Ciência

Teorias da conspiração estão a dificultar a prevenção de uma nova pandemia

03 ago, 2025 - 08:30 • The Conversation/Reuters

Um dos primeiros estudos sobre a origem do vírus que causa a Covid-19 concluiu que surgiu muito provavelmente através de uma transmissão natural de animais para humanos. No entanto, o artigo tornou-se alvo de teorias da conspiração e ataques políticos.

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No final de Junho, a Organização Mundial de Saúde publicou uma avaliação sobre as origens da Covid-19, concluindo que, embora ainda não se saiba de forma definitiva de onde veio o vírus que causou a pandemia da Covid-19, "uma origem zoonótica, com transmissão de animais para humanos", era considerada a "hipótese mais bem sustentada".

A conclusão do Grupo Consultivo Científico sobre a Origem de Agentes Patogénicos Emergentes (SAGO), um órgão criado pela OMS especificamente para o efeito, foi divulgada depois de centenas de relatórios e artigos científicos publicados desde os primeiros dias da pandemia, que chegaram a conclusões semelhantes: a Covid-19 terá surgido a partir de um animal infectado no mercado de Huanan, em Wuhan – e não como resultado de uma fuga laboratorial.

No entanto, continuam a circular teorias da conspiração sobre a origem da Covid-19. E isso está a dificultar a nossa capacidade de prevenir a próxima pandemia.


Ataques à investigação

A 17 de março de 2020, poucos dias depois de ter sido anunciado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal, investigadores dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália publicaram um artigo na revista Nature Medicine sobre a origem do SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19.

Foram avaliadas várias hipóteses sobre como um novo coronavírus poderia ter surgido em Wuhan no final de 2019 e concluído que o vírus surgiu muito provavelmente através de uma transmissão natural de animais para humanos – uma zoonose – impulsionada pelo comércio não regulado de vida selvagem na China.

Desde então, o artigo tornou-se alvo de teorias da conspiração e ataques políticos.

A ideia de que o SARS-CoV-2 possa ter tido origem num laboratório não é, por si só, uma teoria da conspiração. A hipótese foi considerada com seriedade, mas até hoje não surgiu qualquer evidência que a sustente.

No entanto, o debate público sobre a origem da pandemia tem sido cada vez mais moldado por agendas políticas e narrativas conspirativas. Parte dessas narrativas tem visado o trabalho de investigadores e difamado especialistas que estudaram esta questão com base em dados científicos.

Uma teoria da conspiração comum afirma que altos responsáveis pressionaram investigadores a promover a hipótese “preferida” de uma origem natural, ao mesmo tempo que tentavam silenciar a possibilidade de fuga laboratorial. Outras teorias sugerem até que foram “recompensados” com financiamento de projectos em troca disso.

Estas narrativas são falsas. Ignoram, distorcem ou rejeitam as provas sobre a origem da pandemia. Em vez disso, baseiam-se em citações seletivas de conversas privadas e em representações deturpadas do processo científico e das motivações dos cientistas.


O que nos dizem as evidências?

Nos cinco anos desde a publicação do artigo na Nature Medicine, surgiram novas provas que aprofundaram a nossa compreensão de como o SARS-CoV-2 surgiu muito provavelmente por transmissão natural.

Já no início de 2020, os indícios apontavam fortemente para uma origem zoonótica. As características mais discutidas do vírus encontram-se em coronavírus semelhantes e apresentam sinais claros de evolução natural. O genoma do SARS-CoV-2 não mostra qualquer indício de manipulação laboratorial.

A indústria multibilionária do comércio de animais selvagens e criação de animais para pele na China move regularmente animais de alto risco – frequentemente infectados com vírus – para centros urbanos densamente povoados.

Acredita-se que o SARS-CoV-1, o vírus responsável pelo surto de SARS, surgiu desta forma em 2002, na província chinesa de Guangdong.

De forma semelhante, análises detalhadas de dados epidemiológicos mostram que os primeiros casos conhecidos de Covid-19 se concentraram em volta do mercado de animais vivos de Huanan, em Wuhan, província de Hubei, em Dezembro de 2019.

Múltiplas fontes de dados independentes – incluindo hospitalizações iniciais, mortes por pneumonia em excesso, estudos serológicos e infecções entre profissionais de saúde – indicam que a Covid-19 começou a espalhar-se no distrito onde se localiza o mercado.

Num estudo de 2022, conduzido pelos mesmos especialistas do primeiro estudo de 2020, foi demonstrado que amostras ambientais positivas para SARS-CoV-2 estavam concentradas na secção do mercado onde se vendia vida selvagem.

Num outro estudo em 2024, foi demonstrado que essas mesmas amostras continham material genético de animais suscetíveis – incluindo cães-guaxinim e civetas – encontrado em gaiolas, carrinhos e outras superfícies usadas para os transportar.

Isto não prova que os animais estivessem infectados nem que fossem a origem do surto. Mas é exatamente o tipo de evidência que se esperaria caso o vírus tivesse passado para humanos no mercado – e o contrário do que esperaríamos se tivesse sido uma fuga laboratorial.

Todos estes dados, bem como outras linhas de investigação independentes, apontam para o mercado de Huanan como o epicentro inicial da pandemia de Covid-19.


Preparação para futuras pandemias prejudicada

A especulação e as teorias da conspiração sobre a origem da Covid-19 têm minado a confiança na ciência. A ideia de que se deve dar o mesmo peso à teoria da fuga laboratorial e à origem zoonótica, promovida por alguns comentadores, tem alimentado o discurso conspirativo.

Esta agenda anti-ciência, que em parte se baseia em teorias da conspiração sobre a origem da Covid-19, tem sido usada para justificar cortes profundos no financiamento à investigação biomédica, saúde pública e ajuda internacional – áreas fundamentais para a preparação para futuras pandemias.

Nos Estados Unidos, isso já levou a cortes significativos nos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) e nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), ao encerramento da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e à retirada da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Minar a confiança na ciência e nas instituições de saúde pública também prejudica o desenvolvimento e a aceitação de vacinas e outras intervenções médicas vitais – deixando-nos mais vulneráveis a futuras pandemias.

A amplificação das teorias da conspiração sobre a origem da Covid-19 promove uma visão perigosamente distorcida dos riscos pandémicos. A ideia de que um cientista terá descoberto ou criado um vírus pandémico, infectando-se acidentalmente e originando um surto global – precisamente no tipo de local onde já se sabe que ocorrem transmissões naturais – desafia a lógica. E desvia a atenção do risco real representado pelo comércio de vida selvagem.

Em contraste, a conclusão sustentada por evidências de que a pandemia de Covid-19 teve origem na transmissão de um vírus de animais para humanos destaca um risco muito real e crescente. É assim que as pandemias começam – e voltará a acontecer. Mas estamos a desmontar a nossa capacidade de as evitar ou de nos prepararmos para elas.

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