Cimeira da NATO

Rutte não fala do Médio Oriente e gere Trump com pinças

24 jun, 2025 - 12:14 • Alexandre Abrantes Neves enviado especial a Haia

No primeiro dia de cimeira, Rutte contornou a tensão entre Israel e o Irão para deixar subentendido que o Médio Oriente está controlado e que a NATO está focada na Ucrânia. Esta terça-feira, Trump e Zelensky chegam a Haia, mas a cimeira não deve trazer resultados palpáveis a Kiev.

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Sem se comprometer com nenhuma resposta até à chegada de Donald Trump ao final da tarde desta terça-feira, o secretário-geral da NATO contorna o tema do Médio Oriente e não muda nem uma vírgula ao discurso sobre a Ucrânia.

Esta manhã, na abertura da cimeira, Mark Rutte não falou diretamente da violação do cessar-fogo entre Israel e o Irão e tocou levemente no tema apenas para o desviar de novo para o foco da cimeira – a defesa europeia, a ameaça russa e o apoio incondicional à Ucrânia.

Se não formos capazes de tratar de dois assuntos ao mesmo tempo – o Médio Oriente, que é muito grande, e também a Ucrânia –, então não nos devemos debruçar sobre temas políticos e militares. Todos nesta sala são capazes disso. A menos de meio do ano, os europeus e canadianos já entregaram 35 mil milhões de euros de apoio militar à Ucrânia. No ano passado, o total foi de 50 mil milhões”, afirmou.

O aparente medo de Rutte tem razão de ser. Depois de meses a preparar uma cimeira a olhar para as ameaças no flanco leste europeu e de um empenho tremendo para conseguir o compromisso dos aliados em torno dos 5% do PIB, o secretário-geral da NATO vê os esforços serem ofuscados por uma ofensiva contra o Irão desencadeada pelos Estados Unidos (sem qualquer aviso prévio à Aliança) e por avanços e recuos no cessar-fogo entre Israel e o Irão.

A estratégia é, por isso, falar o menos possível. Em parte, para fazer finca-pé no objetivo da NATO em se focar no eixo transatlântico e abafar os medos de uma possível nova vaga terrorista na Europa. Por outro lado, é uma forma de lidar com a imprevisibilidade de Donald Trump, que vai voltar a ser questionado sobre a violação do cessar-fogo quando chegar a Haia – momento em que pode muito bem desviar e descredibilizar a reunião da Aliança, moldada em formato relâmpago para garantir que o presidente norte-americano não sai a meio.

Numa altura em que a “caixa de pandora” de flexibilizar a meta do investimento foi aberta com o recuo espanhol, Rutte apostou as fichas todas para que nada desagrade Trump e já parece tratar o líder dos EUA com pinças, mesmo antes da sua chegada.

Questionado na primeira sessão do Fórum Público sobre a postura dos Estados Unidos dentro na Aliança, o secretário-geral da NATO afastou qualquer preocupação e voltou a dourar a pílula: “Há um compromisso total do presidente e dos principais responsáveis dos Estados Unidos com a NATO”, afirmou, ressalvando que é normal que “isso venha acompanhado com uma expectativa [de aumentar os gastos em defesa]”.

Na mesma sessão, Rutte disse que “acredita que muitos outros se seguirão” à Alemanha, que esta segunda-feira já antecipou a meta dos 5% para 2029 – uma tentativa de mostrar que a cimeira pode ser (ainda) mais produtiva do que o anunciado e uma estratégia para afastar possíveis críticas Donald Trump, que vai, pelo menos, ver Espanha a fugir ao seu pedido irrevogável de investir 5% do PIB em defesa.

Ucrânia, o parceiro que não conseguimos encaixar

É o elefante na sala entre a NATO e Trump. Rutte voltou a puxar esta terça-feira da manga diplomática para falar de Kiev e colocar-se ao centro: o apoio é “inabalável”, a adesão é “irreversível”, mas a paz (aquela que “não se consegue prever”) depende da influência norte-americana e das conversas entre EUA e Putin, que Rutte “sempre achou crucial”.

A Ucrânia é o assunto indiscutível da NATO, mas também aquele que Rutte teme que possa levar a maiores divisões no seio da aliança. Por isso, e mais uma vez sem querer nem poder beliscar Trump, a solução foi encostar Zelensky ao banco dos suplentes e a uma zona segura.

Em vez de reuniões bilaterais e de participar em trabalhos da cimeira, o presidente ucraniano vai apenas intervir no fórum industrial de defesa, encontrar-se com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu e marcar presença no jantar oferecido pelos reis dos Países Baixos, o único momento em que se deve cruzar com Donald Trump.

A declaração final deve ser, por isso, o reflexo dos dois dias de filme que Kiev não passa de uma personagem secundária – um único parágrafo (num comunicado também mais curto do que o habitual) em que se reforça o apoio à Ucrânia e onde se sublinha a necessidade de negociações de paz, mas sem nenhum avanço concreto na entrada do país na NATO, pedido feito até à exaustão por Zelensky desde 2022.

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