Ciência
Cinco tipos de medicamentos que podem causar perda de audição sem saber
22 jul, 2025 - 08:00 • The Conversation/Reuters
Analgésicos como a aspirina ou o paracetamol foram associados ao zumbido e à perda auditiva, com efeitos temporários ou permanentes. Para algumas infeções graves, é necessário tratamento agressivo com antibióticos e os benefícios superam muitas vezes os riscos da perda de audição.
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Quando pensamos nos efeitos secundários dos medicamentos, é comum virem-nos à mente náuseas, fadiga ou tonturas. Mas existe outro risco, menos conhecido, que pode ter consequências duradouras – e por vezes permanentes: a perda de audição. Uma grande variedade de medicamentos sujeitos a receita médica e de venda livre são considerados ototóxicos, ou seja, podem danificar o ouvido interno e afetar a audição ou o equilíbrio.
Ototoxicidade refere-se a danos causados por medicamentos ou substâncias químicas na cóclea, que afeta a audição, e no aparelho vestibular, que controla o equilíbrio. Os sintomas podem incluir zumbido nos ouvidos (tinido), perda auditiva (geralmente começando nos sons de alta frequência), tonturas, problemas de equilíbrio ou uma sensação de pressão nos ouvidos.
Estes efeitos podem ser temporários ou permanentes, dependendo do medicamento envolvido, da dose, da duração do tratamento e da suscetibilidade individual.
O ouvido interno é extremamente sensível e a maioria dos especialistas acredita que os medicamentos ototóxicos provocam danos ao afetarem as minúsculas células ciliadas da cóclea ou ao perturbarem o equilíbrio de fluidos no ouvido interno. Uma vez danificadas, estas células não se regeneram – o que torna a perda auditiva irreversível em muitos casos.
Cerca de 200 medicamentos são conhecidos por terem efeitos ototóxicos. Eis alguns dos fármacos mais comuns a ter em atenção:
1. Antibióticos
Antibióticos aminoglicosídeos como gentamicina, tobramicina e estreptomicina são geralmente prescritos para infeções graves como sépsis, meningite ou tuberculose – situações em que o tratamento agressivo e imediato pode salvar vidas. Nestes casos, os benefícios superam muitas vezes os riscos de perda auditiva.
Estes medicamentos, normalmente administrados por via intravenosa, estão entre os ototóxicos mais bem documentados. Podem causar perda auditiva irreversível, sobretudo quando usados em doses elevadas ou por períodos prolongados. Algumas pessoas podem ter uma predisposição genética que as torna mais vulneráveis.
Estes antibióticos podem permanecer no ouvido interno durante semanas ou até meses, o que significa que os danos podem continuar mesmo após o fim do tratamento.
Outros antibióticos a ter em conta incluem os macrólidos (como a eritromicina e a azitromicina) e a vancomicina, que também têm sido associados a problemas auditivos, especialmente em idosos ou pessoas com problemas renais.
2. Medicamentos para o coração
Diuréticos de ansa, como a furosemida e a bumetanida, são frequentemente usados no tratamento da insuficiência cardíaca ou da hipertensão arterial. Quando administrados em doses elevadas ou por via intravenosa, podem provocar perda auditiva temporária ao afetarem o equilíbrio de fluidos e eletrólitos no ouvido interno. Cerca de 3% dos utilizadores podem sofrer de ototoxicidade.
Alguns medicamentos para a pressão arterial também têm sido associados ao zumbido nos ouvidos.
Entre eles estão os inibidores da enzima de conversão da angiotensina (ECA) – como o ramipril, que ajudam a relaxar os vasos sanguíneos – e os bloqueadores dos canais de cálcio, como a amlodipina, que reduzem a pressão arterial ao impedirem a entrada de cálcio nas células do coração e das artérias. Embora essas ligações tenham sido observadas, ainda são necessários mais estudos para compreender totalmente os seus efeitos sobre a audição.
3. Quimioterapia
Certos medicamentos de quimioterapia, especialmente os que contêm platina – como o cisplatina e o carboplatina – são altamente ototóxicos. A cisplatina, usada no tratamento de cancros como o testicular, ovárico, mamário, da cabeça e do pescoço, apresenta um risco elevado de perda auditiva permanente. Esse risco aumenta quando há também radioterapia direcionada à cabeça ou pescoço.
Até 60% dos doentes tratados com cisplatina sofrem algum grau de perda auditiva. Investigadores estão a estudar formas de reduzir este risco, ajustando a dosagem ou frequência, sem comprometer a eficácia do tratamento.
4. Analgésicos
Doses elevadas de analgésicos comuns, como a aspirina, anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) – como o ibuprofeno e o naproxeno – e até o paracetamol, foram associados ao zumbido e à perda auditiva.
Um estudo de larga escala concluiu que mulheres com menos de 60 anos que tomavam regularmente aspirina em dose moderada (325 mg ou mais, seis a sete vezes por semana) apresentavam um risco 16% superior de desenvolver zumbido. Este risco não foi observado com aspirina em baixa dose (100 mg ou menos). O uso frequente de AINEs e paracetamol também foi associado a um risco quase 20% maior de zumbido, especialmente em mulheres que usavam estes medicamentos com frequência.
Outro estudo relacionou o uso prolongado destes analgésicos com um risco aumentado de perda auditiva, sobretudo em homens com menos de 60 anos. Na maioria dos casos, o zumbido e as alterações auditivas desaparecem após a interrupção da medicação – mas os efeitos costumam surgir após uso prolongado e em doses elevadas.
5. Antimaláricos
Medicamentos como a cloroquina e a quinina – usados no tratamento da malária e de cãibras musculares – podem causar perda auditiva e zumbido reversíveis. Um estudo revelou que entre 25% a 33% das pessoas com perda auditiva já tinham tomado algum destes fármacos.
A hidroxicloroquina, usada no tratamento do lúpus e da artrite reumatoide, tem uma estrutura química semelhante e representa riscos parecidos. Embora algumas pessoas recuperem após suspenderem o medicamento, outras podem sofrer danos permanentes, especialmente após uso prolongado ou em doses elevadas.
Pessoas com perda auditiva pré-existente, doença renal ou predisposição genética enfrentam maior risco – assim como aquelas que estão a tomar vários medicamentos ototóxicos ao mesmo tempo. Crianças e idosos também podem ser mais vulneráveis.
Se lhe for prescrito algum destes medicamentos para tratar doenças graves como cancro, sépsis ou tuberculose, os benefícios geralmente superam os riscos. No entanto, é importante estar informado. Pergunte ao seu médico ou farmacêutico se o medicamento em questão pode afetar a audição ou o equilíbrio.
Se notar zumbido, tonturas ou sensação de ouvido abafado, informe o seu médico imediatamente.








