Médio Oriente

ONU declara oficialmente fome em Gaza

22 ago, 2025 - 10:44 • João Cunha , Olímpia Mairos

A declaração foi feita após meses de alertas sobre uma situação de fome no território palestiniano devastado por uma ofensiva de Israel desde outubro de 2023.

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A ONU declarou esta sexta-feira oficialmente fome na cidade de Gaza, a primeira situação deste género a atingir o Médio Oriente, depois de os especialistas terem alertado que 500.000 pessoas se encontravam numa situação catastrófica.

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O Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC, sigla em inglês), um organismo da ONU com sede em Roma, confirmou que a situação de fome estava em curso em Gaza e que deverá estender-se a Deir el-Balah e Khan Yunis até ao final de setembro.

A declaração foi feita após meses de alertas sobre uma situação de fome no território palestiniano devastado por uma ofensiva de Israel desde outubro de 2023.

O que significa este alerta?

Classificar a fome como um estado de alerta significa que a categoria mais extrema é acionada, e isso só ocorre quando três limiares críticos – privação extrema de alimentos, desnutrição aguda e mortes relacionadas com a fome – são ultrapassados, explica o IPC no seu comunicado. E esses critérios foram alcançados.

O nível mais grave da classificação, a Fase 5, foi então decretado para a cidade de Gaza e áreas circundantes, que passam assim a estar em insegurança alimentar aguda, o que faz aumentar a pressão sobre Israel para que permita o envio de mais ajuda humanitária ao enclave palestiniano devastado pela guerra.

De resto, o documento refere que “não deve restar qualquer dúvida de que é necessária uma resposta imediata e em larga escala”.

Fome em Gaza pode ser travada?

O relatório refere ainda que a fome em Gaza é “inteiramente provocada pelo homem”, mas pode ser “travada e revertida”, se houver uma ação rápida. Tão rápida que evite que as condições de fome se espalhem, nas próximas semanas, da província de Gaza para as províncias de Deir Al Balah e Khan Younis.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a UNICEF, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacam, por seu lado, a extrema urgência de uma resposta humanitária imediata e em larga escala. As agências estão também profundamente preocupadas com a ameaça de uma ofensiva militar na Cidade de Gaza e qualquer escalada do conflito, que teria consequências ainda mais devastadoras para os civis onde a fome já existe.

Crianças doentes e desnutridas, idosos e pessoas com deficiência podem não conseguir fugir.

Fome pode alastrar?

Até ao final de setembro, mais de 640.000 pessoas enfrentarão níveis catastróficos de insegurança alimentar em toda a Faixa de Gaza, onde mais de 1,1 milhões de pessoas vivem já uma situação de Emergência (Fase 4) e outras 396.000 pessoas em situação de Crise (Fase 3).

No Norte de Gaza, as condições são tão graves ou piores que na cidade de Gaza. Mas dados limitados impediram uma classificação. Refere ainda o documento que a cidade de Rafah ficou de fora desta análise, pelos indícios de que está, em grande parte, despovoada.

Quase dois anos de conflito, deslocamentos repetidos e severas restrições ao acesso humanitário, agravados por repetidas interrupções e impedimentos ao acesso a alimentos, água, assistência médica, apoio à agricultura, pecuária e pesca, além do colapso dos sistemas de saúde, saneamento e mercado, levaram as pessoas à fome.

Em julho, o número de famílias que relataram fome muito severa duplicou em todo o território, em comparação com o mês anterior. E triplicou na Cidade de Gaza. Mais de uma em cada três pessoas (39%) indicou passar dias sem comer, e os adultos frequentemente saltam refeições para poder alimentar os filhos.

Ajuda humanitária é suficiente?

Este organismo admite, contudo, que desde julho, os suprimentos de alimentos e ajuda humanitária que entraram em Gaza aumentaram, mas continuaram a ser insuficientes, inconsistentes e inacessíveis face às necessidades.

“A fome e a desnutrição ceifam vidas todos os dias e a destruição de terras agrícolas, gado, estufas, pesca e sistemas de produção de alimentos tornou a situação ainda mais grave”, explicou o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, para quem “o acesso à alimentação não é um privilégio – é um direito humano básico.”

Para Cindy McCain, diretora executiva do Programa Alimentar Mundial, “os alertas de fome são claros há meses”.

“O que é urgentemente necessário agora é um aumento na oferta de ajuda, condições mais seguras e sistemas de distribuição comprovados para alcançar os mais necessitados, onde quer que eles estejam. O acesso humanitário total e um cessar-fogo imediato são cruciais para salvar vidas.”

“A fome é agora uma realidade sombria para as crianças na província de Gaza e uma ameaça iminente em Deir al-Balah e Khan Younis”, disse a diretora executiva da UNICEF, Catherine Russell. “Como alertamos repetidamente, os sinais eram inconfundíveis: crianças com corpos debilitados, fracas demais para chorar ou comer; bebés a morrer de fome e doenças evitáveis. Não há tempo a perder. Sem um cessar-fogo imediato e acesso humanitário total, a fome se espalhará e mais crianças vão morrer”.

Gaza pode ser destruída

O ministro da Defesa de Israel alertou que a cidade de Gaza pode ser destruída, a menos que o Hamas aceite os termos de Israel para um cessar-fogo, enquanto o país se prepara para uma ofensiva ampliada na área.

“Em breve, as portas do inferno se abrirão sobre os assassinos e os terroristas do Hamas em Gaza, até que aceitem as condições de Israel para o fim da guerra, principalmente a libertação de todos os reféns e o desarmamento. Se não aceitarem, Gaza, a capital do Hamas, se tornará Rafah e Beit Hanoun. Exatamente como prometi”, escreveu Katz no X.

Entretanto o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, disse que Israel retomaria imediatamente as negociações para a libertação de todos os reféns mantidos em Gaza e o fim da guerra de quase dois anos, mas em termos aceitáveis para Israel.

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