Eleições na Alemanha. A simpatia e o ódio à AfD

20 fev, 2025 - 08:30 • Guilherme Correia da Silva

O partido nacionalista Alternativa para a Alemanha está em segundo lugar nas sondagens. É um dos fenómenos nestas eleições federais no país. Porquê?

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J.D. Vance, o vice-presidente dos Estados Unidos, pediu aos partidos tradicionais alemães que ouçam a AfD. O bilionário Elon Musk disse que a Alternativa para a Alemanha é o "último raio de esperança" para o país. Mas o que afirmam milhares de manifestantes na capital alemã?

"Berlim inteira odeia a AfD". Outras coisas não dá para transcrever aqui, pois incluem palavrões.

Trinta mil pessoas protestaram, há dias, no centro de Berlim, contra o crescimento da extrema-direita no país e contra a aparente aproximação dos conservadores da CDU/CSU (que lideram as sondagens) ao partido Alternativa para a Alemanha, durante uma votação em janeiro, exigindo o reforço dos controlos fronteiriços. Os rivais acusaram a CDU/CSU de quebrar um tabu na Alemanha ao suportar-se nos votos a favor do partido nacionalista para fazer passar a resolução.

"A CDU está a seguir o mesmo caminho desumano", criticou uma manifestante em declarações à Renascença. "O partido chama-se CDU - União Democrata-Cristã - mas de 'cristã' já não resta nada. Estas eleições têm a ver com o caminho que a Alemanha quer seguir. Estou aqui para que não se repita o que aconteceu há 80 anos."

Faz sol, mas estão zero graus em Berlim. Há pequenos montes de neve nas ruas. Os manifestantes vieram ao protesto agasalhados com parcas, gorros, luvas. Alguns seguram cartazes como "Proíbam a AfD já, nunca mais ao fascismo".

Em todo o país, tem havido protestos do género, que têm arrastado multidões.

O que está a acontecer na Alemanha e no mundo é preocupante, explica outra manifestante. "Temos de defender a democracia e a liberdade, que, se calhar, dávamos como garantidas há alguns anos. Porque esse é um bem precioso, que quero defender", afirma à Renascença, enquanto segura um cartaz emoldurado com luzes de natal e a mensagem "olhem para o que vos une".

Por que cresce a AfD?

Insatisfação dos eleitores. Desilusão com os partidos tradicionais. Medo do rumo que o país está a tomar ou de que a Alemanha seja arrastada para uma guerra. Os estudos mostram que votar AfD não significa necessariamente defender posições extremadas.

No partido votam eleitores de todas as idades, incluindo muitos jovens. Em eleições estaduais recentes, no leste da Alemanha, muitos dos que votaram na AfD eram pessoas que antes contribuíam para os números da abstenção; outros escolheram a CDU em votações anteriores, mas mudaram entretanto de opinião. A Alternativa para a Alemanha parece estar a "normalizar-se", observam os investigadores.

À conversa com um candidato da AfD

Wolfgang Truckenbrodt conta à Renascença que já foi membro da CDU, nos anos 70 e 80. Agora candidata-se pela AfD na cidade de Bona, a antiga capital da República Federal da Alemanha

O político revela que tem uma ligação a Portugal. Depois do 25 de Abril, Truckenbrodt conta que andou pelo país para estabelecer contactos e fornecer impressoras para o trabalho político no pós-revolução, no alvorecer da democracia.

Será a AfD um perigo para a democracia na Alemanha? É o que alegam os manifestantes nas ruas e é o que alertam as forças políticas tradicionais no Parlamento. É a pergunta que fazemos a Wolfgang Truckenbrodt.

"Só constituiria uma ameaça se o Estado fosse incapaz de contrariar desenvolvimentos políticos perigosos", responde o político.

A AfD tem sido acusada de promover "nacionalismo étnico" em vez de inclusão. Os serviços secretos alemães monitorizam o partido há vários anos por suspeita de extremismo. O que pensa Truckenbrodt sobre isso?

"É perseguição política", afirma. "É absolutamente normal que o Serviço de Proteção da Constituição observe o que se passa na sociedade e que impeça, previna ou processe tentativas de subversão, mas nós temos um Serviço de Proteção da Constituição que organiza conferências de imprensa, onde alerta sobre a AfD. É absurdo."

Diferenças sobre migração

A Alternativa para a Alemanha indica, no seu programa eleitoral, que aprova o acolhimento de trabalhadores estrangeiros qualificados, sempre que contribuam para o "êxito" do país. "Trabalhadores não europeus adequados", detalha o documento, seriam selecionados "de acordo com as necessidades e critérios rigorosos".

Quem definiria esses critérios?

"Você sabe, certamente, que a Alemanha recrutou um grande número de trabalhadores estrangeiros na década de 1960 para trabalhar aqui connosco", lembra Wolfgang Truckenbrodt. "Isso baseou-se em acordos com Estados europeus, incluindo Portugal. Havia gabinetes alemães de recrutamento no estrangeiro. Ou seja, nós temos experiência no recrutamento de trabalhadores estrangeiros. Sabemos como isso se faz. Mas não é isso que [agora] queremos fazer", acrescenta o político da AfD.

"Se perguntar como faremos isso, é relativamente simples. A indústria diz o que quer, e essas exigências ou desejos serão exteriorizados. E [o recrutamento] não precisa de ser necessariamente fora da União Europeia."

Mas um capítulo diferente seria a imigração ilegal.

A Alternativa para a Alemanha defende o reforço dos controlos fronteiriços, exige "deportações rigorosas" de todos os que vivem ilegalmente no país, propõe também que se exerça "pressão maciça sobre os países de origem que não estão dispostos a acolher os refugiados, por exemplo, através de sanções económicas ou da suspensão da ajuda ao desenvolvimento." É o que consta no programa da AfD para as eleições de domingo.

Os manifestantes anti-AfD que protestaram, há dias, no centro de Berlim e que têm protestado um pouco por todo país olham para medidas como estas com aflição.

"Estamos a resvalar para um discurso que desrespeita os Direitos Humanos e o Estado social", desabafa uma manifestante.

Segundo as sondagens, a maioria dos eleitores alemães concorda com mais regras e limitações à imigração.

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