Livro de memórias

Dentro da cabeça de Merkel. Alemã pediu conselhos ao Papa para lidar com Trump

21 nov, 2024 - 19:22 • Ana Kotowicz com Reuters

Antiga chanceler da Alemanha publica livro de memórias onde revisita as relações que manteve com chefes de Estado e do Governo. Putin e Trump têm lugar de destaque.

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"Dobre, dobre, dobre, mas tenha cuidado para não partir." Angela Merkel diz que gostou desta imagem, que lhe foi transmitida pelo Papa Francisco. A pergunta, lançada de forma enigmática pela então chanceler alemã, foi imediatamente entendida por Francisco, que percebeu que Merkel precisava de conselhos sobre como lidar com Donald Trump, na altura Presidente dos Estados Unidos. Esta é uma das muitas memórias que Merkel partilha no seu livro de memórias, que será lançado a 26 de novembro, e onde detalha alguns dos encontros que manteve, ao longo dos seus 16 anos à frente da Alemanha, com chefes de Estado e de Governo.

Vladimir Putin é uma das figuras que merece destaque — alguém que, na opinião de Merkel, era olhado com fascínio por Donald Trump, que parecia apaixonado por figuras autocráticas. Sobre o Presidente russo, Merkel recorda que Putin sempre temeu que a Ucrânia se juntasse à NATO e, num dos diálogos que recria no livro, o Presidente russo parecia estar à espera que a adesão acontecesse depois de Merkel abandonar o poder. Para Putin, era equivalente a uma "declaração de guerra".

Voltando à conversa que teve com o Papa Francisco, Merkel conta que precisava de conselhos sobre como lidar com Donald Trump, quando percebeu que o norte-americano ia abandonar os acordos climáticos de Paris. Pediu-lhe, em termos gerais, conselhos sobre como lidar com pessoas "com visões fundamentalmente diferentes". A resposta foi aquela que já se conhece.

Ainda sobre Trump, conta que um dos seus erros foi ter pensado que ele era uma pessoa "completamente normal". Quando Trump assumiu o cargo pela primeira vez em 2017, Merkel era a líder mais influente na União Europeia, que muitos apelidavam de verdadeira "líder do mundo livre" — um título tradicionalmente reservado aos presidentes dos EUA.

Escrito antes da reeleição de Donald Trump, Merkel expressa no livro a sua "esperança sincera" de que Kamala Harris saia vencedora das eleições presidenciais norte-americanas. Não aconteceu.

Alguns excertos foram publicados no semanário alemão Die Zeit nesta quarta-feira e "Liberdade: Memórias 1954-2021" estará disponível em mais de 30 países a 26 de novembro. Merkel lançará a obra nos EUA uma semana depois, durante um evento em Washington onde o antigo Presidente Barack Obama, com quem manteve um relacionamento político próximo, estará presente.

Nos excertos que agora veem a luz do dia, Merkel entra em detalhes sobre muitos dos seus encontros com Putin, descrevendo-o como um homem desesperado para ser levado a sério.

"Eu via-o como alguém que não queria ser desrespeitado, pronto para atacar a qualquer momento", escreve Merkel. "Pode-se achar isso infantil e desprezível, pode-se abanar a cabeça para isso. Mas isso significa que a Rússia nunca desapareceu do mapa."

Páginas tantas, Merkel parece sugerir que a invasão da Ucrânia em 2022 foi programada para acontecer depois de deixar o cargo de chanceler. "Não serás chanceler para sempre, e nessa altura eles vão juntar-se à NATO", terá dito Putin a Merkel sobre a Ucrânia. "E eu quero evitar isso."

Alguns líderes da Europa Central e Oriental, escreve Merkel, era sobranceiros na forma como olhavam para Moscovo: "Parecem querer que o país simplesmente desapareça, que não exista. Não posso culpá-los... Mas a Rússia, fortemente armada com armas nucleares, existe."


Alguns excertos do livro:


Vladimir Putin

"Alguém que estava sempre de pé atrás para evitar ser maltratado e sempre pronto para responder, e isso incluía entrar em jogos de poder, como fazer os outros esperarem por ele. Pode-se achar isso infantil e desprezível, pode-se abanar a cabeça. Mas isso significa que a Rússia nunca desapareceu do mapa."

"Não estava interessado em construir estruturas democráticas, ou prosperidade, para uma economia que funcionasse no seu país ou noutro lugar. Em vez disso, ele queria combater o fato de os Estados Unidos terem saído vitoriosos da Guerra Fria. Ele queria que a Rússia continuasse a ser um polo indispensável num mundo multipolar após o fim da Guerra Fria. Para conseguir isso, alicerçou-se principalmente na sua experiência nos serviços de segurança."


Discussões sobre a adesão da Ucrânia, cimeira da NATO (2008)

"Para Putin, a perspetiva de adesão da Ucrânia e da Geórgia à NATO foi uma declaração de guerra".

"Achei que era uma ilusão supor que o status do Plano de Ação para Membros (MAP) daria à Ucrânia e à Geórgia proteção contra a agressão de Putin, que esse status teria tido um efeito dissuasor a ponto de Putin ter aceitado os acontecimentos sem fazer nada."

“Num outro contexto, do qual já não me recordo com detalhes ele (Putin) disse-me: 'Não serás chanceler para sempre, e nessa altura eles vão juntar-se à NATO. E eu quero evitar isso.' E eu pensei: também não serás Presidente para sempre. No entanto, as minhas preocupações sobre tensões futuras entre a Rússia e Bucareste não diminuíram."


Papa Francisco

Merkel recorda que não sabia como convencer Trump a manter-se fiel aos acordos de Paris. "Sem dizer nomes, perguntei-lhe como abordaria opiniões fundamentalmente diferentes num grupo de pessoas importantes. Ele imediatamente entendeu o que eu queria dizer e respondeu simplesmente: 'Dobre, dobre, dobre, mas certifique-se de que não partir.' E gostei desta imagem."


Donald Trump

"Via tudo da perspetiva do empresário imobiliário que era antes de entrar para a política. Cada lote de terra só podia ser vendido uma vez, e se ele não conseguisse, outra pessoa conseguiria. Era assim que via o mundo."

"Durante anos, os muitos carros alemães nas ruas de Nova Iorque eram uma pedra no seu sapato. Os americanos só os poderiam estar a comprar, na sua opinião, devido a preços de dumping e à suposta manipulação da taxa de câmbio entre o euro e o dólar."

Merkel escreve como Trump não lhe apertou a mão, perante fotógrafos, durante um encontro na Casa Branca em 2017, mesmo depois de ela lhe ter sussurrado que deveriam fazê-lo. "Assim que lhe disse isto, interiormente abanei a cabeça. Como podia esquecer-me que Trump sabia exatamente que efeito queria alcançar? Ele queria dar às pessoas algo para falar com o seu comportamento, enquanto eu agi como se estivesse a ter uma conversa com alguém completamente normal."

"Ele era obviamente muito fascinado pelo Presidente russo. Nos anos que se seguiram, tive a impressão de que políticos com traços autocráticos e ditatoriais o cativavam."

"Conversámos a dois níveis diferentes: Trump a um nível emocional, eu a um nível factual. Para ele, todos os países estavam em competição uns com os outros, o sucesso de um era o fracasso do outro. Ele não acreditava que a cooperação pudesse aumentar a prosperidade de todos."

“Parecia que o seu principal objetivo era fazer a pessoa com quem estava a conversar sentir-se culpada… Ao mesmo tempo, tive a impressão… de que ele também queria que a pessoa com quem estava a falar gostasse dele.”


Infância na Alemanha Oriental

"A vida na RDA era uma vida constantemente no limite. Mesmo que um dia começasse de forma despreocupada, tudo podia mudar em questão de segundos se os limites políticos fossem transgredidos... o Estado não conhecia misericórdia. Descobrir exatamente onde ficavam esses limites era a verdadeira arte de viver. O meu caráter um tanto conciliador e a minha abordagem pragmática ajudaram-me."


Gerhard Schröder

Merkel recorda a sua primeira vitória eleitoral, quando o então chanceler Gerhard Schröder se recusou a admitir a derrota na televisão, um fato sem precedentes na Alemanha. Mais do que isso disse que o seu partido nunca se coligaria com o de Merkel.

"Sentei-me como se eu não fosse parte de tudo aquilo, como se estivesse a assistir À cena em casa em frente à televisão. E disse a mim mesma: 'Não te metas, sê tu própria'. Era muito claro que estava a passar por algo especial, mas tudo aconteceu de forma bastante inconsciente. Duvidava muito que Gerhard Schröder se tivesse comportado da mesma maneira com um homem."

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