Guerra na Ucrânia
"Não é se, é quando". Sem paz justa, Putin pode testar stress da NATO na Polónia e nos bálticos
01 abr, 2025 - 06:00 • André Rodrigues
Português na Polónia alerta para os perigos de uma paz vantajosa para Rússia: "Não é alarmismo, é preparação." Mas sem medo: "Continuamos com a vida normal."
Sem uma paz justa, equilibrada e duradoura na Ucrânia, poderá ser uma questão de tempo até que a Rússia lance uma nova ofensiva na região. E os países bálticos podem ser o laboratório de ensaio para um teste de stress à NATO. “Basta ver o percurso de Putin”, alerta na Renascença Pedro Vilas, um português a viver nos arredores de Katowice, no sul da Polónia.
Fazendo uma rápida resenha dos anos mais recentes, Pedro Vilas, que dirige a Fundacja Portugalia, que presta apoio de emergência aos cidadãos portugueses que vivem na Polónia e nos países bálticos, lembra que o Presidente russo “já testou os limites com a Geórgia em 2008, testou os limites da Ucrânia, primeiro em 2014, voltando à carga em 2022”.
"Nesta altura, só sabemos aquilo em que a Ucrânia tem de ceder e não aquilo que a Rússia tem de ceder para se chegar à paz", acrescenta.
Por isso, “se for uma paz que premeie a Rússia, isso dá três ou quatro anos para a Rússia refazer novamente a sua capacidade militar e tentar fazer o mesmo nos Bálticos ou na Polónia em direção a Kaliningrado… não é se, é quando”.
Mas há medo? Pedro Vilas garante que “não… o que há, isso sim, é vigilância… mas continuamos a levar a nossa vida normalmente”.
Uma das maiores fragilidades do território da NATO está precisamente no norte da Polónia. O Corredor de Suwałki é uma área pouco povoada na linha de fronteira entre a Lituânia e a Polónia, através da qual os países bálticos estão ligados à União Europeia. Mas é, também, o caminho mais curto entre a Bielorrússia e o exclave russo de Kaliningrado, que acolhe a frota russa no Mar Báltico.
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“Estamos a falar de um corredor de 100 quilómetros por onde a Rússia pode cortar o fornecimento à Lituânia e à Polónia”, alerta o presidente da Fundacja Portugalia, que reconhece que a perceção da ameaça varia em função da geografia.
Exemplo disso é a forma distinta com que o Ocidente e o Leste da Europa receberam a proposta da Comissão Europeia para um kit de sobrevivência em situações inesperadas, que incluem conflitos armados.


“A história aqui ainda tem memória: a avó da minha esposa polaca foi uma sobrevivente de Auschwitz; a minha esposa polaca cresceu durante o período soviético”
“Aqui a história ainda tem memória: a avó da minha esposa polaca foi sobrevivente de Auschwitz; a minha esposa polaca cresceu durante o período soviético”, realidade bem diferente da que se verifica na Europa Ocidental, onde, “felizmente vivemos em paz desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.
Ao contrário do que acontece no Ocidente, este cidadão português radicado na Polónia, diz que o país teme ver repetidos os piores episódios da sua História recente, por isso “para eles não é alarmismo, é preparação”. Contar com o pior e esperar o melhor.
NATO e UE? Uma desilusão: “Vemos muita conversa”
A Polónia aderiu à NATO em 1999, juntamente com a Hungria e a República Checa, cinco anos antes de passar a ser parte da União Europeia. O mesmo aconteceu com os países bálticos, que, de uma assentada, integraram a Aliança Atlântica e a União Europeia em 2004.
Pedro Vilas lembra que essas adesões foram vistas nestes países como uma garantia de respeito pela sua soberania, após décadas de influência do bloco soviético.
Com o passar do tempo, e sobretudo desde o início da guerra da Ucrânia em 2022, “o sentimento de orgulho de pertencer à NATO e à União Europeia tem-se esbatido pela falta de decisão”.


“Vemos muita conversa, muitas formas de ajuda que estão a demorar a acontecer. Isto numa situação de guerra é impossível suceder”
Por ser a primeira linha de contacto entre a NATO e a Ucrânia em guerra, a Polónia “não vai ficar à espera e já tem fortificações para dissuadir um hipotético cenário de invasão”.
E se, um dia, a guerra chegar à Polónia? Pedro Vilas é casado com uma polaca, tem um filho luso-polaco de 16 meses: “se fossemos só nós os três, não haveria qualquer problema em voltar a Portugal”. Como ele, mais cerca de 4.000 cidadãos nacionais estão nessa situação: “somos casados com mulheres locais, temos filhos luso-polacos e, portanto, pertencemos às famílias desses locais”.
“A mãe da minha esposa é acamada. Se a minha esposa decidir que não quer sair da Polónia - e está no direito dela - eu irei ficar”, garante.












