A ameaça lá tão longe ou aqui tão perto? O que pensa o português comum sobre a guerra

25 jun, 2025 - 06:30 • Alexandre Abrantes Neves

Francisco admite pensar no cenário de ir parar a uma guerra, João lamenta que as salas de aula não sirvam para ajudar os jovens a compreender os conflitos, Susana recusa esconder imagens violentas da Ucrânia aos filhos. Numa altura em que a NATO decide o futuro da nossa defesa, a pergunta impõem-se: e o portugueses, que visão têm disto tudo?

A+ / A-
A ameaça lá tão longe ou aqui tão perto? O que pensa o português comum sobre a guerra  - versão curta
Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Haitham Imad/EPA

24 de fevereiro de 2022. A data marca o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, mas para João, Francisco, Susana simboliza o arranque de uma nova forma de olhar o mundo. O fim da “muralha da paz” que existia na Europa há décadas trouxe-lhes ansiedade e perguntas, muitas vezes espoletados quando ligam a televisão ou abrem as redes sociais.

Três anos depois, as imagens de guerra e violência passaram a fazer parte do nosso dia-a-dia, mas ainda são sinónimo de medo para quem as vê? Que expectativas têm dos responsáveis políticos? Afinal, o que pensa o português comum sobre a guerra?

“Devemos ter gratidão por podermos defender aqueles que são os nossos valores longe de casa. Essa gratidão tem de ser consciente do sacrifício que está a ser feito pelas pessoas que estão a sofrer para que nós possamos estar aqui livres, felizes e seguros quando outros não o estão, na Ucrânia”.

Francisco Tadeia tem 21 anos e é estudante de direito na Universidade de Lisboa. No bar da faculdade onde se encontra com a Renascença, é um dos poucos que se disponibiliza a conversar sobre os receios que tem perante os conflitos à porta da Europa – ora preferem não falar para um microfone, ora dizem que não têm grande coisa a acrescentar, ora apontam para um colega que “lê mais notícias”.

“É exatamente este o problema que está a afetar a minha geração e as outras mais novas”, assinala Francisco, que se mostra preocupado com o nível “absurdo de desinformação” que afeta os jovens e que lhes dificulta uma compreensão alargada sobre as razões e o conteúdo dos conflitos na atualidade.

À sua volta, constata uma “ignorância” que o preocupa, quando percebe que muitos dos universitários não compreende as razões históricas que levaram à invasão russa, desconhecem o verdadeiro Vladimir Putin “que controlou os líderes mundiais durante vinte anos” e não entendem o “conflito de séculos” na Palestina.

Ainda assim, reconhece que não é caso único – e, no momento do diagnóstico, identifica os jovens mais informados pelo nível de ansiedade que estes conflitos lhe provocam. “Quem está mais preocupado é, regra geral, quem mais pesquisou sobre o tema e quem mais tem noção dos possíveis desfechos e das consequências que isto pode trazer para o modo de vida na Europa”, aponta.

No seu caso, esta preocupação revela-se num medo que, apesar de ainda não ser muito palpável, não o abandona desde o rebentar da guerra na Ucrânia: ir parar a uma frente de batalha. “É uma realidade que devemos encarar com sobriedade, com cuidado, com ponderação e que, seja qual for a posição que queremos tomar sobre o tema, é algo que deve estar na nossa cabeça para os dias que aí vêm”, acredita.

Trump, o bicho da ansiedade

Na casa de Susana Canhoto, a situação é diferente. Os dois filhos, um rapaz de 15 anos e uma rapariga de 17, não se mostram preocupados com um possível envio de jovens portugueses para a guerra, mas os conflitos pelo mundo fora fazem-nos entrar numa maré de perguntas e de curiosidades. Em grande parte, acredita a mãe, isto explica-se com a sensibilidade que ganharam quando ajudaram a integrar uma família ucraniana em Portugal, em 2022.

“Eram um casal com três filhos, adolescentes todos, mais ou menos da idade dos meus, e que chegaram aqui sem conhecer nada, nem ninguém, sem qualquer apoio, sem qualquer rede. Desde inscrever na escola, arranjarmos uma casa, arranjar um sítio onde tivessem aulas de português… Acabámos por abraçar essa realidade e ficarmos ainda mais próximos da guerra e do que isso implica para esta família”, recorda.

A ligação construída foi tão forte que os dois filhos de Susana começaram a diabolizar o povo russo e a heroizar os ucranianos. “Criou-se uma animosidade, sim, mas não podemos generalizar [risos]”. A passagem do tempo ajudou Susana a desmistificar esta ideia e a substituir estes pensamentos por perguntas, muitas perguntas sobre as personagens que diariamente aparecem na televisão.

“Esta semana, comentámos que o Zelensky, em três anos, parece que envelheceu 30, e pensámos um bocadinho o que é que seria a vida dele, separado da mulher e dos filhos, têm que estar escondidos, ninguém deve saber onde é que ele dorme, onde é que ele está a cada momento”, desvela.

Ir para a guerra é uma realidade que devemos encarar com sobriedade, com cuidado, com ponderação

Nos últimos meses, a estas questões juntaram-se outras tantas, com o regresso de Donald Trump à Casa Branca. O presidente norte-americana tornou-se num “alvo de chacota” que até já motivou perguntas indignadas a conhecidos norte-americanos e que Susana tenta utilizar como um “exemplo negativo” na educação que dá aos filhos.

Ao consultório de Bárbara Ramos Dias, psicóloga especialista em adolescentes e jovens adultos, este é também um dos principais temas que tem chegado nos últimos meses. “Falam muito, muito, muito dele. Que impactos é que isso trará para o nosso país e para os outros? É uma das grandes preocupações”. E que os deixa a pensar – e muito – no futuro.

E se a guerra aparecer como a pandemia?

Ouvir falar constantemente de guerra e não ver uma solução à vista é, normalmente, um gatilho para os jovens mais ansiosos e depressivos, com tendência para “antecipar cenários negativos”. Bárbara Ramos Dias nota que, nos últimos anos, há cada vez mais casos de “desmotivação e desesperança” entre as gerações mais novas, provocados pela incapacidade de preverem um futuro tranquilo e em paz.

“Para que é que eu estou a estudar? Não sabemos se isto vai servir para alguma coisa, se vamos ter uma vida em condições… Ou se daqui a 10 anos Portugal também está na guerra? Estas têm sido as preocupações deles”, clarifica.

Os jovens mais empáticos (que se imaginam na pele dos ucranianos) são dos que sofrem mais, bem como aqueles que regressam a memórias traumáticas mais frequentemente.

Segundo um estudo publicado este mês pela Universidade Lusófona, mais de metade dos alunos universitários em Portugal está em ‘burnout’ e perto de dois terços diz não conseguir controlar as emoções. São números que dão força à perceção de que há traumas que vêm desde os confinamentos.

“A pandemia obrigou-os a mudar de vida e foi uma coisa que eles não controlaram. Então, eles associam muito: ‘E se de repente a nossa vida muda outra vez?’. É uma coisa que nós não controlamos e o facto de eles não controlarem gera-lhes ansiedade ou até sentimentos de depressão”, descomplica.

A reação perante esta teia de emoções e reações difícil de desfiar vai também sempre depender da família onde estão inseridos: pais que se mostram ansiosos, preocupados e com medo vão dificultar uma reação positiva, otimista e regulada por parte dos filhos. “Em vez de verem as coisas como um copo meio vazio, é ver como um copo meio cheio”, resume.

As perguntas, aponta, serão muitas e é “natural” que os mais velhos não saibam responder a tudo. Neste caso, Bárbara Ramos Dias aconselha a que se assuma o desconhecimento e que se evitem respostas vagas.

“O que nós temos de fazer é ouvi-los bem, escutá-los bem, e nenhuma pergunta ficar sem resposta. Mesmo que nós não saibamos responder, dizemos: ‘Olha, eu vou investigar e depois já te explico’ ou ‘Pergunta ao pai que o pai está mais dentro desse assunto’. É não deixar os miúdos sem respostas ou o ‘porque sim’ ou o ‘porque não’”, sugere.

Esta é também a estratégia que Susana Canhoto aplica diariamente. Se não domina algum assunto, faz questão de investigar e de ficar esclarecida em conjunto com os filhos – que, sublinha, estão bem cientes do que se passa à sua volta.

“Eu não camuflo e não douro a realidade. Não mudamos o canal de televisão quando se fala de guerra, eles têm de estar cientes do que se passa à sua volta. Não quero que eles vivam numa bolha de medo, mas também não quero que sintam que é tudo rosa e dourado, porque não é, a realidade não é essa, infelizmente”.

A escola também ensina para a defesa

Na Alemanha, o governo já aprovou um programa de serviço militar voluntário. Também o Reino Unido aprovou o chamado “gap year” militar, em que os jovens fazem uma pausa de um ano nos estudos ou no trabalho para ir prestar serviço nas Forças Armadas.

João Perestrello, estudante de direito com 20 anos, duvida que Portugal se encaminhe para uma decisão desse género.

A pandemia obrigou-os a mudar de vida e foi uma coisa que eles não controlaram. Então, eles associam muito: ‘E se de repente a nossa vida muda outra vez?’

Acho que o serviço militar obrigatório para já não é uma questão que se deva colocar em Portugal. O objetivo devia ser muito mais a qualificação da carreira, a qualificação das forças militares do que propriamente voltarmos atrás a 2004”, considera.

De acordo com um estudo publicado no ano passado pela empresa de aviação AirBus e pela universidade espanhola IE University, praticamente metade dos jovens da Europa ocidental acredita que o seu país estará diretamente envolvido numa guerra nos próximos 10 anos. Ainda assim, cinco em cada dez contraria os apelos para investir mais em defesa, acreditando que a participação na NATO é adequada.

Para este aluno de direito, estes números explicam-se, em parte, por um “sistema de ensino que não é exigente, que não puxa pelo nosso espírito crítico” e que não dá os instrumentos suficientes para “filtrar a informação e ver a relevância de certos assuntos”. Mas no rol de culpas também entram os responsáveis políticos, nomeadamente os portugueses, que podiam aprender com o discurso da NATO e ser “mais transparentes”.

“Numa altura onde se está a desenvolver uma desconfiança em relação à comunicação social, uma desconfiança em relação a tudo e mais alguma coisa, é relevante que, pelo menos, a verdade exista”, aponta.

Para isso, este jovem gostaria de ver “de uma vez por todas” os políticos portugueses a assumirem uma postura coerente e comprometida com o reforço do investimento em defesa, de forma a garantir soluções concretas para garantir a segurança dos estados e, ao mesmo tempo, sem pôr em risco o Estado Social.

A maioria dos responsáveis políticos em Portugal tem medo de dizer que podem existir consequências no Estado Social. Mais lamentável do que isso é mudanças de posição por motivos eleitoralistas, isso é que me tira de sério”, critica.

O que tem tudo isto a ver com o aumento da violência?

Prisão preventiva para quatro neonazis que queriam derrubar a democracia portuguesa. Dez pessoas mortas por um jovem num tiroteio numa escola na Áustria. Quatro jovens influencers violam uma rapariga e partilham o vídeo nas redes sociais.

No ano passado, e segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, os crimes cometidos por jovens entre os 12 e 16 anos cresceram 12,5% em comparação a igual período do ano anterior.

Não passa de uma “perceção de mãe”, mas, para Susana Canhoto o crescimento da violência pode estar relacionado com “um efeito quase de mimetismo” daquilo que se vê na televisão e nas redes sociais, onde os conteúdos violentos se propagam com “o clique fácil”.

João Perestrello alinha-se com esta perspetiva e vai mais longe: considera que a banalização da guerra e da violência também podem explicar o crescimento dos movimentos extremistas.

Temos a violência de discurso e acho que aí é que é mais notório. A guerra também é uma consequência. Isto são tudo questões que estão absolutamente ligadas em teia, o crescimento de certos extremismos está efetivamente associado à violência, e portanto, isso normaliza”, aponta.

Na leitura de Bárbara Ramos Dias, é “natural” que as imagens de violência influenciem “o comportamento do dia-a-dia e com os pares”, mas ainda se tem de adicionar um fator – a falta de empatia na sociedade atual.

Que impactos é que Trump trará para o nosso país e para os outros? É uma das grandes preocupações

Isso também vem daí, desta insatisfação que a maior parte da população, de falta de empatia – vê-se muito quando as pessoas não se cumprimentam. À mínima frustração, reage-se com agressividade. Não sabem lidar com a frustração e, portanto, reagem com agressividade e isso nos miúdos acontece muito também”, clarifica.

Não passa de uma sensação, que ainda precisa de ser provada com estudos científicos, mas que uma coisa já prova: há quem receie a guerra, mas que tem ainda mais medo dos efeitos que ela já começa a deixar.

Saiba Mais
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Comum
    25 jun, 2025 no Tuga Bimbo 14:08
    Por cá, continua-se a achar que por estarmos longe da Rússia com uma data de Países pelo meio, estamos a salvo, e que "os outros" protegem-nos. Há até quem diga que não precisamos de Forças Armadas porque "ninguém deixaria que a Rússia tomasse conta disto"...Esquecem que "os outros" têm de se defender a eles próprios, primeiro e que tal como na guerra entre Israel e o Irão, os misseis voam milhares de Km, e não fazer fronteira com a Rússia pouco ou nada quer dizer.

Vídeos em destaque