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"A sociedade em Israel está doente", diz especialista em stress pós-traumático

08 set, 2025 - 21:55 • Henry Galsky, correspondente no Médio Oriente

O fim da guerra "vai permitir ao país parar e estabelecer meios para entender a quantidade de feridos e traumatizados. Falamos de números que variam entre 30 mil a 50 mil pessoas", diz Tuly Flint, em entrevista à Renascença.

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Mais de 700 dias após os ataques do Hamas a Israel, de 7 de outubro de 2023, a Renascença conversou com um dos principais especialistas israelitas em stress pós-traumático. Segundo Tuly Flint, a sociedade precisa parar e viver um período de luto por tudo o que aconteceu.

Tuly Flint também é ativista e membro de diversos grupos pacifistas como os “Combatentes pela Paz”, “Soldados pelos Reféns” e “Silêncio É Crime”.

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As suas posições são críticas ao Governo liderado pelo primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. “A sociedade está doente e não há ninguém em quem se apoiar”, diz o especialista em entrevista exclusiva à Renascença.

Por que é que acredita que há neste momento um recorde de suicídios entre os soldados que regressam da Faixa de Gaza?

Antes de tudo, é preciso dizer que não se trata de um recorde do número de suicídios simplesmente. É um recorde que está relacionado diretamente com guerra, não apenas com questões mentais. Pessoas que deixam cartas de despedida em que expressam isso abertamente. Um cidadão hoje que retorna após cumprir o serviço militar encontra um país desmantelado e, ao mesmo tempo, já tem uma carta de novo recrutamento no bolso. Ele sabe que, ainda que venha a reestruturar o seu trabalho e relações pessoais, ele será chamado novamente para voltar à Faixa de Gaza por, digamos, mais três meses.

E você acha que o Estado de Israel faz o suficiente para tratar essas pessoas que regressam de Gaza?

Definitivamente não. Eu estou com os soldados que apoiam expressamente o fim da guerra e a libertação dos reféns. Enquanto esta guerra não terminar, o próprio país não tem os meios. Assim como as pessoas, o país também está “derrubado”. Há processos paralelos entre os cidadãos e o Estado.

E você acredita que o fim da guerra pode resolver isso?

Sim, o fim da guerra vai permitir ao país parar e estabelecer meios para entender a quantidade de feridos e traumatizados. Falamos de números que variam entre 30 mil a 50 mil pessoas. E há questões adicionais; por exemplo, para cada indivíduo com stress pós-traumático há um parceiro ou parceira, filhos, colegas de trabalho. É uma doença infeciosa.

Manifestações contra a guerra na Faixa de Gaza bloqueiam autoestradas em Israel
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E como o país deveria atuar em relação a isso?

O país precisa entender que cada um que participa dos combates e a sua rede de relacionamentos (parceiro, filhos, família) são atingidos pelo trauma. O país precisa parar e, antes de mais nada, viver o luto. Precisa reconhecer que morreram tantas pessoas. Também precisa lamentar o facto de o país ter-se perdido, de o Governo ter-se perdido. Após o 7 de outubro, ficamos quase um mês sem um Governo funcional, sem sistema de saúde, sem tratamento mental. É preciso parar e viver este luto.

E então, depois disso, mudar tudo no tratamento dos cidadãos para que todos tenham a possibilidade de se reunir em grupos para tratar as perdas diante do que aconteceu. Não me refiro necessariamente a tratamentos individuais, mas em grupo para que tenham mais apoio. O país precisa passar a ter consciência do seu trauma. Todas as pessoas – árabes israelitas, palestinianos, judeus israelitas, não importa – passaram por um evento tão chocante que precisam de apoio. É isso que um país que se preocupa com seus cidadãos precisa fazer.

Então, não acha que se trata de uma questão específica dos reservistas, mas de toda a sociedade. A sociedade está doente?

Exatamente. A questão é que não há ninguém em quem se apoiar. É algo que pertence à sociedade como um todo.

E na sua visão o que pode ocorrer a partir do próximo passo da operação militar, a ocupação da Cidade de Gaza?

É terrível. Veja simplesmente o que está a acontecer. O chefe do Estado-Maior [Eyal Zamir] disse há três semanas que a Faixa de Gaza é uma armadilha mortal. Todos dizem que essa etapa vai matar os reféns. Os soldados que não querem participar nisso vivem um conflito pessoal. Não apenas há um aumento no número de suicídios, mas na violência doméstica, nos divórcios, há pessoas que deixam seus locais de trabalho porque simplesmente não conseguem mais exercer suas funções.

Já vemos um número crescente de soldados que não se querem apresentar. E eu acolho isso de forma positiva. Porque se essas pessoas não se apresentarem o Exército não terá soldados suficientes para levar adiante esta loucura completa de ocupação de Gaza.

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