Cimeira da NATO
Trump satisfeito, divisões em standby e a Ucrânia na prateleira. A cimeira da NATO trouxe o compromisso da década
25 jun, 2025 - 22:49 • Alexandre Abrantes Neves, enviado especial a Haia
O compromisso dos 5% de investimento em defesa até 2035 ficou selado e isso dá um balão de oxigénio a Rutte, que garante união entre os EUA e os restantes aliados. A Ucrânia, como esperado, foi um dos temas laterais da cimeira, mas Trump fez a promessa - vai pressionar o "desorientado" Putin para alcançar a paz.
O compromisso dos 5% do PIB já era conhecido e só os contornos do último dia da cimeira da NATO é que geravam curiosidade. O dono da casa fez as honras e, logo de manhã, acabou com a espera e mostrou que as expectativas não iam sair defraudadas.
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“O ‘daddy’ às vezes tem de ter uma linguagem mais forte [risos]”. A frase de Mark Rutte correu as redes sociais e marcou o encontro que manteve com Donald Trump e que abriu a porta ao presidente norte-americano para a reunião do Conselho do Atlântico Norte.
O estilo foi provocatório, mas resume a postura do secretário-geral da Aliança Atlântica ao longo dos últimos dias: garantir que estava tudo do agrado de Donald Trump, afastando a sua imprevisibilidade, o medo de voltar ameaçar sair da NATO (como fez em 2018) e o burburinho – lançado pelo próprio na terça-feira, à entrada para o avião que o traria até Haia – sobre possíveis alterações ao poderoso artigo 5.º, que considera que um ataque contra um é um ataque contra todos.
Os sorrisos do líder dos Estados Unidos já faziam antever que a estratégia estava a ter o efeito desejado, mas, dúvidas restassem, Trump prontificou-se a desfazê-las, já depois do final da cimeira.
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“Eu vim aqui porque é algo que é suposto eu fazer, mas saio um pouco diferente. Eu vi o amor e a paixão que mostraram pelos seus países - é inacreditável. Eles querem proteger os seus países e precisam dos Estados Unidos e sem nós não vai ser assim. Eles amam os seus países, tiveram tanto respeito por mim, porque sou o presidente dos Estados Unidos”, afirmou.
As palavras vieram embaladas pelo texto conhecido um par de horas antes – a curta e esperada declaração final que selava o compromisso de investir 5% do PIB em defesa até 2035.
No terceiro ponto, surgem os pormenores que prometem ser escrutinados até ao titânio (com relatório anuais a apresentar pelos aliados), ao longo dos próximos anos: 3,5% do PIB dizem respeito aos chamados “gastos puros” e que são “essenciais para cumprir os objetivos de capacidade da NATO”, os restantes 1,5% vão ser empregues ao serviço da “resiliência das nações”, com investimentos que combinam a área militar e civil e que podem incluir, por exemplo, autoestradas.
É a concretização do pedido (e ameaça) feito até à exaustão por Trump e que finalmente vê a luz do dia. Mais do que um selo de garantia para a defesa de “cada centímetro da NATO”, como afirmou Rutte, este compromisso é um garante de estabilidade dentro da aliança – os europeus e canadianos aceitaram a meta “com “unanimidade”, como diz a declaração, e isso colocou os Estados Unidos “inequivocamente” comprometidos com a NATO.
A cimeira relâmpago, traçada para condensar os esforços, não acentuar divisões e evitar aborrecimentos de Trump, pareceu ter cumprido o objetivo – e isso fez o líder da NATO falar num momento histórico.
“Isto vai promover um salto quântico na nossa defesa coletiva. Eles concordaram em impulsionar as nossas indústrias, o que vai não só melhorar a nossa segurança, mas também criar trabalhos”, afirmou, mas sem deixar cair a narrativa de que todo este esforço não é só fogo de vista. “O trabalho não acaba aqui, isto é só dia um”, avisou.
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“O que Espanha fez… Acho que é terrível. São o único país que não esta a pagar”, afirmou Donald Trump, sobre a recusa de Espanha em cumprir os 5% do PIB. O tom não foi dos mais duros do reportório do presidente dos Estados Unidos, mas serviu para deixar o aviso: “Vamos negociar com Espanha um acordo de comércio e vamos fazê-lo pagar o dobro."
O presidente do governo espanhol só deve reagir esta quinta-feira no Conselho Europeu, em Bruxelas, até porque diz não ter falado diretamente com o homólogo norte-americano, mas o francês Emmanuel Macron já se chegou à frente para classificar a ideia de Trump como uma "aberração".
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As palavras para Espanha podem servir de aviso para os países com menor taxa de investimento em defesa. Apesar de ter falado antes e de não conseguir prever o que Trump ia dizer ou não, o primeiro-ministro português traçou diferenças ibéricas para quem o quisesse ouvir e começou por se mostrar afincadamente convicto da nova folha de obrigações atlântica.
“Não estamos no tempo de incumprir, de adiar os compromissos essenciais. Estamos no tempo de mostrar que estamos à altura de assumir as nossas responsabilidades. Temos de, a partir de agora, ser mais consequentes com os compromissos que fazemos”, afirmou, numa conferência de imprensa que o fez ausentar-se temporariamente da sala onde os chefes de Estado e de governo da NATO estavam reunidos.
Mais preocupado e questionado sobre o curto prazo, Luís Montenegro explicou que, já este ano, Portugal vai investir 1000 milhões de euros extra na defesa, para chegar à meta dos 2% do PIB.
“Nós teremos de agilizar processos de aquisição, nós teremos de estabelecer relações comerciais. Não é fácil. Nós estamos já no terreno, mas quero chamar a atenção de que, às vezes, estas respostas não são tão imediatas”, acrescentando depois: “Não é por falta de vontade, nem de dinheiro."
O diálogo com a oposição está garantido, ainda para mais para, daqui a dez anos, conseguir chegar aos 5% do PIB. Nesse objetivo – o “mais ambicioso compromisso da história de Portugal na NATO” –, Montenegro conta com aquilo que, segundo diz, ajudou a construir.
“Em articulação com o Secretário-Geral da NATO e com outros Aliados, fizemos um esforço para que se consagrasse alguma flexibilidade. Em primeiro lugar, obtivemos um alargamento do prazo para o cumprimento destas metas, que inicialmente estava previsto, em várias das propostas, alcançar-se em 2030. Por outro lado, foi também importante introduzir um contexto de não imposição de tetos fixos ou percentagens de incremento anual [nos relatórios a apresentar pelos Estados]”.
Ucrânia sim, mas...
Zelensky já sabia de antemão que o holofote só o ia apanhar em grande escala no Conselho Europeu desta quinta-feira em Bruxelas, mas esperava, pelo menos, maiores pistas para o futuro de Donald Trump, no encontro que os dois mantiveram após a cimeira.
“Não podia ter corrido melhor. Como se recordam, já tivemos alguns problemas com o Presidente da Ucrânia, por isso, aproveitei para saber como ele estava. Ele tem passado um mau bocado, o combate tem sido muito duro, e os ucranianos têm estado a lutar corajosamente”, revelou, não esclarecendo se vai ou não enviar mísseis Patriot ou novos envelopes financeiros para Kiev.
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Na rede social X, o presidente ucraniano levantou um pouco mais a ponta do véu, dizendo que foi discutida a possível produção conjunta de drones entre Kiev e Washington – resta saber se essa será uma carta na manga para Trump, que disse esta quarta-feira que vai voltar a pressionar Trump. “Ele anda desorientado”, criticou.
Rutte passou os últimos dias a reafirmar o apoio “inabalável à Ucrânia” e a sua adesão “irreversível” à NATO. À primeira vista, a declaração final da cimeira parece dar solidez às palavras do secretário-geral da NATO, mas basta recuar um ano para perceber que, desta vez, não entrou nenhuma condenação direta à invasão russa – o que pode ser influência de Donald Trump, que não quer introduzir referências que possam chatear Vladimir Putin.
“Os aliados reafirmam os seus compromissos soberanos duradouros de prestar apoio à Ucrânia, cuja segurança contribui para a nossa, e, para esse efeito, incluirão contribuições diretas para a defesa da Ucrânia e para a sua indústria de defesa no cálculo das despesas de defesa dos Aliados”, pode ler-se no documento deste ano.

















