Defesa
Investimento de 1,5% do PIB na Defesa "é cenoura um bocadinho ratada", avisa Azeredo Lopes
06 mar, 2025 - 07:30 • Filipa Ribeiro
Antigo ministro da Defesa de António Costa considera que os 800 mil milhões de euros para o plano de rearmamento "não vão ser atingidos". Para Azeredo Lopes, a meta de se investir 1,5% do PIB na defesa é "irrealista" porque há Estados que não o conseguem cumprir. Defende que o embrião das Forças Armadas da Europa deve partir de um núcleo restrito de Estados-membros e avisa que a Europa "nunca mais pode contar com os EUA".
O antigo ministro da Defesa, José Azeredo Lopes, considera "irrealista" o objetivo do plano de rearmamento da Comissão Europeia, que insta os Estados-membros a investirem 1,5% do PIB em Defesa. O ex-governante fala em "cenoura ratada".
Em entrevista à Renascença, José Azeredo Lopes considera que o valor de 800 mil milhões para investimento em Defesa previstos no plano de Ursula Von Der Leyen "não vai ser atingido" e coloca ainda Portugal no grupo de países que dificilmente conseguirá cumprir com o objetivo.
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Na opinião de Azeredo Lopes, as decisões no campo da Defesa devem ser bem comunicadas aos cidadãos e defende que será um passo importante tornar a Defesa numa matéria "obrigatória" nas disciplinas de cidadania, por exemplo.
Perante a situação atual, Azeredo Lopes defende que um grupo mais reduzido de estados-membros, como uma extensão franco-alemã, deve ser o ponto de partida para a formação das Forças Armadas da Europa, numa altura em que considera que a Europa "nunca mais pode contar com os Estados Unidos".
O antigo governante para a Defesa, teme ainda a falta de credibilidade da UE depois de a Bússola Estratégica ter falhado o objetivo de juntar 5 mil militares europeus para uma força de intervenção rápida no prazo estipulado.
A presidente da Comissão Europeia apresentou o plano para rearmamento da Europa. Ursula Von der Leyen propõe um investimento de 150 mil milhões de euros para financiar a Defesa, que os países invistam mais 1,5% na Defesa e ainda a realocação dos fundos de coesão de outras áreas para a Defesa. A Europa tem capacidade para tudo isto?
Espero que a Europa tenha essa capacidade, porque se não tiver vamos ter um problema sério na nossa vida coletiva nos próximos tempos. É realmente um momento muito importante, não só por aquilo que tem acontecido nos últimos tempos, mas por uma questão até estrutural. É muito difícil ser um ator político que vive serenamente. É difícil que isso possa acontecer se ninguém nos reconhecer uma qualquer valia do ponto de vista de um poder mais efetivo na Defesa das nossas soberanias.
Parece cada vez mais claro que não podemos continuar a depender quase totalmente do chapéu de chuva norte-americano e vamos ter que enfrentar o nosso destino comum de uma maneira muito diferente daquilo que acontecia ainda apenas há uma geração. Estamos perante dois desafios difíceis. Um estrutural – ou seja, temos que reforçar a médio e longo prazo as capacidades de Defesa europeias e outro conjuntural - aquele que se refere, infelizmente, ao conflito que está a decorrer entre a Rússia e a Ucrânia.
"Vamos imaginar que o limite é 3%, os estados podem ter um défice até 4,5%. E começa-se a questionar até quando não vai haver problema. Esta cenoura é uma cenoura um bocadinho ratada"
Já começarmos a perceber no plano que foi apresentado pela presidente da Comissão Europeia que em causa estão verbas distintas. Há três patamares nesta verba de 800 mil milhões de euros. Essencialmente, a Comissão transfere para a esfera nacional alcançar-se o principal desta verba – 600 mil milhões de euros o que não significa um resultado adquirido. A comissão diz duas coisas: que é muito importante qe os Estados gastem mais em Defesa e outro ponto que é uma cenoura, pois dizem, que se os Estados gastarem mais em defesa, até 1,5% a mais insto não conta, ou seja, não conta para o défice segundo as regras europeias adotadas do quadro do PEC - Programa de Estabilidade ou Crescimento.
Vamos imaginar que o limite é 3%, os estados podem ter um défice até 4,5%. E começa-se a questionar até quando não vai haver problema e uma fonte anónima da Comissão já disse que não é para sempre, ou seja, que no futuro os estados terão que aumentar os impostos ou cortar a despesa noutras áreas para se regressar ao défice virtuoso.
Esta cenoura é uma cenoura um bocadinho ratada, porque me lembra logo daquela que foi a reação inicial da UE quando começou a crise de 2008, quando a mensagem inicial foi “gastem à vontade para controlar o caos; gastem para evitar o colapso das economias” e depois o que aconteceu? Caíram em cima dos países incumpridores e isso foi um momento traumático para vários Estados europeus e por isso, muitos estados estarão já com a pulga um bocadinho atrás da orelha.
O segundo problema é que muitos estados atualmente na Defesa não gastam sequer 2% do PIB e se a Comissão espera que os Estados dupliquem a despesa em Defesa, acho que vamos ficar muito abaixo dos 600 mil milhões de euros. Acho que esse desígnio é completamente irrealista. Vai haver mais despesa, mas já relativizaria um bocadinho esse objetivo que nem é tão grandioso quanto isso – os 600 mil milhões de euros. Nós estamos a falar de um projeto que revê 800 mil milhões de euros para a defesa na Europa, quando nos Estados Unidos o orçamento anual fica acima desse valor.
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Há ainda um fosso significativo entre a nossa capacidade de gerar e um resultado que seja robusto e significativo. Independentemente disso, é sempre uma iniciativa de de aplaudir, porque temos mesmo que enfrentar este vazio.
Considera com isto, que o plano de Von der Leyen tem fragilidades?
Não. É um plano que tem que ser interpretado porque o valor 800 mil milhões de euros não vai ser atingido.
Não vale a pena termos ilusões. Não vai ser atingido, porque isso pressuporia uma execução a 100% dos objetivos da Comissão, quando esses objetivos dependem da vontade dos Estados e da capacidade nacional.
Vejo com dificuldade que se possa esperar que o Estado português praticamente duplique o seu orçamento da Defesa de um momento para o outro.
Acho difícil, não vou meter a foice em seara alheia, mas eu não consigo imaginar como é que o Estado português que anda neste momento em torno de 1,6% do PIB passe para 3,1% de repente.
Até onde é que pode ir Portugal?
Não sei. Eu acho que Portugal já está a gastar mais e que já está a fazer um esforço de investimento. Portugal já está a trabalhar com as empresas e com a indústria de defesa, mas isso é um caminho que se faz andando, não é um caminho que de um momento para o outro, por um truque de magia, que nós consigamos duplicar um orçamento, que é assim como está há muito tempo.
Desde 2014 nós conseguimos, com muito mérito, subir algumas décimas do PIB no orçamento de Defesa, não foram unidades, foram décimas. Se foi assim de 2014 a 2025, sinceramente acho que não é realista que Portugal de um salto que representaria assim por alto vários milhares de milhões de euros para a Defesa. E há outro problema: nós não sabemos o que gastamos em Defesa. Sabemos que há muito caminho a andar do ponto de vista da atividade, estatutário e remuneratório.
É a despesa do possível e não do desejável e não tenho a certeza que a percentagem que sobraria para a aquisição de capacidades que seriam sempre milhares de milhões de euros fosse aproveitado nas atuais condições pelas forças armadas. Procuro ser realista, mas procuro também destacar pela positiva que pela primeira vez desde há muito tempo nós vemos uma relativa consistência europeia a enfrentar esta questão da do reforço em matéria de Defesa.
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Quanto aos 150 mil milhões de euros, é uma despesa comum e isso é muito interessante porque é novo. É uma forma integrada e não cooperativa de fazer a despesa. O lado menos positivo é que estes consensos só são possíveis, porque o essencial destas verbas, como a própria Comissão, deu a entender, se destinam a financiar a Ucrânia.
O nosso problema é que nós somos mais capazes de eficiência em relação a terceiros, numa situação de Estado de necessidade do que em relação a nós próprios, ou seja, como é a Ucrânia, nós sabemos quais são as necessidades e o impacto da eventual cessação do apoio militar dos EUA. O meu problema é sempre depois. Quando acabar a guerra nós já não temos um estímulo tão forte e tão definido para alocar recursos à aquisição comum de capacidades militares e é preciso interpretar desta forma o Plano Rearm.
Apesar de isto tudo ser bastante protector das soberanias, provavelmente terá estado que não vão querer gastar nada, ou não vão gastar nada porque são contra a Europa assumir autonomia em matéria de Defesa. Seja por razões políticas, como os nossos amigos húngaros ou eslovacos, seja por razões orçamentais. Nós estamos sempre a falar de governos, de Estados democráticos de quem dependem os cidadãos. Há aqui uma dimensão de cidadania democrática que não pode ser desrespeitada porque senão acontece o que está infelizmente a acontecer cada vez mais, que é o triunfo dos populismos, dos extremos e de forças não democráticas.
"Apercebi-me, enquanto estava em função [como ministro da Defesa] que passamos a vida toda até à idade adulta sem nunca contactar com a Defesa nacional."
De que forma é que poderia haver essa partilha? Maior participação dos cidadãos?
Acredito muito no valor da democracia e acredito muito na possibilidade de explicar estas necessidades. O que eu não acredito nada é numa decisão de cupula com um total desrespeito ou total despreocupação quanto ao impacto que essas decisões podiam ter nas opiniões públicas.
Uma das razões para o desastre eleitoral francês nas europeias foi quando o Presidente Emanuel Mácron a partir de Fevereiro, declarou que a França estava disposta a enviar forças para o teatro de operações. Os cidadãos pensaram: “nós vamos participar num conflito contra a Rússia, sem sermos preparados para isto que nos é apresentado através de um jornal?”.
Tão intensamente como a decisão de gastar mais, a Europa tem que preparar uma cultura de Defesa que os cidadãos compreendam. Tem que reforçar no fundo, a representação social do militar e destacar que essa é uma função de soberania fundamental. O que é que nós vemos quando chegamos às campanhas eleitorais? Passamos a vida a discutir salários, remunerações e bonificação. Mais do que uma apresentação cidadã daquilo que é a Defesa e a necessidade de ter um aparelho comum integrado partilhado de Defesa das nossas sociedades, porque é disso que se trata.
O primeiro passo para que, de facto, a Europa consiga reforçar a sua Defesa. É, ensinar os cidadãos e alertar para a importância do setor na defesa dos seus países. Eu apercebi-me, enquanto estava em função [como ministro da Defesa] que passamos a vida toda até à idade adulta sem nunca contactar com a Defesa nacional. O primeiro contacto que se tem é com o dia da Defesa nacional, por isso é que foi muito importante criar-se um mecanismo que permite ir às escolaster um referencial para a defesa que pode até integrar os programas. Eu não consigo criticar um cidadão que não quer saber da Defesa, porque até a idade adulta nunca ninguém lhe explicou que é uma função muito importante na vida.
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Deveria ser uma matéria mais debatida nas escolas?
Devia ser uma matéria, obviamente, obrigatória em qualquer daquelas disciplinas de cidadania. O último problema é que nós não vamos conseguir ser credíveis enquanto União Europeia enquanto não nos unirmos. Neste momento somos mais de 20 a responder perante uma ameaça. Somos mais de 20 a adquirir capacidades militares que podem não ser compatíveis e a gerir a própria mobilidade militar, o que significa que se um blindado sair para apoiar um outro Estado que no leste, pode sair de Portugal e quando lá chegar já mudou o modelo por causa de todas as restrições e obstáculos burocráticos por onde vai passar.
A nossa bússola estratégica espremida é zero ou quase zero. Tem uma força de reação rápida, que é um projeto da União Europeia de até 5 mil a militares que começou a ser trabalhado em 2017. Na altura disseram que até 2025 teriam que ter 5 mil militares e nós estamos em 2025 e eu não vejo nada. Quando os nossos adversários olham para nós, eles vêem um plano de rearmamento e a Bússola e pensam que não têm que se preocupar porque a UE não conseguiu seqer juntar cinco mil homens ou mulheres combatentes.
Cinco mil militares são cerca de 200 por Estado e o que me preocupa é por isso a base. Para haver Defesa era desejável ter um número de Estados necessariamente inferior ao número dos Estados membro que partilhassem efetivamente uma vontade comum de se juntarem em matéria de Defesa e refazer aquele velho projeto da Comunidade Europeia de Defesa que esteve quase quase a ir em frente nos anos 50.
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Estou a dizer que entre os membros da União Europeia teria que haver um conjunto mais reduzido até dez, como o formato que vimos em algumas reuniões na última semana.
Um grupo de Estados dispostos a avançar mais depressa para integrarem a sua Defesa como o eixo franco-alemão, isto é, países já avançados e com integração entre eles em matéria de Defesa. O caso dos nórdicos e bálticos que estão muito mais à frente que outros membros da UE.
Já têm estruturas operacionais conjuntas, já têm cada vez mais um princípio de especialização em cada um. E que têm também uma vantagem que é o retorno económico, porque se eles estiveram a trabalhar em conjunto a criar progressivamente forças conjuntas depois é mais fácil um projeto de aquisições e geração de capacidades.
"E depois fazemos, como naquela canção dos Deolinda: 'Agora não que joga o Benfica'. Esta canção é o estado em que estamos, ou seja, 'Agora não que a Hungria não quer, agora não que a Eslováquia está mal...'"
Não são os de fora. Também são bem-vindos com o Reino Unido e o universo da NATO, mas defendo um projeto europeu que saia da União Europeia para a criação do embrião das forças armadas europeias. Enquanto não se faz continua-se a discutir se o essencial do esforço vai ser nacional, se podemos ou não desenvolver mecanismos mais coercivos ou estímulos mais interessantes para promover justamente um esforço em matéria de despesa na área de Defesa , que, admito que não seja plenamente satisfatório.
E Portugal, como é que fica? Deveria ser incluído num núcleo mais forte ou esperar?
Portugal tem a capacidade, tem história, tem um mérito militar para poder integrar qualquer projeto mais avançado. Não estou a dizer que se possa pedir a Portugal, por exemplo, do ponto de vista do esforço financeiro, uma coisa que se aproxime sequer daquilo que é exigível a outros Estados.
Ao contrário do que se pensa Portugal sendo uma potência média dentro do quadro da União Europeia, tem potencial para participar em tudo. Não há nada em que nos devamos sentir a excluídos. Acho que aqueles que querem avançar na integração em matéria de Defesa não podem ser bloqueados pelos que são contra.
Ou então, nós estamos sistematicamente a queixar-nos da urgência, da necessidade absoluta de fazermos e tomarmos passos decisivos em favor de uma Defesa Europeia. E depois fazemos, como naquela canção dos Deolinda: “Agora não que joga o Benfica”. Esta canção é o estado em que estamos, ou seja, “Agora não que a Hungria não quer, agora não que a Eslováquia está mal..." Enquanto continuarmos com isto, por muito meritório que seja o programa de rearmamento ficará sempre a arranhar a superfície, não terá consequências de longo prazo que sejam credíveis para nós.
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No fim de semana tivemos a cimeira em Londres, depois o plano de rearmamento e agora Donald Trump diz que a Ucrânia e a Rússia estão prontas para o início das negociações. Este avanço para a paz, deve desanimar a Europa?
Eu acho que deve animar muito mais. Aquilo que aconteceu na última semana resume-se facilmente. Obviamente que a relação transatlântica vai continuar, eu não troco estes EUA por outras opções que podem parecer mais interessantes.
No entanto, obviamente que nós nunca mais podemos depender totalmente dos Estados Unidos da América. Eles já não querem e já viraram para outras paragens. E como Estados soberanos pagaremos um custo brutal se acreditarmos que se consegue fazer o tempo voltar atrás. Isto, não é uma questão desta residência, isto é uma questão estrutural da política externa norte-americana, cujos primeiros sinais já estão visíveis há mais de 15 anos com George Bush Junior e que depois se foram desenvolvendo com Obama, que se acentuaram com o primeiro mandato de Trump, que se acentuaram com o mandato de Joe Biden de forma mais suave.
Nós nunca mais podemos ficar dependentes de um terceiro para garantir a nossa soberania e a nossa Defesa.
Nunca mais podemos contar com os EUA, porque nos coloca numa posição terrível e que depende a certa altura da variabilidade dos humores, dos nossos amigos que às vezes são um bocadinho menos amigos, às vezes um bocadinho mais aliados, às vezes um bocadinho mais adversários declarados. Nunca mais podemos depender como até agora pensávamos que podíamos depender!
Acho que esse tempo passou de uma vez por todas. Os Estados Unidos nunca mais vão estar na posição em que aceitaram estar durante muitas décadas a proteger-nos. Se é assim como diz o povo, temos que fazer pela vida e se isso implicar, gastar mais em Defesa e espero que gastemos bem e de forma eficiente.














