Entrevista Renascença

"Documentei isto enquanto eu próprio estava esfomeado". Como foi feita a foto de Gaza que está a chocar o mundo

25 jul, 2025 - 17:17 • Catarina Santos , Daniela Espírito Santo

Fotografia de Ahmed al-Arini foi capa de vários jornais e está a causar revolta nas redes sociais. Fotojornalista conta à Renascença que sentiu o dever de "mostrar o que a fome nos está a fazer" e confessa-se surpreendido pelo alcance que as suas imagens estão a ter. "Normalmente, o mundo não presta atenção a Gaza. A guerra arrasta-se há tanto tempo que as pessoas ficaram insensíveis à nossa morte e extermínio".

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Uma fotografia de uma criança emaciada está a causar uma onda de choque e comoção internacional, depois de surgir nas capas do Guardian, da BBC, do Liberatión e até do tabloide conservador Daily Express. Tirada pelo fotojornalista Ahmed al-Arini, residente em Gaza, mostra um bebé visivelmente subnutrido no colo da mãe, com um saco plástico a servir de fralda.

O nome do menino é Muhammad Zakariya Ayyoub al-Matouq, tem um ano e meio e enfrenta subnutrição com risco de morte, como tantas outras crianças que vivem no mesmo local, na Faixa de Gaza. Na legenda da imagem, feita para a agência turca Anadolu e distribuída pela Agência Reuters, é dito que Muhammad passou de nove para seis quilos e "luta para sobreviver numa tenda em Gaza, onde faltam leite, alimentos e outras necessidades básicas".

Israel controla as fronteiras terrestres, aéreas e marítimas de Gaza e impôs um bloqueio quase total desde que o conflito com o Hamas se intensificou. A entrada de bens essenciais foi fortemente restringida há vários meses e a ajuda humanitária que chega aos residentes já foi várias vezes declarada como muito insuficiente. Nos últimos meses - e depois de forte pressão internacional - EUA e Israel criaram o Fundo Humanitário de Gaza, uma empresa privada norte-americana que faz a gestão da ajuda humanitária. De cerca de 400 pontos de entrega de ajuda espalhados pela Faixa de Gaza passaram a quatro centros de distribuição, protegidos pelo exército israelita. Tanto a ONU como várias organizações não-governamentais criticaram este modelo, com a ONU a apelidá-lo de "armadilha mortal e humilhante", uma vez que os bens, escassos, estão pouco distribuídos, obrigam os residentes a percorrerem longas distâncias para os receber e em situações de atropelos e violência constantes.

"Leite e fraldas não estão disponíveis a preços que alguém possa pagar", conta o autor da fotografia à Renascença, numa conversa por WhatsApp. "Senti que era meu dever mostrar o que a fome nos está a fazer. Documentei esta situação enquanto eu próprio estava esfomeado, a caminhar descalço, o meu corpo enfraquecido pela fome", afirma.

Ahmed al-Arini confessa-se algo surpreendido pelo alcance que as suas imagens tiveram. "Normalmente, o mundo não presta atenção a Gaza. A guerra arrasta-se há tanto tempo que as pessoas ficaram insensíveis à nossa morte e extermínio". Depois de milhares de fotografias a documentar a crescente crise humanitária em Gaza, centenas das quais com crianças gravemente subnutridas, o fotojornalista sublinha que esta atenção súbita "significa muito".

"Muito poucos percebem verdadeiramente o que aconteceu -- e continua a acontecer -- em Gaza. A fome reduziu os nossos corpos a esqueletos. Meses de privação, falta de comida, de água limpa, de leite, de fraldas resultaram em perdas devastadoras."

À BBC, Ahmed tinha já explicado que tirou várias fotos à família do bebé Muhammad Zakariya, mas teve de pausar entre cada uma delas para "recuperar o fôlego antes de continuar". Na mesma entrevista, Ahmed adianta que aquela família foi retirada da sua casa "no norte de Gaza" e colocada numa tenda "que faz lembrar um túmulo".

"Documentar este sofrimento é também um reflexo da minha própria realidade"

Natural do campo de refugiados de Jabalia, no norte da Faixa de Gaza, Ahmed teve de fugir com a família depois de a sua casa ser destruída num bombardeamento israelita. É fotojornalista desde 2021, mas o trabalho como freelancer -- agora sobretudo para a agência Anadolu, depois de ter já colaborado como videojornalista freelancer com a agência AFP e outros meios que lhe compram trabalho à peça -- não lhe garante rendimento fixo.

"Documentar este sofrimento é também um reflexo da minha própria realidade", sublinha. "Agora sou um deslocado e sem-abrigo. A minha família está a sofrer com fome. A minha mãe é diabética e tento providenciar-lhe o pouco que consiga. A vida aqui tornou-se um inferno."

Para sobreviver, Ahmed e a família têm de percorrer diariamente "longas distâncias" para "carregar garrafões com água" e ir aos poucos locais de distribuição de comida ainda a funcionar. "Os meus irmãos e os filhos deles estão com fome e constantemente a chorar por um pedaço de pão. O pão tornou-se um sonho, com preços para lá do que se pode imaginar."

Online, Ahmed, como tantos outros jornalistas e fotógrafos locais, pede ajuda para subsistir através de uma página de angariação de fundos. "Documento a guerra através da minha lente e vivo a sua tragédia com a minha alma", começa por dizer, explicando que a sua família perdeu a casa, o carro e a segurança. "Continuamos a mudar de um lugar para o outro, carregando alguns pertences", mas sem "estabilidade ou dignidade".

Quando lançou o apelo no Go Fund Me, explicava que vivia numa pequena casa com os pais, dois irmãos, uma cunhada e os sobrinhos e que era o único com algum rendimento para sustentar toda a família.

"A fome e a falta de abrigo obrigaram-me a partilhar este link", explica no pedido de donativos, pedindo "uma oportunidade de sobreviver". Perante a subida dos preços dos bens de primeira necessidade, que atingiram "níveis sem precedentes", o fotojornalista assegura que, hoje em dia, Gaza é "o lugar mais caro e difícil para um ser humano existir".

Uma em cada cinco crianças em Gaza está subnutrida, garante UNRWA, Agência da ONU de Assistência aos Refugiados. Uma situação denunciada em Maio à Renascença pela organização de apoio a crianças Save The Children.

Numa declaração conjunta, BBC, Reuters, Associated Press e Agence France-Presse apelaram por estes dias às autoridades israelitas para que permitam a entrada e saída de jornalistas de Gaza, afirmando que a fome está a ameaçar os jornalistas em Gaza.

As agências dizem estar profundamente preocupadas com a situação dos profissionais da comunicação social que estão a passar pelas mesmas privações que relatam ao mundo. Descrevem a situação de jornalistas que não estarão a conseguir alimentos para eles próprios e respetivas famílias e exigem às autoridades israelitas que permitam a entrada e saída destes profissionais de forma a garantirem a sua subsistência.

Mais de 100 pessoas morreram de fome em Gaza nas últimas semanas, incluindo 80 crianças, de acordo com as autoridades de saúde locais.

[Notícia atualizada às 19h00 de 25 de julho de 2025 para acrescentar mais contexto]

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