Série Adolescência
Rapaz procura companheira. O que é o movimento “incel”, peça-chave da série Adolescência?
28 mar, 2025 - 18:40 • Redação
O mais recente sucesso da Netflix, Adolescência, voltou as atenções para uma comunidade feita de homens que dizem "odiar" mulheres e que não conseguem (mesmo quando tentam) encontrar parceiras. Afinal, o que os move?
Ainda se recorda dos tempos da escola em que aprendeu o que era uma aglutinação? É o processo de junção de duas palavras para formar uma nova. Incel é um exemplo disso: resulta da expressão "involuntary celibate", em português, “celibatário involuntário”.
O termo está por todo o lado devido à minissérie da Netflix que se tornou viral nas últimas semanas, Adolescência. É tema de conversa entre familiares e amigos e dá título a inúmeras notícias e programas.
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Para desvendar o que esconde o termo, a Renascença pediu ajuda ao psicólogo Tiago Pimentel, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde — Incel é uma “subcultura online onde os homens se consideram incapazes de estabelecer relações românticas ou sexuais com mulheres, apesar de as desejarem”.
Para os membros da comunidade, as mulheres são as culpadas do seu insucesso romântico e sexual, o que abre portas a “misoginia, vitimizações e posições mais extremadas”.
A identidade “incel” manifesta-se em conteúdo online violento ou ainda em ataques físicos e homicídios, como retrata a história de Jamie Miller de Adolescência. O jovem de 13 anos é detido por ter assassinado uma colega de turma.
Em nove perguntas e respostas, perceba as origens do movimento, as ideias que defende e os perigos que representa.
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Qual é a origem do termo “incel”?
Na verdade, foi uma mulher que que o cunhou.
Recuando a 1997, Alana, uma jovem residente em Toronto, no Canadá, decidiu criar um website chamado “Alana´s Involuntary Celibacy Project” (Projeto de Celibato Involuntário de Alana).
A página acolhia todos aqueles que tinham dificuldade em encontrar o amor. Era um espaço de partilha de sentimentos de timidez, desconforto social e solidão. Seguiu-se uma newsletter, cujo título era uma abreviação do termo – Invcel.
Desde a década de 1990 até aos dias de hoje, o termo passou a “incel” e distanciou-se do seu significado original.
Como é que se transformou num grupo de homens?
A partir de 2000, e através de plataformas online como o 4chan e o Reddit, a comunidade de partilha e inclusão de Alana transformou-se num movimento de homens.
À medida que o discurso de ódio contra as mulheres cresceu, as comunidades dividiram-se, deixando as vozes mais extremistas e misóginas moldar a ideologia incel tal como é conhecida hoje.
Em 2017, o Reddit baniu um subreddit (nome dado aos grupos dentro do Reddit) chamado “r/incels” devido a “conteúdo violento”. Na altura, a comunidade contava com cerca de 41 000 participantes.
“As coisas mudaram muitos nos últimos 20 anos”, lamentou Alana à BBC, em 2018. “Não se tratava de um grupo de homens a culpar as mulheres pelos seus problemas. Essa é uma versão muito triste do fenómeno que está a acontecer atualmente”, disse.
Dentro da comunidade, que ideias são defendias?
Considera-se que os incels integram a “manosfera”, um conjunto de comunidades (na sua maioria online) antifeministas. Incluem ativistas dos “direitos dos homens” e influenciadores do conceito de “macho-alfa”, com ideologias extremistas.
Na base do movimento, está a ideia de que as mulheres são culpadas pelo insucesso romântico e sexual dos homens. Para o justificar, são apresentados essencialmente três argumentos: uma hierarquia baseada na aparência, a crença na hipergamia feminina e a rejeição do feminismo. Mas vamos por partes.
Uma hierarquia da aparência?
Os incels vêem a “atratividade física como o fator mais importante no estabelecimento de relações com mulheres”, diz-nos o relatório “Incels: Uma Primeira Análise do Fenómeno (na UE) e a sua Relevância e Desafios”, realizado para a Comissão Europeia em 2021. Acham que, devido à genética e biologia, não são atrativos o suficiente para ter um relacionamento.
Afinal, o que é a hipergamia feminina?
A comunidade incel defende que “as mulheres estão predispostas biologicamente a procurar homens fisicamente mais atraentes” e que utilizam o privilégio de seleção sexual para subir socialmente. A este fenómeno chamamos hipergamia.
Porque é que rejeitam o feminismo?
Para este grupo, o feminismo representa um retrocesso. Acham que, no passado, existiam “estruturas sociais, que controlavam o comportamento hipergamico das mulheres”, garantindo que todos os homens tinham igual acesso a relações sexuais.
O movimento feminista e o aumento dos direitos das mulheres reverteram esta situação, permitindo que as mesmas rejeitem relacionar-se com homens pouco atraentes. É aqui que entra a regra 80/20 - 80% das mulheres interessam-se apenas por 20% dos homens do topo da sociedade (o que não é um facto).
Tiago Pimentel, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, resume as três ideias ao explicar que as “principais características do movimento incel consubstanciam crenças irracionais de desigualdade sexual”. “Muitas pessoas que se concebem como incels sentem que a sociedade está estruturada para favorecer um grupo seletivo de homens perante os quais determinado grupo de mulheres se sente atraído e de onde eles se excluem”, acrescenta.
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O que significam expressões como “comprimido vermelho” e “Chad”?
O movimento incel, tendo crescido nos cantos obscuros da Internet, apresenta uma linguagem muito própria, que inclui as seguintes expressões (entre outras):
- “Comprimido azul” e “comprimido vermelho”: Esta é uma referência ao filme The Matrix (1999), onde a personagem principal, Neo, tem de escolher entre tomar um comprimido azul, que o manterá na ignorância, ou um comprimido vermelho, que o despertará para a realidade. Para os incels, o “comprimido vermelho” representa o acordar para a realidade de que as mulheres não os escolhem como parceiros.
- “Comprimido preto”: Representa o conformismo relativamente à realidade revelada pelo comprimido vermelho. Os homens aceitam a sua falta de atratividade e a consequente impossibilidade de terem relações românticas e sexuais.
- “Chads”: Nome dado aos homens que estão no topo da hierarquia social e que são fisicamente atrativos.
- “Stacys”: Nome dado às mulheres que estão no topo da hierarquia social. São odiadas pelos incels.
Que perigos representa o movimento incel?
Não é só em Adolescência que os ódios contra o sexo feminino dão origem a violência. Já se conhecem outros casos de ataques físicos e homicídios.
Em 2014, Eliot Rodger, de 22 anos, matou seis pessoas num tiroteio e esfaqueamento em Isla Vista, Califórnia, acabando por se suicidar.
Antes da sua morte, distribuiu um documento de 141 páginas onde explorava a sua aversão a mulheres. Tornou-se um herói para os incels.
Quatro anos depois, Alek Minassian, homem de 25 anos residente em Toronto, no Canadá, atropelou 10 pessoas com uma carrinha. Momentos antes, no Facebook, disse querer dar continuidade à “rebelião incel” de Elliot Rodger.
O movimento representa perigos não só para a sociedade que o rodeia, como também para os próprios membros, já que estes grupos incitam à violência e ao suicídio.
Por detrás da revolta contra as mulheres, podem estar problemas de saúde mental?
A maioria dos incels apresenta problemas de saúde mental. É o que indica um estudo de 2022, publicado na revista “Evolutionary Psychological Science”: 75% dos incels inquiridos tinha um diagnóstico clínico de depressão grave ou moderada e 45% sofria ansiedade grave.
O psicólogo Tiago Pimentel confirma esta tendência.
“Tudo aquilo que está radicado numa visão extremada pressupõe, muitas vezes, uma base de insegurança ou de fragilidade. Do ponto de vista psicológico, alguém que se identifica com um movimento desta natureza terá certamente algumas questões do foro da autoestima e do autoconceito a trabalhar – no modo como se vêem, no modo como se reconhecem capazes para serem objeto de desejo sexual e de estar intimamente com uma mulher”, afirmou o especialista em Psicologia Clínica e da Saúde.
Tiago Pimentel destaca ainda a necessidade de “pertencer” destes homens. Muitas vezes, aderem a estas mensagens para sentir que “pertencem e que estão em contacto com outras pessoas que vivem a mesma realidade”.
Para prevenir estes problemas e a violência (como representado em Adolescência), o psicólogo aponta para a importância de uma comunicação clara e envolvente sobre o uso das novas tecnologias digitais, quer em casa, quer na escola.










