Guerra Israel-Hamas
Em Gaza, o trauma da guerra está marcado no corpo
11 abr, 2025 - 11:57 • Beatriz Pereira com Reuters
Em Gaza, quem sofreu com amputações em consequência de ataques israelitas tenta recuperar as feridas — físicas e psicológicas — com a esperança de membros prostéticos, que estão cada vez mais difíceis de obter, depois de Israel ter suspendido toda a ajuda humanitária na região. A agência humanitária da ONU diz que pelo menos 4500 pessoas ficaram amputadas durante o conflito.
Farah Abu Qainas esperava tornar-se professora, mas um ataque aéreo israelita no ano passado feriu-a de tal forma que perdeu a perna esquerda, pondo em dúvida todos os seus planos para o futuro e acrescentando a jovem de 21 anos a uma lista de milhares de novos amputados na devastada Gaza.
Ainda a viver em abrigos temporários, Farah frequenta sessões de fisioterapia num centro de próteses no território, onde espera numa cadeira de rodas por um membro artificial que lhe possa dar alguma liberdade.
“Naquele dia, perdi mais do que apenas a minha perna. Os meus sonhos desapareceram”, conta. “Ansiava por frequentar a universidade e ensinar crianças. Mas esta lesão roubou-me esse futuro.”
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A guerra começou a 7 de outubro de 2023, quando o Hamas levou a cabo um ataque transfronteiriço contra comunidades israelitas, matando cerca de 1.200 pessoas e fazendo 251 reféns, de acordo com os registos israelitas.
Desde então, a campanha militar israelita já matou mais de 50 mil palestinianos em Gaza, segundo as autoridades de saúde pública locais, deixou a maior parte do pequeno território costeiro em ruínas e quase toda a população sem abrigo.
Muitos milhares de pessoas, que não morreram, sofreram ferimentos que mudaram as suas vidas. No meio de um conflito que deixou o sistema médico quase incapaz de funcionar, as estimativas do número de palestinianos que perderam membros variam.
“Em toda a Faixa de Gaza, estima-se que 4.500 novos amputados necessitem de próteses, para além dos dois mil casos existentes que requerem manutenção e cuidados de acompanhamento”, informou a agência humanitária da ONU, OCHA, no mês passado.
Ahmed Mousa, que dirige o programa de reabilitação física em Gaza para o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), disse que pelo menos três mil pessoas tinham sido registadas no seu programa, das quais 1.800 têm amputações.
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Muitos outros milhares de palestinianos sofreram lesões na coluna vertebral ou perderam a visão ou a audição, segundo o OCHA e o CICV.
O elevado número de feridos atrasou e complicou os esforços de tratamento. A colocação de membros artificiais na Faixa de Gaza tem sido um desafio, segundo os funcionários do CICV.
“O acesso a próteses adequadas ou a ajudas à mobilidade é cada vez mais difícil em Gaza neste momento e, infelizmente, não há um calendário claro para muitos”, afirma Ahmed Mousa.
Israel suspendeu toda a ajuda humanitária a Gaza após o colapso de um cessar-fogo de dois meses, no mês passado.
Farah Abu Qainas, que frequenta o programa de terapia de Moussa, não sabe quando poderá receber uma perna artificial ou tratamento no estrangeiro: “Disseram-me para esperar, mas não sei se isso vai acontecer em breve”.
Os militares israelitas afirmam que o bombardeamento de Gaza é necessário para esmagar o Hamas, que acusam de se esconder entre a população palestiniana em geral. O Hamas nega.
Crianças amputadas falam de uma "vida pior do que antes"
Um estudo realizado em abril pelo Gabinete Palestiniano de Estatísticas revelou que pelo menos sete mil crianças ficaram feridas desde outubro de 2023, tendo centenas delas perdido membros, a visão ou a audição.
Shaza Hamdan, de sete anos, queria aprender a andar de bicicleta.
“O meu pai pediu-me que o acompanhasse num passeio, antes de os projéteis começarem a cair sobre nós como chuva. Um atingiu-me a perna e cortou-a, e outro atingiu o braço do meu pai”, recorda.
Shaza foi operada duas vezes e o médico teve de amputar novamente a perna ferida, devido a uma inflamação.
“Tornei-me dependente da minha mãe. Ela faz tudo por mim. A minha vida está pior do que antes. Antes de me lesionar, eu podia jogar”, afirma.
O pai, Karim Hamdan, disse que a saúde mental de Shaza piorou enquanto ela esperava para ir ao estrangeiro para receber tratamento.
“Não há membros artificiais em Gaza e a única solução é procurar tratamento fora de Gaza. A rapariga ficou impaciente, faz muitas perguntas e chora todos os dias. Ela quer sentir-se um pouco normal”, lamenta.
Ismail Mehr, um anestesista do estado de Nova Iorque que liderou várias missões médicas a Gaza durante a atual e as anteriores guerras, sustenta que a falta de cuidados adequados significava que mais membros poderão ser perdidos e que os membros já amputados poderão ser ainda mais cortados.
“Mais de 99% das amputações foram efetuadas em condições deploráveis, sem culpa dos médicos, sem esterilização adequada, sem equipamento e, por vezes, mesmo por médicos não especializados neste tipo de procedimentos”, adianta o especialista.
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