Entrevista a Ana Catarina Mendes

Aproximação Londres-Bruxelas: "O meu desejo mesmo era que fosse um caminho de regresso"

27 mar, 2025 - 06:00 • Pedro Mesquita

“Trump colocou-nos, outra vez, a falar a uma só voz”, sublinha Ana Catarina Mendes, em entrevista à Renascença. A vice-presidente do grupo SD (Socialistas e Democratas) no Parlamento Europeu formula um desejo: “Que o Reino Unido pudesse voltar a ser parte da União Europeia."

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Aproximação Londres-Bruxelas: "O meu desejo mesmo era que fosse um caminho de regresso", diz Ana Catarina Mendes
Ouça a entrevista a Ana Catarina Mendes. Foto: Maria Costa Lopes/RR

Apesar do Brexit, Ana Catarina Mendes considera que a relação entre Londres e Bruxelas “nunca se perdeu”. Tem, aliás, vindo a ser “reforçada” pelo trabalhista Keir Starmer desde que chegou a Downing Street, sinaliza, “com simpatia”, a relatora permanente da Comissão das Liberdades, Justiça e Assuntos Internos para o Acordo de Comércio e Cooperação UE-Reino Unido.

O primeiro-ministro britânico tem insistido que a Europa deve unir-se na resposta às necessidades de defesa e, na leitura de Ana Catarina Mendes, este pode ser um “primeiro passo” para aquilo deseja: “que o Reino Unido pudesse voltar a ser parte da União Europeia”.

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Quanto à nova administração norte-americana, a eurodeputada sublinha que, apesar de Trump, e da resposta dos 27 “aos desvarios” do presidente norte-americano, a União Europeia “não deve desviar-se de manter as relações, que deve ter, com os Estados Unidos”, porque “não são um país qualquer. São um aliado de sempre do espaço europeu”.

Donald Trump tem ajudado a aproximar, ainda mais, o Reino Unido da União Europeia?

Uma das consequências de Trump é o reforço da União Europeia e a necessidade de a União Europeia voltar a falar a uma só voz. Acho que isso tem sido visível. Tinha sido assim na gestão da Covid, foi assim na questão da Ucrânia e neste momento as questões da defesa do espaço europeu, as questões do multilateralismo, a necessidade de respondermos a uma só voz à guerra comercial que Trump trouxe, colocou-nos a todos outra vez a falar a uma só voz.

Eu tenho muita pena que não seja a 28 e, respondendo diretamente à sua questão, tenho apreciado com grande simpatia e com grande cuidado, aquilo tem sido as declarações do primeiro-ministro britânico, sobre a necessidade de respondermos todos unidos na Europa às questões de defesa.

E acho que a relação que nunca se perdeu, na verdade, mas que este primeiro-ministro coloca como reforço e como prioridade das relações do Reino Unido com a União Europeia podem ser um primeiro passo para aquilo que eu desejo, que era que o Reino Unido pudesse voltar a ser parte da União Europeia.

O seu desejo é que exista um casamento e aquilo que está a acontecer, entre aspas, agora é uma união de facto?

(Risos) Eu não sou a melhor pessoa para falar de casamentos e não gosto de atribuir os casamentos, ou uniões de facto, às relações diplomáticas e políticas. De facto, os tratados dizem que é preciso em matéria de defesa ter uma cooperação reforçada dentro dos Estados-membros.

O Reino Unido sabe bem, porque fez parte desde o início do projeto europeu, o que é que significou a sua saída da União Europeia (o Brexit) e, portanto, os olhos com que vejo isto, é o primeiro-ministro britânico a tentar voltar a ter uma boa relação de cooperação, não apenas com cada um dos Estados-membros, mas, essencialmente, com o projeto europeu, a ter uma voz muito forte nos conflitos internacionais que estamos a viver e, desse ponto de vista, o meu desejo mesmo era que fosse um caminho para o regresso do Reino Unido à União Europeia.

Mas é um desejo utópico ou parece-lhe que vai mesmo acontecer, e mais cedo do que se pensa?

A volatilidade dos acontecimentos nos dias que correm é demasiado grande e, portanto, aquilo que eu acho é que estão abertos os caminhos para que esse resultado possa acontecer. Sinto, aliás, aqui no Parlamento Europeu, com a responsabilidade que tenho também das relações União Europeia-Reino Unido, a propósito do Brexit, que há uma geração nova, a geração mais nova, que deseja ardentemente que o Reino Unido volte a integrar este espaço comum. Vamos ver o que é que estes cinco anos determinam ou, pelo menos, o que é que os próximos anos do mandato do primeiro-ministro britânico determinam.

Seria obviamente impossível uma adesão do Canadá à União Europeia, mas também por força de Donald Trump, tem existido uma aproximação muito grande do Canadá aos 27…

Aí eu já acho que é sermos excessivos, diria eu. Acho que é possível reforçar as relações da União Europeia com o Canadá. Devo, aliás, dizer que o Justin Trudeau fez o melhor discurso, do meu ponto de vista, sobre as tarifas de Trump, fez o melhor discurso que se podia fazer em defesa daquilo que deve ser um mundo global, multilateral e defensor do espaço de cada um, numa concorrência leal entre todos. E, por isso, o que eu sinto é que a Europa pode aproximar-se e reforçar as suas relações diplomáticas, culturais e económicas com o Canadá.

A propósito das tarifas ou taxas alfandegárias, tem havido um piscar de olhos da China à União Europeia. Imagine que a UE estabelecia uma parceria estratégica - no plano comercial - com a China. Isso não poderia, pelo menos, fazer estremecer Donald Trump?

Sim, podia. Mas eu continuo a achar que, apesar de Trump, a União Europeia deve manter uma relação comercial com os Estados Unidos. Os Estados Unidos não são um país qualquer. Desde a Segunda Guerra Mundial, são um aliado de sempre do espaço europeu. Circunstancialmente estamos com este presidente nos Estados Unidos, mas isso não deve desviar a União Europeia de duas coisas: de manter as relações que deve ter com os Estados Unidos e, por outro lado, tentar responder àquilo que são os desvarios, neste momento, de Trump… os ataques que Trump faz ao coração da Europa e aos nossos Estados-membros.

Dito isto, o que eu sinto é que a Europa deve reforçar a sua cooperação com outros Estados e com outros pontos do mundo. A última presidência portuguesa da União Europeia reforçou muito as relações com a África. Eu acho que a União Europeia deve olhar para o continente africano como um parceiro estratégico.

E também há o Mercosul. Mas, regressando à China, porque é que a União Europeia, ao estilo Trump, continua a taxar de forma muito pesada os produtos vindos da China?

Eu acho que o relatório Draghi faz esse retrato muito bem feito. Ao longo dos últimos anos, a Europa perdeu competitividade, quer para a China, quer para os Estados Unidos. E perde competitividade, essencialmente, nos setores tecnológicos, na inteligência artificial, naquilo que são as tecnologias de ponta.

A Europa liderou, nos anos 90, o 2G e o 3G e era líder mundial das tecnologias e, desde então, não o fez. O espaço europeu foi sendo assaltado, entre aspas, por produtos muito mais baratos, mão de obra muito mais barata, que também vinha da China.

E, portanto, o que eu acho que, neste momento, começa a acontecer é que, para haver uma concorrência leal no espaço europeu, é preciso haver regras. E regras também sobre os produtos chineses. Como digo, (é importante) continuar a manter as relações com os Estados Unidos, ter as relações e as parcerias comerciais com a China, reforçar o Mercosul e alianças estratégicas com África, que eu acho que é absolutamente essencial.

Nos Conselhos Europeus, nomeadamente neste último, António Costa tem dito que, se não se decide a 27, decide-se a 26. Quando a Viktor Orbán, da Hungria, levanta problemas, dizem fontes diplomáticas, “já nem se perde tempo a argumentar com ele”. Só que há questões que são essenciais e que obrigam a unanimidade. Não pode ser um trajeto complicado, este de abdicar de um parceiro para se poder seguir em frente quando, em alguns pontos, existe a obrigatoriedade da unanimidade?

Eu julgo que vale a pena ter consciência do momento geopolítico, de termos agora a necessidade de reforçar a defesa da Europa. Ora, quando nós estamos a falar do reforço da defesa da Europa, não é apenas em termos militares. Estamos a falar do reforço da Europa em termos militares, mas estamos também a falar muito do reforço da Europa na defesa das nossas democracias e das democracias dos Estados-membros. E sabemos que hoje há governos no seio da União Europeia, de Estados-membros, que são contra a democracia e contra aquilo que é o projeto europeu.

Orbán é um exemplo disso. Não me parece que seja um parceiro de construção da União Europeia, nem das soluções que são necessárias para a União Europeia. É muito mais um adversário do projeto europeu e das soluções europeias.

Mas existindo a regra da unanimidade, é possível, a António Costa, continuar a apostar em decisões a 26, sabendo-se que mais tarde ou mais cedo a Hungria vai bloquear algum dossier importante?

A regra da unanimidade, do meu ponto de vista, já devia ter sido removida há muito tempo, mas ela existe. É verdade também que, a propósito das discussões que têm sido feitas no Conselho Europeu, se fala também das “cláusulas passerelle” – a possibilidade de tomar algumas das decisões sem que exista unanimidade, e sem termos que alterar tratados.

E, portanto, eu acho que é nisso que o Conselho Europeu tem apostado para não bloquear duas coisas: a ajuda, que é absolutamente essencial à Ucrânia, seja nesta fase de guerra, seja na fase posterior à paz e à reconstrução da Ucrânia e, depois, aquilo que deve ser do pacote que foi aprovado pela Comissão Europeia dos 800 mil milhões de euros para a defesa. 800 mil milhões de euros para a defesa. Volto a frisar que este dinheiro não é apenas para as questões militares, é também para a inteligência artificial e para os ataques híbridos que são feitos às democracias, para (combater) a interferência de terceiros, como foi feito, por exemplo, nas eleições da Roménia. É também para a defesa das nossas fronteiras, garantindo que os cidadãos migrantes são tratados com dignidade e com respeito.

Virando a moeda ao contrário, seria avisado mexer nos tratados e acabar com a regra da unanimidade? Quando a extrema-direita está a crescer, a regra da unanimidade não poderá vir – no futuro - a revelar-se fundamental para defender a democracia?

Volto a dizer, eu não sou partidária nem defensora da regra da unanimidade. Entendo que ela é necessária e entendo que não é o momento certo para fazermos alterações aos tratados. Mas para mim, na defesa da democracia, há uma coisa que é absolutamente essencial: os partidos que construíram a União Europeia, os partidos que são estruturalmente democratas, têm de dar respostas aos cidadãos para que os extremos não cresçam.

É preciso responder às questões da desinformação, é preciso responder às questões das migrações, é preciso responder com um estado social forte, e esse sim pode estar ameaçado com outras derivas.

É preciso, como diz, responder à desinformação, mas faz sentido que os políticos europeus, e as instituições europeias, comuniquem diretamente com os cidadãos através de publicações nas redes sociais, abdicando assim do escrutínio dos jornalistas?

Não. Infelizmente, nos tempos que correm, os políticos escolhem muito as redes sociais para comunicar com os cidadãos, para fugir de algumas perguntas e eu acho que substituir pelas redes sociais aquele que é o chamado quarto poder da nossa democracia, é um erro e mina as nossas democracias.

E mais, numa altura em que nós assistimos a retrocessos significativos da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa, eu acho que é um erro depenar este quarto poder daquilo que são os seus instrumentos.

Vejo, por isso, com muita preocupação a falta de liberdade de jornalistas em muitos Estados-membros, a prisão de alguns jornalistas e nós, políticos, temos um dever, que é o dever de zelar pela democracia. Também a comunicação social, porque muitas vezes também se põe a jeito. A comunicação social deve zelar pela verdade dos factos. Não deve ir atrás das perceções, mas confirmar as informações. E muitas vezes isso também não tem acontecido.

Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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