EUA
Musk cria "Partido da América" nos EUA. Domínio de Republicanos e Democratas fica ameaçado?
06 jul, 2025 - 08:00 • Diogo Camilo e Reuters
Depois de apoiar Donald Trump com 235 milhões de euros durante a campanha das últimas presidenciais, o homem mais rico anuncia a criação do "Partido da América" para "devolver a liberdade" aos norte-americanos. Num sistema político dominado por Republicanos e Democratas, há poucos exemplos nos EUA de um terceiro partido. Musk tem o dinheiro para investir e uma plataforma para lançar o partido, mas (ainda) não pode concorrer à presidência.
Foi através da sua rede social, o X, que Elon Musk anunciou a intenção de criar uma nova força política nos Estados Unidos para competir com o Partido Republicano e o Partido Democrata. A intenção? Quebrar o sistema partidário dos EUA para poder ter influência nas leis controversas que são aprovadas.
Nas redes sociais, após uma sondagem que lançou e em que 1,2 milhões de utilizadores da plataforma votaram na fundação do partido, Musk indicou que o mesmo irá "devolver a liberdade" dos norte-americanos e se chamará "Partido América".
"Vocês querem um novo partido político e vão tê-lo! Quando se trata de levar nosso país à falência com desperdício e corrupção, vivemos num sistema de partido único, não numa democracia", escreveu.
Depois de apoiar Donald Trump com 235 milhões de euros durante a campanha das últimas presidenciais e de ter liderado o agora extinto Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), Musk criticou a "Grande e Bela Lei" de Trump e prometeu fundar o seu partido se a mesma avançasse. No dia seguinte à lei ser promulgada, cumpre a promessa.
Questionado sobre o que o fez deixar de amar Trump e passar a atacá-lo, Musk respondeu: "Aumentar o défice de 2 biliões de dólares, já de si loucos, quando estava Biden no poder, para 2,5 biliões de dólares. Isso levará o país à falência."
Terceiro partido nos EUA? História não está a favor de Musk
Desde a década de 1860 que os Democratas e os Republicanos dominaram o panorama político dos EUA, ocupando a presidência, o Congresso e a vasta maioria dos cargos eletivos. As tentativas de criar um terceiro partido raramente conseguiram romper este duopólio, sendo normalmente derrotadas nas urnas.
Alguns desses partidos duraram apenas alguns ciclos eleitorais, como o Partido Progressista na década de 1910 ou o Partido dos Cidadãos nos anos 80.
No entanto, é falso que só existam dois partidos nos Estados Unidos. Outros partidos, como o Partido Libertário e o Partido Verde, existem há décadas e com algum sucesso a nível local.
O Green Party, que teve 0,6% nas últimas eleições presidenciais, nunca teve resultados expressivos mas poderá ter ajudado a retirar a vitória a Al Gore no voto de 2000, frente a George W. Bush. Nessas eleições, o partido teve quase 3 milhões de votos e 2,7% do total, numa presidenciais que ficaram decididas por poucos milhares de votos.
O Partido Libertário teve o seu melhor resultado em presidenciais em 2016, quando teve quase 4,5 milhões de votos (3,3%) na disputada eleição entre Donald Trump e Hillary Clinton.
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Musk anuncia criação do "Partido da América" para "devolver a liberdade" a americanos
Depois de uma sondagem na sua própria rede social,(...)
No entanto, o sistema político norte-americano é muito mais centrado nas pessoas do que nos partidos, ao contrário do que acontece na Europa. Frequentemente, estes partidos orbitam em torno de uma única figura pública.
O Partido Progressista, fundado em 1912, tinha em Theodore Roosevelt a sua figura central, após abandonar os Republicanos. Então ex-presidente norte-americano, Roosevelt teve cerca de 27% dos votos nas eleições de 1912, mais do que o candidato republicano, William Howard Taft, que teve 23%. No entanto, ambos perderam para o democrata Woodrow Wilson e, sem ele, o Partido Progressista desapareceu.
Outro exemplo é o Partido da Reforma, criado pelo bilionário Ross Perot em 1995, depois de obter quase 19% dos votos nas presidenciais de 1992, frente a Bill Clinton, pelos Democratas, e George Bush, pelos Republicanos. Sem Perot, o partido rapidamente perdeu relevância.
A grande razão para não existir um terceiro partido que faça frente ao Partido Republicano e ao Partido Democrata está no no próprio sistema eleitoral. O método de maioria simples favorece inevitavelmente os dois partidos principais e eleições como as presidenciais ou para governadores dos estados só podem ter um vencedor, o que dá um peso de "voto desperdiçado" a quem queira votar num terceiro partido.
Outro obstáculo é o dinheiro. As campanhas nos EUA custam centenas de milhões de dólares, e nenhum terceiro partido consegue, em regra, angariar fundos suficientes para competir com os gigantes políticos. As tentativas de bilionários como Ross Perot de se auto-financiarem são frequentemente vistas como projetos de vaidade, sem apoio genuíno da população.
Para ter sucesso, qualquer novo partido precisaria também de visibilidade mediática, algo que os grandes meios de comunicação reservam quase exclusivamente aos Democratas e Republicanos. Cria-se assim um ciclo vicioso: sem dinheiro e sem cobertura mediática, é impossível crescer; sem sucesso, não há dinheiro nem cobertura.
Elon Musk, por agora, tem dinheiro para investir e uma plataforma mediática global como poucos. Contudo, por ter nascido fora dos EUA, não pode legalmente concorrer à presidência. Se levasse a sério a criação de um partido, teria de encontrar alguém para liderá-lo, o que implicaria perder o controlo direto - algo que parece pouco compatível com a sua personalidade pública.
Resta saber se a ambição de Musk será suficiente para ultrapassar os enormes obstáculos que o sistema norte-americano coloca a qualquer tentativa de romper o bipartidarismo.
Musk quer "força concentrada em local preciso"
Para levar o seu plano em frente, o homem mais rico do mundo e dono da Tesla e do X já definiu a sua estratégia.
"Força extremamente concentrada num local preciso no campo de batalha", escreveu no X, dando como exemplo Epaminondas e a forma como o general grego transformou Tebas numa potência e "destruiu o mito da invencibilidade de Esparta".
Na sexta-feira, Musk já tinha indicado como objetivo eleger "dois a três" lugares no Senado norte-americano e "oito a dez" mandatos na Câmara dos Representantes.









