Taxas alfandegárias

Guerra comercial. Canadá retalia contra tarifas de Trump, México e China ameaçam

02 fev, 2025 - 10:23 • João Pedro Quesado

União Europeia pode ser o próximo alvo da estratégia "América Primeiro" de Donald Trump, que pode aumentar a inflação em 0,7%. China, México e Canadá recusaram papel no problema de consumo de droga nos Estados Unidos da América.

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Donald Trump cumpriu a promessa eleitoral de aplicar taxas alfandegárias extraordinárias aos produtos importados do Canadá, México e China, e os três países responderam rapidamente. O cenário dá início a uma guerra comercial, aumentando os preços que os consumidores pagam pelos produtos nos três países e nos Estados Unidos da América - uma pressão inflacionista que pode fazer contrair as economias.

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, anunciou a retaliação poucas horas depois de Donald Trump assinar a ordem executiva para aplicar as novas tarifas a partir de terça-feira. O país da América do Norte, que Trump tem dito que se deve tornar no 51.º estado dos EUA, aplicou a tática "olho por olho": vai aplicar uma tarifa de 25%, como o seu vizinho do sul, a cerca de 102 mil milhões de euros de produtos importados dos EUA. Parte das taxas entra em vigor na terça-feira, enquanto outras são aplicadas apenas daqui a 21 dias.

Trudeau dirigiu parte do discurso aos norte-americanos: "As tarifas contra o Canadá vão colocar os vossos empregos em risco, potencialmente encerrando fábricas americanas de montagem de carros e outras indústrias. Vão aumentar os custos, incluindo comida na mercearia e combustível na bomba. Vão impedir o vosso acesso a um fornecimento acessível de bens vitais para a segurança dos Estados Unidos como níquel, potassa, urânio, aço e alumínio".

"Vão violar o acordo de comércio livre que o Presidente e eu, com o nosso parceiro mexicano, negociamos e assinamos há alguns anos", apontou Justin Trudeau, referindo-se ao acordo entre os três países negociado largamente por iniciativa de Donald Trump para substituir o Tratado de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA), que tinha entrado em vigor em 1994.

O primeiro-ministro demissionário do Canadá, que pediu para os canadianos comprarem "menos produtos americanos", tornou ainda clara a "perplexidade" do país com a decisão dos EUA. "Não acho que haja muitos americanos que acordam de manhã a dizer 'ah, maldito Canadá. Devíamos mesmo ir atrás do Canadá'".

Entre os produtos dos EUA afetados pelas tarifas canadianas estão cerveja, vinho, bourbon, frutas, vegetais, perfume, roupa, mobília, equipamento de desporto, e matérias primas como madeira e plástico, entre outras.

A resposta do Canadá não se ficou pelo primeiro-ministro. Além dos apupos dos canadianos ao hino dos EUA num jogo de hóquei em gelo já na noite de sábado para domingo, e de um plano apresentado pelo líder da oposição para "maximizar o impacto nas empresas americanas", também os líderes das regiões do Canadá reagiram: o primeiro-ministro da Colúmbia Britânica assinou um decreto para parar a compra de álcool aos "estados vermelhos" (liderados por republicanos) dos EUA, assim como para remover as marcas desses estados das prateleiras dos supermercados e promover a compra de produtos canadianos.

"Não pedimos isto, mas não vamos recuar", disse ainda Trudeau durante o anúncio da retaliação comercial, onde recordou a parceria entre os dois países, encarnada nos militares que "lutaram e morreram" ao lado dos militares norte-americanos na Segunda Guerra Mundial.

México retalia nos alimentos, aço e alumínio

Claudia Sheinbaum, a Presidente do México, anunciou rapidamente ter dado ordens ao ministro da Economia do país para implementar "medidas aduaneiras e não aduaneiras" na resposta aos Estados Unidos da América. De acordo com a Reuters, estas medidas podem incluir taxas alfandegárias entre 5% a 20% sobre produtos alimentares, aço e alumínio dos EUA.

Depois de dizer que o México devia responder de "cabeça fria", Sheinbaum afirmou, num comício, que "quando negociamos com as outras nações, quando falamos com as outras nações, fazemo-lo sempre com as nossas cabeças levantadas, nunca com a cabeça baixa".

A Presidente do México negou ainda "a calúnia da Casa Branca ao governo do México ter alianças com organizações criminosas", apontando à acusação de Trump de que remessas de fentanil da China chegam aos Estados Unidos através do México e Canadá por estes países não vigiarem as fronteiras.

"Se o Governo dos Estados Unidos e as suas agências quisessem combater o grave consumo de fentanil no país, podiam combater a venda de drogas nas ruas das suas principais cidades, que não fazem", acusou Sheinbaum, apontando ainda à "lavagem de dinheiro gerado por uma atividade ilegal que tantos danos causou à população" dos EUA.

Em resposta a Trump, a China declarou que "o fentanil é um problema da América", e que o país "tem levado a cabo extensa cooperação anti-narcóticos com os Estados Unidos e alcançado resultados notáveis".

O Ministério do Comércio da China prometeu retaliar contra as novas taxas dos EUA com "medidas correspondentes para proteger resolutamente os direitos e interesses", e afirmou que "não há vencedores numa guerra comercial ou tarifária".

Pequim tornou ainda claro que vai apresentar uma queixa contra Washington na Organização Mundial do Comércio pela "imposição unilateral de taxas alfandegárias em grave violação das regras da OMC".

Inflação pode crescer em 0,7%

México, China e Canadá são as maiores fontes de importações dos Estados Unidos, por esta ordem, de acordo com o "The Washington Post". Em 2023, os EUA importaram 1,3 biliões de dólares de produtos destes três países - 43% das importações totais nesse ano.

A guerra comercial terá impacto na inflação nos países da América do Norte. De acordo com a Reuters, os economistas da multinacional financeira Goldman Sachs estimam que a aplicação de taxas alfandegárias abrangentes ao Canadá e México implica um aumento de 0,7% na inflação, assim como uma queda de 0,4% no PIB dos EUA.

O potencial de aumento dos preços aos consumidores - várias indústrias, principalmente a dos automóveis, têm a cadeia de produção dividida entre os três países - também preocupa os economistas. A Reserva Federal dos EUA anunciou, na semana passada, uma pausa nos cortes das taxas de juro em "espera para ver que políticas são promulgadas" por Trump, e um regresso do crescimento da inflação pode fazer as taxas de juro voltar a subir, deprimindo a atividade económica nos EUA.

União Europeia a seguir?

A guerra comercial pode chegar ainda à União Europeia. Na sexta-feira, Donald Trump afirmou que algo "muito substancial" foi planeado para as tarifas sobre produtos europeus, como aço, alumínio, cobre, medicamentos e semicondutores. Isto é, um regresso à política do primeiro mandato de Trump.

Segundo o think tank “Council on Foreign Relations”, Trump aplicou, como Presidente, tarifas de 25% e 10% sobre as importações de aço e alumínio da UE (um total de 6,4 mil milhões de euros anuais), que provocaram uma retaliação europeia – essas tarifas estão suspensas de forma mútua até ao fim de março de 2025.

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