Sismos
Por que alguns sismos causam tsunamis e outros não?
02 ago, 2025 - 08:00 • Diogo Camilo e The Conversation/Reuters
O terramoto de magnitude 8.8 que teve epicentro na Rùssia foi o maior sismo dos últimos 14 anos, mas não provocou grandes tsunamis como outros no passado. A diferença para os sismos da Indonésia e do Japão, que tiveram ondas com mais de 30 metros de altura? É tudo uma questão de profundidade.
O sexto maior sismo alguma vez registado, com magnitude 8.8 na escala de Richter, teve epicentro na região de Kamachtka, na Rússia, e levou a avisos de tsunami por todo o Oceano Pacífico, tão distantes como Havai, Alasca, Nova Zelândia ou Peru.
Em alguns locais, como nas ilhas Curilas do norte da Rússia, as ondas do tsunami atingiram alturas superiores a cinco metros, mas não causaram grandes estragos. No entanto, em grande parte do Pacífico, o cenário de grandes ondas não se concretizou. Porquê?
Nem todos os sismos submarinos resultam em tsunamis. Para que um tsunami aconteça, a crosta terrestre no local do sismo tem de ser empurrada para cima num movimento conhecido como deslocamento vertical. Isto ocorre normalmente durante falhas inversas, ou na sua forma menos inclinada, conhecida como falha de empurrão, em que um bloco da crosta terrestre é forçado para cima e por cima de outro, ao longo de um plano de falha.
Não é coincidência que este tipo de movimento de falha tenha ocorrido numa zona em que uma placa tectónia desliza sobre a outra no chamado “Anel de Fogo do Pacífico”, onde a densa placa oceânica do Pacífico está a ser forçada por baixo da menos densa placa continental euro-asiática.
Sismo
Terramoto de magnitude 8.8 na Rússia foi o sexto maior em 125 anos
Abalo levou a avisos de tsunami em locais tão dist(...)
Estas zonas são conhecidas por gerar sismos e tsunamis poderosos, pois são locais de compressão intensa, o que leva a falhas de empurrão e ao súbito movimento vertical do fundo do mar. Este mesmo anel foi também o responsável por dois sismos que levaram a grandes tsunamis no passado recente: o sismo de 2004 na Indonésia e o sismo de março de 2011 em Tohoku, no Japão.
Uma questão de profundidade
Porque é que os sismos da Indonésia e do Japão geraram ondas com mais de 30 metros de altura, mas o recente sismo de magnitude 8,8 ao largo de Kamchatka (um dos mais fortes já registados) não o fez? A resposta está na geologia envolvida nestes eventos.
No caso do tsunami de 2004 na Indonésia, o nível do mar subiu cinco metros num espaço de 750 mil quilómetros quadrados -
No tsunami do Japão, estimativas apontam para que o nível do mar tenha subido quase três metros, num espaço de 90 mil quilómetro quadrados - o equivalente à área de Portugal.
Para este sismo com epicentro em solo russo, dados preliminares mostram que os dois lados da falha deslizaram até 10 metros a um ângulo de 18 graus, resultando em apenas três metros de subida vertical.
No entanto, como grande parte deste movimento ocorreu a profundidades superiores a 20 km (numa área de 70.000 km²), o deslocamento do mar foi provavelmente atenuado, já que as camadas superiores de rocha absorveram e dissiparam o movimento antes de este atingir a superfície.
Em comparação, os deslizamentos associados aos eventos de Tohoku e da Indonésia ocorreram, em alguns pontos, a apenas cinco quilómetros de profundidade.
Uma complicação adicional
Assim, embora a dimensão da elevação do fundo do mar seja fundamental para determinar quanta energia um tsunami transporta de início, são os processos que se seguem — à medida que a onda viaja e interage com a linha costeira — que podem transformar um tsunami insignificante numa parede devastadora de água ao chegar à costa.
Quando um tsunami atravessa o oceano aberto, é frequentemente quase impercetível — uma ondulação longa e baixa espalhada por dezenas de quilómetros. Mas ao aproximar-se da terra, a frente da onda abranda devido ao atrito com o leito marinho, enquanto a parte de trás continua a alta velocidade, fazendo com que a onda aumente de altura. Este efeito é mais acentuado em locais onde o fundo do mar se torna raso rapidamente perto da costa.
A forma da linha costeira também é importante. Baías, enseadas e estuários podem funcionar como funis que amplificam ainda mais a onda ao atingir a terra. Crescent City, na Califórnia, é um exemplo clássico. Felizmente, quando a onda chegou a Crescent City a 30 de julho de 2025, atingiu apenas 1,22 metros de altura — ainda assim, o valor mais alto registado nos Estados Unidos continentais.
Portanto, nem todos os sismos submarinos poderosos originam tsunamis devastadores — isso depende não só da magnitude, mas de quanto o fundo do mar é elevado e se esse movimento vertical atinge a superfície oceânica.
No caso do recente sismo na Rússia, embora o deslizamento tenha sido significativo, grande parte ocorreu a profundidade, o que significa que a energia não foi transferida eficazmente para a água acima. Tudo isto demonstra que, embora a dimensão do sismo seja importante, são as características precisas da rutura que determinam verdadeiramente se um tsunami se torna destrutivo ou permanece, em grande parte, insignificante.









