Isto não é só Europa

“Não vale a pena mentir às pessoas”. Europa aproxima-se de "recessão global" com guerra no Médio Oriente

16 abr, 2026 - 15:15 • Alexandre Abrantes Neves, João Campelo (sonorização)

O eurodeputado Bruno Gonçalves avisa que, se a crise no estreito de Ormuz não for resolvida no médio prazo, a UE vai ser a "principal prejudicada" a nível mundial. Já quanto ao ato de aceleração industrial, o socialista, e também Paulo Cunha (PSD), concordam que esta é a grande oportunidade para a Europa estancar a saída de empresas dos 27.

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Guerra. Europa aproxima-se de "recessão global"
Ouça aqui o episódio desta semana. Foto: Rita Gonçalves/DR/Ariana Cruz/Renascença

A possibilidade de pagar taxas elevadas para circular, o anúncio da reabertura durante o cessar-fogo, o bloqueio temporário enquanto os ataques no Líbano não terminassem, o contrabloqueio norte-americano. Há mais de um mês que é praticamente impossível deixar passar petroleiros no Estreito de Ormuz e, na leitura do eurodeputado socialista Bruno Gonçalves, começa a ser cada vez mais evidente que o principal prejudicado vai ser a União Europeia (UE).

A médio prazo, nós temos um problema estrutural na economia mundial, e não vale a pena mentir às pessoas. Nós entraremos em recessão global, porque significará que não há energia suficiente para um conjunto de países. E qual é o continente que está mais prejudicado desse ponto de vista? São os europeus”, avisa, no podcast Isto não é só Europa da Renascença/EuranetPlus.

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A mais recente decisão de Donald Trump em “afundar” qualquer navio que por lá tente passar vem abanar de novo o mercado energético, depois do ligeiro alívio da semana passada – e que até permitiu baixar os preços dos combustíveis.

Para o eurodeputado eleito pelo PS, a cada dia que passa a Europa fica mais fragilizada. “Somos triplamente penalizados”, afirma, lembrando que os 27 têm pouco ou nada a dizer na formação do preço do petróleo e, além disso, têm pouca disponibilidade de gás natural. Mas há mais.

“E ainda somos penalizados porque fomos convencidos que teríamos de ser os primeiros a libertar as maiores reservas do nosso património petrolífero para baixar o preço no imediato. Ou seja, se nós chegarmos a um cenário em que precisássemos das reservas, nós já somos o continente que mais reserva teve de disponibilizar.”

O eurodeputado do PSD, Paulo Cunha, mostra-se igualmente preocupado com o cenário e acredita que esta é uma oportunidade para a UE “apontar a agulha noutra direção”. A solução passa, diz, por estimular um “mix energético” na Europa que permita consumir renováveis (incluindo gases) e evitar o “desperdício de energia”.

“Nós produzimos mais energia renovável do que aquela que consumimos. É preciso cuidar do armazenamento, é preciso cuidar do transporte de energia, nomeadamente das interligações. E o caso da relação entre a Península Ibérica e a Europa Central é um caso paradigmático, é caricato”, lamenta, culpando França pela dificuldade que impõe de que as renováveis viajem desde Portugal e Espanha até à Europa Central.

Na leitura do social-democrata, Portugal está a perder uma oportunidade de se tornar num exportador importante para os aliados europeus – e a Europa a desperdiçar uma mudança de mercado que pode acelerar a transição energética e torná-la mais resiliente.

“Não vamos amanhã construir a linha de alta tensão, mas se não começarmos a fazer algo no imediato, vamos estar permanentemente dependentes destas crises. Nós vivemos num mundo cada vez mais volátil, cada vez mais inseguro, menos previsível, e onde estes cenários tendencialmente mais se repetirão”, alerta.

Ato aceleração industrial? “Sim, se não perdemos indústrias”

Carros elétricos, o setor da defesa, aço, alumínio, cimento, vestuário, calçado. Tudo são prioridades para a Comissão Europeia, que lançou este ano o Ato de Aceleração Industrial. São mais de 1,5 mil milhões de euros a serem distribuídos até ao final do próximo ano e que – até 2035 – pretendem colocar a indústria transformadora a representar 20% da atividade económica europeia até 27 Estados-membros.

Entre os vários objetivos, um dos principais passa por reduzir a burocracia no licenciamento de novas indústrias. Uma decisão “certa”, considera Paulo Cunha, que assume que a Europa está em contrarrelógio para tentar estancar a perda de capacidade industrial.

Se nada for feito, vamos perder indústrias. Poderá ser irreversível a capacidade de recuperação industrial e económica da Europa e da União Europeia em concreto, se as empresas que ainda estão na Europa também se deslocam no território para outros países – e já não se fala só da China e dos Estados Unidos, fala-se também da Arábia Saudita e da Índia”.

O objetivo, aponta o eleito pelo PSD, é facilitar a vida às empresas – e fazê-las sentir que vivem dentro de um mercado único e não de 27 mercados diferentes que pouco ou nada têm em comum, em termos regulatórios.

“Acho que o aprofundamento do mercado único também ajudará muito a que as ‘startups’ possam ser mais bem-sucedidas”, defende. “[Queremos] uma experiência de criar uma uniformidade normativa, regulatória, para que um setor mais ligado à inovação possa experimentar aqui um único regime à escala europeia”.

Já o socialista Bruno Gonçalves lamenta que a Europa chegue “sempre tarde” às conclusões cruciais, mas fala do ato como uma medida importante e globalmente bem construída.

“Precisamos de descarbonizar a economia europeia. Não vamos dar um passo atrás nesta matéria, não porque ela é dogmática, mas porque ela é melhor para o planeta e para as pessoas. Isso significa ter soberania industrial, ou seja, depender menos de parceiros externos”, assinala, elogiando também o papel “fiscalizador” atribuído ao Estado neste texto europeu.

“Mercedes já vendeu bicicletas”. Indústria automóvel precisa de “adaptação”

A indústria automóvel é um dos setores mais referidos ao longo do ato de aceleração industrial europeu e os números explicam porquê. Segundo dados da Associação Europeia de Fornecedores do Setor Automóvel, a produção na Europa está ainda 20% abaixo dos níveis pré-pandemia e, só em 2024, estima-se que mais de 50 mil empregos se tenham perdido no setor.

A somar a isto, a competitividade nos carros elétricos continua a deixar os 27 a léguas da China. Apesar de estar em segundo lugar e à frente dos Estados Unidos, a Europa não representa mais do que 25% da quota de mercado (Pequim chega aos 60%) e tem registado abrandamentos recentes.

O social-democrata Paulo Cunha não considera que a Europa errou ao apostar nos carros elétricos, mas deixa lições para o futuro – e para voltar a ganhar preponderância e competitividade num setor que, “temos de admitir, já não é europeu”.

“O que foi errado é não sermos autónomos no passo que demos, e perdemos a preponderância ao dar esse passo. Nós fomos inovadores porque trouxemos para o mercado essa solução, mas depois não fomos capazes de ganhar com isso, de crescer à boleia do passo que demos. Pelo contrário, nós perdemos para outras latitudes o ganho que devia ser nosso, europeu”, critica.

O futuro passa, concordam os dois eurodeputados, por apostar nos chamados “e-fuels” e em carros movidos a hidrogénio e outros gases. Mas Bruno Gonçalves alerta: a solução de agora não tem de servir para sempre. E as empresas europeias têm de aprender a adaptar-se.

A Mercedes-Benz era uma empresa de bicicletas. A Volkswagen anunciou que vai passar a ser uma empresa de mísseis, portanto, uma empresa de defesa. Aquilo que nós precisamos de perceber é que economia precisamos, do ponto de vista inovador, para remunerar melhor as pessoas na Europa, para termos melhores produtos e para estarmos à frente dos Estados Unidos e da China”.

E, nesse esforço, o socialista pede também aos europeus para fugirem de “derivas protecionistas” e se focarem no grande ganho competitivo que a UE pode ter: a qualidade.

Se quisermos entrar numa competição do preço, vamos perder. Se quisermos entrar numa competição protecionista, em que só podemos comprar carros europeus, vamos perder. Se a lógica for só na competitividade do preço, provavelmente perderemos para muitas geografias, porque nós não queremos entrar nessa competitividade que é prejudicial aos trabalhadores. Tem obrigatoriamente de ir pela qualidade e pela inovação, nós não temos outra forma de nos destacarmos”, apela.

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