Eleições na Alemana

Pós-eleições na Alemanha: um problema chamado Putin e Trump

24 fev, 2025 - 00:01 • Guilherme Correia da Silva (correspondente na Alemanha)

Este será, certamente, um dos primeiros dossiers a cair nas mãos do próximo chanceler da Alemanha. Como ajudar a Ucrânia? E como lidar com a nova administração nos Estados Unidos, que chamou a Zelensky de "ditador"?

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Será que a Europa ficará sozinha no mesmo continente com Vladimir Putin? Os Estados Unidos estão a virar as costas aos aliados?

São questões que inquietam os militantes da CDU e que, além das preocupações sobre possíveis coligações, pairavam no ar durante a festa eleitoral dos conservadores, neste domingo. Há muito a fazer após a vitória do partido. É preciso arregaçar as mangas:

"Temos de apoiar a Ucrânia. Essa é uma questão bastante importante. Mas confio em Friedrich Merz para fazer o que é necessário", afirmou Camila, uma simpatizante do partido, em declarações à Renascença, este domingo.

Nos últimos dias de campanha na Alemanha, o foco não foram tanto problemas internos como a imigração ilegal ou o enfraquecimento da economia; foi mais como lidar com um problema chamado Vladimir Putin e com o aliado Donald Trump.

Friedrich Merz, o cabeça de lista dos conservadores da CDU/CSU, criticou Trump por aparentemente sugerir que o grande culpado pelo arrastar da invasão russa da Ucrânia seria o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

"Esta é basicamente a inversão clássica entre agressor e vítima", disse Merz em declarações à emissora pública rbb. "Esta é a narrativa russa, é assim que Putin a apresenta há vários anos, e estou honestamente um pouco chocado por Donald Trump ter, aparentemente, adotado a mesma narrativa."

Sozinhos, sem os Estados Unidos?

A conclusão, continuou Merz, é que os líderes europeus devem unir-se em torno deste tema e desenvolver uma "estratégia comum". Todos parecem compreender agora que a Europa tem, urgentemente, de se tornar menos dependente dos Estados Unidos.

O balde de água fria chegou pela voz do vice-presidente norte-americano, há pouco mais de uma semana, durante um discurso na Conferência de Segurança de Munique.

J.D. Vance disse várias coisas que não soaram bem aos ouvidos das altas esferas políticas do continente: acusou os líderes europeus de ignorarem "implacavelmente" os seus eleitores, criticou os partidos tradicionais alemães por erguerem "muralhas" contra os populistas de extrema-direita e acusou-os de censura.

"Se fogem com medo dos vossos próprios eleitores, não há nada que os Estados Unidos possam fazer por vocês", afirmou o vice-presidente.


Foi um primeiro sinal, que solidificou a impressão, entre os líderes europeus, de que a nova administração norte-americana não estará disposta a "salvar o dia", como até aqui. O chanceler alemão Olaf Schoz disse, sobre o discurso de J.D. Vance, que comentários como esses não se fazem "entre amigos e aliados".

O segundo sinal de uma mudança de era na relação entre os Estados Unidos e a Europa foi o telefonema do presidente Donald Trump ao homólogo russo, Vladimir Putin, pelas costas dos parceiros europeus.

Trump afirmou, a seguir, que Zelensky era um "ditador" e incitou o presidente ucraniano a "agir rapidamente". Caso contrário, poderia "não restar nada" da Ucrânia.

Segundo Alexandra de Hoop Scheffer, presidente do Fundo Alemão Marshall dos Estados Unidos (GMF), há duas coisas que agora ficaram claras: "Em primeiro lugar, Trump quer uma resolução rápida para o conflito", escreveu Hoop Scheffer num artigo de opinião publicado, há dias, no jornal francês Le Monde.

Em segundo lugar, Trump "está claramente a partilhar responsabilidades", considera a politóloga. "Os Estados Unidos vão liderar as negociações enquanto a Europa gere a implementação, fornecendo ajuda, garantias de segurança e presença militar."

Mas como? Com que meios poderá a Europa, e a Alemanha em particular, apoiar a Ucrânia?

Sozinhos, com que recursos?

A Alemanha é o segundo maior fornecedor de ajuda à Ucrânia, depois dos Estados Unidos.

O país afirma que, desde a invasão russa em larga escala, há precisamente três anos, já disponibilizou cerca de 44 mil milhões de euros, usados, por exemplo, para a defesa aérea ucraniana, assistência energética e humanitária, remoção de minas e documentação de crimes de guerra.

O executivo anterior, do chanceler Olaf Scholz, prometeu ajudar a Ucrânia "o tempo que fosse preciso".

Um novo governo, liderado pelos conservadores, poderia trazer novidades. De visita a Kyiv, em dezembro, Friedrich Merz garantiu novamente que, se fosse eleito, autorizaria o envio de mísseis de cruzeiro Taurus à Ucrânia, algo rejeitado por Scholz até aqui.

"A nossa posição é clara: queremos permitir que o exército [ucraniano] consiga alcançar as bases militares russas – não a população civil, nem as infraestruturas", frisou.

A CDU/CSU, de Merz, defende no seu programa eleitoral que é imperioso apoiar Kyiv com todos os meios possíveis - diplomáticos, financeiros, humanitários, militares. "Porque se a Ucrânia cair, outro país europeu pode ser atacado."

O cabeça de lista dos Verdes, Robert Habeck, que acusou Trump de "traição" por causa dos últimos pronunciamentos sobre Zelensky, alertou na semana passada para a urgência de acelerar o apoio à Ucrânia.

"Ganhe quem ganhar as eleições, a Alemanha tem de disponibilizar meios financeiros para ajudar já a Ucrânia, do seu próprio bolso, enquanto der", disse Habeck em declarações à televisão pública ZDF. Conservadores, sociais-democratas, Verdes e liberais têm falado no envio de 3 mil milhões de euros, para este ano.

Além disso, de acordo com o político, a Alemanha deveria "intervir para que a Europa desenvolva a sua própria estratégia". Vários partidos recusam-se a falar, pelo menos para já, sobre um possível envio de forças de manutenção de paz para a Ucrânia.

Sozinhos, com guarda-chuva nuclear?

O problema, como resumiram recentemente Andrea Kendall-Taylor e Michael Kofman num ensaio na revista Foreign Affairs, é que países como a Alemanha enfrentam um grande dilema - "a dupla pressão de financiar o esforço de guerra e a recuperação da Ucrânia, enquanto substituem os seus próprios materiais de guerra, que despenderam".

Há muito tempo que o presidente norte-americano, Donald Trump, critica os aliados da NATO por não gastarem o que prometeram para o setor da defesa - pelo menos 2% do PIB.

O tom mudou nas últimas semanas, ficou mais duro.

A Alemanha anunciou que cumpriu o objetivo de 2% em 2024 (muito graças aos 100 mil milhões de euros em investimento adicional na Bundeswehr, que deverão esgotar-se em 2027), mas Trump pede agora 5%.

O líder dos conservadores alemães, Friedrich Merz, admite que os Estados europeus se têm de "preparar para a possibilidade de Donald Trump não querer aplicar integralmente a promessa de assistência mútua no tratado da NATO".

Varsóvia e Paris são duas das primeiras capitais que Merz disse querer visitar como chanceler. O vencedor das eleições federais deste domingo quer fortalecer os laços com a Polónia e reanimar o eixo franco-alemão.

Merz adiantou ainda que a Alemanha poderia ter de dar a mão à França e ao Reino Unido, para averiguar a possibilidade de criar um guarda-chuva nuclear europeu.

"O facto de precisarmos de nos tornar mais independentes na Europa em termos nucleares é uma questão que tem vindo a ser discutida no mundo da política externa e de segurança há vários anos", frisou Merz em entrevista à ZDF.

No ano passado, Katarina Barley, uma política social-democrata e vice-presidente do Parlamento Europeu, propôs o desenvolvimento de armas nucleares na UE.

No programa eleitoral do SPD não se menciona esta questão. Mas os sociais-democratas lembram, a propósito da invasão russa da Ucrânia, uma posição do antigo chanceler Willy Brandt: "A paz só pode ser mantida a partir de uma posição de força." E não haverá paz sem que os ucranianos tenham uma palavra a dizer, prossegue o partido.

No entanto, seria preciso ter cuidado para que a guerra na Ucrânia não se transforme num "confronto direto entre a NATO e a Rússia", diz o SPD.

É isso que teme a maioria dos eleitores alemães, e é esse medo que tem alimentado, em parte, o crescimento de partidos como a Alternativa para a Alemanha (AfD) ou a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW). Ambos os partidos exigem um cessar-fogo imediato na Ucrânia e apoiam a iniciativa de Donald Trump para conversações de paz com Putin.

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