11 nov, 2025 - 07:10 • Pedro Mesquita
Complexo, cheio de contradições e desigualdades, mas também "um país vibrante" e com uma população muito jovem. É com estas palavras que José Eduardo Agualusa começa a descrever o seu próprio país, meio século depois da independência: "A maior parte da população angolana tem menos de 30 anos, e é uma juventude muito aguerrida, muito alegre, muito combativa. Acho que o melhor que Angola tem é esta juventude."
No deve e haver de Agualusa, "não obstante as riquezas naturais" e a "vitalidade da sua população", o que faz falta em Angola "é quase tudo". Por isso, o escritor conclui que o seu país não tem tido "muita sorte com os dirigentes políticos", em particular com aqueles que estão no poder.
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Mas este, acredita, é um capítulo que está prestes a acabar em Angola. "Acho que mesmo o partido que está no poder tem consciência de que dificilmente ganhará as próximas eleições. Se continuar a tendência de perder 10% a cada data eleitoral, desta vez já não ganhará."
Desde a independência angolana, em 1975, que só um partido conheceu o poder, em Angola — o MPLA. E José Eduardo Agualusa confessa, nesta entrevista à Renascença, ter a sensação de que os sucessivos governos portugueses, incluindo a generalidade dos partidos políticos, "têm sempre apoiado o regime angolano".
E porquê? "Acho que é por oportunismo", defende. "Portugal está do lado de quem tem o poder, porque quer fazer negócios, isso é absolutamente claro. Como esteve do lado do Apartheid. Portugal está sempre do lado de quem tem o poder."
José Eduardo Agualusa defende ainda que o relacionamento entre Portugal e Angola — em toda a lusofonia — evoluiu muito, ao longo dos últimos 50 anos, sobretudo quando pensamos na sociedade civil e na cultura. "Tem vindo a acontecer uma aproximação crescente, um maior movimento de pessoas, e as próprias tecnologias permitem maior reconhecimento mútuo", diz o escritor, mas, apesar disso, receia o que pode trazer o futuro.
E, nesta entrevista à Renascença, Agualusa deixa um aviso: "O avanço da extrema direita na Europa, e em Portugal também, pode vir a dificultar isso, atenção. Quando os angolanos, os imigrantes africanos em Portugal são ostracizados, é natural que isso depois se reflita também nos países africanos. Ainda não aconteceu, mas creio que irá acontecer." O seu receio é de que em Angola, em Moçambique, e noutros países africanos, surja uma extrema direita e que "possamos assistir a movimentos racistas, que evidentemente, neste caso, atingiriam os imigrantes que temos em Angola".
Como evitar esse cenário? A leitura é a solução que Agualusa aponta. "Acredito que os livros — nesta época em que vivemos de construção de muros, de interdição dos outros — fazem exatamente o contrário. A ficção aproxima as pessoas, não é? A ficção coloca-nos no lugar do outro. Talvez os livros consigam ajudar-nos a fazer isso."
Que Angola é esta que faz agora 50 anos?
Angola é um país extremamente complexo, cheio de contradições, desigualdades, mas é também um país vibrante, com uma população muito jovem. A maior parte da população angolana tem menos de 30 anos, a esmagadora maioria, e é uma juventude muito aguerrida, muito alegre, muito combativa. Então, acho que o melhor que Angola tem é esta juventude.
E parece-lhe que essa juventude está a ser devidamente aproveitada no crescimento de Angola? O que é que faz mais falta neste momento?
Não obstante as riquezas naturais, não obstante a vitalidade da sua população, o que faz falta é quase tudo, não é? Acho que em primeiro lugar há uma grande desigualdade social em Angola, há grandes debilidades a nível da educação, da saúde, de acesso ao mercado de trabalho e, no que me diz respeito na literatura, o acesso ao livro.
São inúmeros os problemas que Angola vive. Socialmente a situação não está bem, naturalmente.
Começou por me descrever uma Angola com muita juventude, vibrante, mas ao mesmo tempo com essas dificuldades todas (que descreve). O elo que está a faltar é a política?
Não temos tido muita sorte com os dirigentes políticos... Com os dirigentes políticos que estão no poder, em particular.
Mas há algumas razões para o otimismo. Uma delas tem a ver com esta juventude de que eu falei, com esta combatividade, com esta vontade de vencer obstáculos, e outra tem a ver com a qualidade da oposição, que é uma coisa que nem todos os países têm, não é?
Eu acho que para haver democracia, e uma democracia de sucesso, é preciso haver uma oposição de qualidade. Há países com democracias que parecem estáveis, mas que depois padecem disso: não têm uma oposição de qualidade.
Há algumas razões para o otimismo. Uma delas tem a ver com esta juventude de que eu falei, com esta combatividade, com esta vontade de vencer obstáculos, e outra tem a ver com a qualidade da oposição, que é uma coisa que nem todos os países têm
E em Angola existe uma oposição de qualidade?
Existe. Eu acho que a nível da oposição, Angola não se pode queixar muito.
Mas de que serve ter uma oposição de qualidade quando, até ao momento, não é conhecida qualquer alternância política na governação do país?
É verdade que não, mas também é verdade que ao longo das sucessivas eleições — mesmo em eleições que não seguem as regras, que são claramente fraudulentas —, mesmo assim a oposição tem vindo a conquistar cada vez mais lugares no Parlamento. E não há eleições presidenciais diretas, como sabe.
Há transformações que estão a ocorrer. Não se pode dizer que não está a acontecer nada em Angola, não. Há transformações que estão a ocorrer.
A oposição, diz-me, é de qualidade e vai aumentando os lugares no Parlamento. Quando é que poderá acontecer essa viragem e passar a existir alternância de poder? Deixar de ser sempre o mesmo partido...
Eu acho que mesmo o partido que está no poder tem consciência de que dificilmente ganhará as próximas eleições. Se continuar a tendência de perder 10% a cada data eleitoral, desta vez já não ganhará, não é? E há essa consciência, eu acho que existe essa consciência de que o MPLA está no fim do seu... Enfim. A menos que as coisas se alterem muito, que de repente haja grandes mudanças... Mas não é isso que estamos a ver.
Parece-me que existe a consciência de que o MPLA não irá ganhar as próximas eleições, e existe essa consciência até fora do país. Pela primeira vez, nas últimas eleições, a UNITA ganhou em Luanda com uma larga margem. E o MPLA, perdendo em Luanda, é muito significativo daquilo que irá acontecer nas próximas eleições, não é? Mesmo para fora. Os países e as forças políticas e económicas que têm sustentado o MPLA já perceberam também isso. E, portanto, a situação está em inverter-se também a esse nível e de apoios.
Acho que é por oportunismo. Portugal está do lado de quem tem o poder, porque quer fazer negócios
Parece-lhe que, de toda a forma, o próprio MPLA se transformou com João Lourenço em relação à Angola de antes, precisamente por sentir essa subida — e a qualidade também, como está a referir — da própria oposição?
Sim, mas essas transformações não têm sido suficientes. Há um desgaste tal, há um cansaço tal por parte da maioria da população que, ainda que haja algum esforço visível no combate à corrupção, por exemplo, isso não satisfaz as pessoas hoje.
Então, pode ainda haver mudanças, pode ser que aconteçam situações que eu não consigo imaginar agora e o MPLA consiga recuperar. O MPLA está extremamente dividido. Eu acho que o João Lourenço tem problemas dentro do partido extremamente graves. Se eu estivesse no lugar do João Lourenço, tentaria dialogar agora com a oposição e criar condições para que houvesse eleições honestas, sérias, justas e aceitar depois os resultados. Ou seja, eu negociaria no sentido de assegurar uma saída digna, porque o pior que pode acontecer ao João Lourenço não é a oposição ganhar as eleições. O pior que pode acontecer é alguém dentro do MPLA, que não esteja com ele, ganhar as eleições.
Quanto à construção da história angolana, que evolução tem havido no relacionamento com Portugal ao longo destes 50 anos?
A sensação que eu tenho é que os sucessivos governos portugueses, os partidos políticos portugueses na generalidade, têm sempre apoiado o regime angolano.
E isto também se sente ao nível das relações. Há essa ideia de que Portugal esteve sempre do lado do regime, sempre apoiou o regime. Já não falo de partidos políticos, falo da sociedade civil. Quando foi a situação do Luaty Beirão — da greve de fome do Luaty e dos seus companheiros — os partidos políticos portugueses, na sua maioria, não se mostraram sequer solidários com a sociedade civil, com Luaty.
Mas isso não poderá ser uma forma de evitarem a imagem de algum paternalismo em relação à Angola?
Não me parece. Acho que é por oportunismo. Portugal está do lado de quem tem o poder, porque quer fazer negócios, isso é absolutamente claro. Como esteve do lado do Apartheid. Portugal está sempre do lado de quem tem o poder.
Parece-lhe, apesar de tudo, que Portugal e Angola estão hoje mais próximos do que estiveram?
Se falarmos das sociedades civis, se falarmos de cultura, talvez sim. Do ponto de vista político, não mudou muito a situação... Não creio que tenha mudado muito.
Do ponto de vista das sociedades, aí sim. E não apenas entre Portugal e Angola. Acho que no mundo todo de língua portuguesa, tem vindo a acontecer uma aproximação crescente, um maior movimento de pessoas, as próprias tecnologias permitem maior reconhecimento mútuo. Portanto sim, acredito que existe um maior conhecimento mútuo.
Por outro lado, o avanço da extrema-direita na Europa, e em Portugal também, pode vir a dificultar isso, atenção. Quando os angolanos, os imigrantes africanos em Portugal são ostracizados, é natural que isso depois se reflita também nos países africanos. Ainda não aconteceu, mas creio que irá acontecer.
Quando os angolanos, os imigrantes africanos em Portugal são ostracizados, é natural que isso depois se reflita também nos países africanos. Ainda não aconteceu, mas creio que irá acontecer.
E o que é que acha que pode acontecer?
Eu tenho o receio de que possa surgir também em Angola, em Moçambique, noutros países africanos, uma extrema-direita... Ou seja, que possamos assistir a movimentos racistas, que evidentemente, neste caso, atingiriam os imigrantes que temos em Angola.
Atingiria também os próprios portugueses, eventualmente?
Poderia atingir os portugueses, atingiria os brasileiros, atingiria os estrangeiros que vivem em Angola. Sim, isso pode acontecer, de facto.
Como é que se pode travar isso?
Eu acho que esta é uma batalha global, não é? Eu tenho dito muito isto: pode travar-se através da leitura. Acredito que os livros, nesta época em que vivemos de construção de muros, de interdição dos outros, os livros fazem exatamente o contrário, a ficção faz o contrário. A ficção aproxima as pessoas, não é? A ficção coloca-nos no lugar do outro. Talvez os livros consigam ajudar-nos a fazer isso.