16 nov, 2025 - 14:06 • The Conversation/Reuters
Há 60 anos que o Irão não enfrenta uma crise assim. O problema? A pior escassez de água de que a população tem memória, estando em cima da mesa a hipótese de evacuar a cidade de Teerão.
As principais barragens que abastecem milhões de residentes estão praticamente vazias e as reservas de água subterrânea encontram-se severamente diminuídas. Muitas cidades atravessaram todo o outono sem um único dia de chuva.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Na capital, Teerão, e em Mashhad, a segunda maior cidade do país, no nordeste, alguns reservatórios estão abaixo dos 5% e dos 3% da sua capacidade, respetivamente.
As autoridades começaram a cortar o abastecimento de água durante a noite na capital, segundo relatos. O Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, chegou mesmo a alertar para possíveis evacuações caso “não chova em breve”. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram estudantes universitários a protestar contra a falta de água nos campi.
A escassez de água representa um sério risco para a segurança interna do Irão. No verão de 2021, protestos eclodiram na província de Khuzistão, no sudoeste, devido à grave falta de água. Meses depois, agricultores de Isfahan manifestaram-se contra o desaparecimento do rio Zayandeh-Rud.
Atualmente, em cidades como Xiraz (lar de marcos culturais icónicos como Persépolis), Isfahan e Yazd, o abatimento de solos está a rachar edifícios, colapsar estradas e a ameaçar monumentos, resultado da extração excessiva de águas subterrâneas que fragiliza o terreno.
Mais de 90% da água do país destina-se à agricultura, grande parte perdida em sistemas de irrigação ineficazes. Estudos revelam que a política de construção massiva de barragens — destinada a reforçar a autossuficiência alimentar e energética — perturbou ecossistemas naturais e contribuiu para o desaparecimento de importantes zonas húmidas e lagos, incluindo o Lago Urmia, outrora o maior lago salgado do Médio Oriente, agora reduzido a um leito de sal suscetível de provocar tempestades de poeira e sal.
Embora as alterações climáticas agravem a seca, a crise hídrica do Irão resulta sobretudo de má gestão. A aposta governamental na expansão agrícola e na construção de barragens tem ignorado critérios de sustentabilidade, enquanto a regulação limitada da extração subterrânea — com cerca de um milhão de poços, metade deles ilegais — esgotou aquíferos em grande parte do país.
A política externa iraniana e o seu isolamento também agravam o problema. As sanções dificultam o acesso a novas tecnologias, incluindo sistemas de irrigação avançados, monitorização via satélite de alta resolução (como dados InSAR, que detetam abatimento do solo), plataformas de IA, sensores inteligentes e ferramentas de agricultura de precisão.
Sem estas tecnologias, aumentam as ineficiências, acelera-se o abatimento dos solos e agrava-se a perda de recursos hídricos essenciais. As sanções desencorajam também o investimento estrangeiro, bloqueando inovações.
A fragmentação na tomada de decisões complica ainda mais a situação. Os ministérios da Energia e da Agricultura e o Departamento do Ambiente operam com prioridades divergentes: um constrói barragens e infraestrutura hidroelétrica, outro promove a expansão agrícola, e o departamento ambiental tem recursos insuficientes. Estas agendas contraditórias geram ineficiência, confusão e sobre-exploração da água.
A crise também tem dimensão transfronteiriça. O Irão partilha rios e lagos com o Afeganistão e o Iraque. Disputas como o prolongado conflito com os Talibã sobre o rio Helmand já aumentaram tensões.
À medida que lagos e rios secam, os seus leitos expostos transformam-se em fontes de poeira que viaja milhares de quilómetros, degradando solos e qualidade do ar em toda a região.
Cientistas, académicos e meios de comunicação discutem há muito as causas da crise. Muito menos debatidas têm sido as soluções — e se ainda é possível mudar o rumo. A resposta curta é: sim.
Com acesso a tecnologia moderna e financiamento — possível apenas com alterações na política externa e alívio das sanções — o Irão poderia inverter a tendência.
A curto prazo, é essencial travar a extração de água subterrânea através de monitorização rigorosa, instalação de contadores inteligentes nos poços e integração de dados de satélites com medições no terreno.
Ferramentas de monitorização em tempo real — usando satélites como Grace e Sentinel — podem identificar áreas críticas e orientar ações de emergência. O governo deve ainda inspecionar zonas afetadas por abatimento do solo, incluindo escolas, que historicamente sofreram danos significativos, e aplicar medidas imediatas como encerramentos temporários.
A médio prazo, os esforços devem centrar-se na eficiência e monitorização: recarga controlada de aquíferos com águas pluviais ou águas tratadas, irrigação de precisão, agricultura digital e sistemas de IA para programar irrigação podem reduzir drasticamente o desperdício.
Tecnologias de gémeos digitais têm demonstrado eficácia na gestão sustentável de recursos naturais. Projetos como o europeu AI4SoilHealth usam IA e big data para avaliar a saúde dos solos — ferramentas semelhantes podem otimizar a gestão da água.
A longo prazo, tudo depende da governação. O Irão necessita de uma autoridade nacional unificada para a água, que alinhe os setores da energia, agricultura e ambiente em torno da sustentabilidade.
São essenciais limites legais à extração de águas subterrâneas, diversificação económica para reduzir dependência de culturas intensivas em água, incentivos à irrigação eficiente e à reutilização de águas residuais, bem como ajustar o preço da água para refletir a escassez.
A crise ambiental do Irão é de origem humana — e a solução também pode sê-lo. Com reformas, tecnologia e governação adequada, o país pode estabilizar os seus recursos hídricos e garantir maior segurança à sua população.