NATO semelhante às que existiram no início do século no Afeganistão e no Iraque, Ana Miguel Pedro responde com um “nim” e defende que é uma discussão prematura.

“Eu acho que ainda estamos muito longe dessa questão ser posta em cima da mesa. Nós não queremos obviamente uma escalada do conflito e não queremos que esta questão se transforme num novo Iraque. A Europa deve ser sim uma força de paz, mas não ingenuidade. Paz sim, ingenuidade não”, acredita.

Crise energética "põe em causa sobrevivência” da UE

O impacto ainda não é conhecido, mas as primeiras previsões não são positivas: agentes do setor admitem subidas no preço dos combustíveis em 13 cêntimos e o governo até já admite novos descontos para fazer face à reta ascendente em que está o preço do petróleo.

Catarina Martins pede coordenação de esforços europeus para travar uma possível crise energética e inflacionista, que iria fazer subir ainda mais o custo de vida, em crescimento acentuado desde a guerra na Ucrânia.

“Isso é preciso mais coragem da União Europeia do que tem existido. A União Europeia tem uma produção de energia não dependente do petróleo, que já é significativa e que deve aumentar”, sugere. “Travar uma crise inflacionista é absolutamente vital na sobrevivência, na coesão interna da própria União Europeia. A crise de custo de vida está a esburacar as democracias”.

O CDS também pede atenção a esta matéria e acrescenta-lhe um ingrediente geopolítico: o eventual fecho do estreito de Ormuz (a circulação de petroleiros já caiu 90% desde o último sábado) vai fazer aumentar a dependência de países do Médio Oriente e da Ásia Meridional de petróleo russo – enfraquecer o Kremlin, fragilizar Kiev.

“O Irão não precisa de fechar totalmente o Estreito para criar um impacto grande, basta tornar a passagem muito arriscada e quando isso acontece o efeito é em cascata. Há um aumento do preço do petróleo, há um aumento do custo de transporte e há, obviamente, um impacto direto na inflação que, obviamente, terá consequências na Ucrânia”.


Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.

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