21 nov, 2025 - 10:00 • José Pedro Frazão
Acumula as pastas do Ambiente, Clima e Assuntos Internos no governo de Tuvalu, país do Pacífico ligeiramente maior que a ilha do Corvo, mas menor que Porto Santo.
Do púlpito fez a crítica mais dura ao Presidente dos EUA que se ouviu nos discursos dos líderes na COP30. Doutorado em Teologia, Maina Talia diz que as dez mil pessoas de Tuvalu têm muita fé em Deus, mas não basta rezar, é urgente agir.
Em entrevista à Renascença, explica ainda que medidas estão a tomar naquela ilha para travar o impacto da subida do nível médio das águas que cercam aquele país no Pacífico.
O que acontecerá no seu país se o combate às alterações climáticas continuar por este caminho?
Face à subida do nível do mar relacionada com as alterações climáticas, é importante notar que Tuvalu tem apenas 26 quilómetros quadrados de terra com uma população de cerca de dez mil pessoas. A ilha mal se eleva a dois metros acima do nível do mar. Não há montanhas, o que significa que não há rios. Portanto, é uma pequena, pacífica e bela ilha no Pacífico Sul.
O desafio das alterações climáticas que enfrentamos é que assistimos à alteração dos padrões meteorológicos, mas não apenas isso. Também a maré está a subir a partir do solo e a vir das áreas laterais. Como não há um lugar mais alto para onde ir, isso torna as coisas mais difíceis.
A maior parte de Tuvalu é apenas uma faixa de terra. E as grandes questões são: quanto tempo temos para nos relocalizar? Teremos de nos mudar para o interior? E se o fizermos, a quem estaremos a invadir a privacidade?
Sendo apenas uma pequena faixa de terra, assistimos a secas e à subida do nível do mar, o que realmente desafiou o nosso modo tradicional de cultivo. Desde então, dependemos muito da importação de alimentos para sobreviver, por isso as coisas não estão bem.
De acordo com as previsões que continuamos a receber, Tuvalu será o primeiro a ficar submerso. Mas não é isso que queremos. O nosso povo tem coragem. O nosso povo continuará a lutar e a construir a sua resiliência para que possamos continuar a viver na nossa ilha.
Mas quando se trata de alterações climáticas relacionadas com os direitos civis, já sentimos o impacto. É uma realidade vivida por nós. E se alguém disser que não acredita nas alterações climáticas ou que as nega, convido-o a vir passar uma temporada comigo a Tuvalu e ver a coragem que tem que se ter para enfrentar esta realidade.
Percebi que queria reunir-se, por exemplo, com Donald Trump, para ir lá ver a situação.
Sim, mesmo que Trump venha ou não, o Presidente dos EUA continua a dizer que as alterações climáticas são uma farsa e uma fraude. Eu estava na Assembleia Geral das Nações Unidas quando ele fez o seu discurso no pódio e é lamentável que tenhamos uma visão distorcida dos EUA. É lamentável que estivéssemos à procura de soluções e de alternativas nos EUA e, infelizmente, retiraram-se do Acordo de Paris.
Mas, como foram os únicos a retirar, estamos gratos pelo resto do mundo ainda se manter unido, sabendo que, o que um país faz, não é nada comparado com o resto do mundo.
No pior cenário possível - que nem imaginam, porque dizem que todos os dias lutam contra isto -, a este ritmo e se nada for feito, há alguma previsão sobre quando Tuvalu deixará de existir?
Se a comunidade internacional não fizer nada para nos salvar, desapareceremos certamente da face da Terra. Algo que não imaginamos, algo em que não queremos pensar, que não queremos compreender: que um dia o nosso país estará submerso.
Quanto tempo temos? De acordo com a comunidade internacional, especialmente pelas previsões científicas, se o mundo não fizer nada nos próximos 50 anos, Tuvalu ficará submerso.
O que estamos a fazer, como políticos, é lutar até ao fim. Queremos continuar a responsabilizar os países, porque o nosso contributo para a questão das alterações climáticas é de 0,00001%. É quase nada, e ainda assim temos de sofrer à custa dos grandes países emissores, o que é muito injusto e inaceitável.
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Qual a medida de adaptação mais eficaz que pode ser utilizada em Tuvalu?
Neste momento, concluímos duas grandes áreas de aterro, que fazem parte do projeto de adaptação climática de Tuvalu. É um projeto caro, mas a Austrália está a ajudar-nos, assim como a Nova Zelândia e, claro, Taiwan.
A primeira área era de cerca de oito a nove hectares de terra, e a segunda, de cerca de sete hectares de terra nova.
Como é que isso é feito?
É um grande projeto de aterro em Tuvalu. Dragámos o solo e a areia da lagoa para construir. Por exemplo, o nosso projeto de adaptação costeira em Tuvalu com Taiwan tem 25 metros de comprimento no oceano e 400 metros de largura.
Já o outro projeto tem cerca de cem metros de comprimento na lagoa, e podemos calcular em oito hectares de terreno. É um aterro enorme. Não é só para proteger o nosso povo das cheias, e é muito alto, está a cerca de sete metros acima do nível do mar. É realmente muito alto.
Isto pode dar-vos tempo?
Sim, também para proteger o nosso povo, as nossas propriedades e dar-nos a capacidade de nos desenvolvermos.
Presumo que esta sensação de fragilidade de Tuvalu vem dos vossos antepassados. Tem havido uma aceleração do impacto das alterações climáticas em Tuvalu nos últimos 20 ou 30 anos?
Sim, somos uma nação natural, feita de coral, e vivemos lá há muitas e muitas décadas. Mas, por causa desta questão das alterações climáticas, estamos a ser obrigados a procurar outras alternativas.
Mas se falar com o nosso povo, os nossos anciãos, ninguém quer mudar-se. Se tiverem de se mudar, não será por causa das alterações climáticas.
Tem a ver com oportunidades de emprego. Tem a ver com educação, tratamentos médicos. Mas as pessoas têm sempre esta tendência de voltar para casa.
E as pessoas a sair, para onde vão?
As nossas pessoas normalmente migram para a Austrália. Assinámos um Tratado com a Austrália para permitir que 280 pessoas solicitem este visto permanente ao abrigo do acordo bilateral. Portanto, é uma via de migração que permite que as pessoas vão e vêm.
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Qual a importância para si das políticas baseadas no oceano discutidas a plataform copresidida pelo Brasil e pela França?
É importante, especialmente para nós, no Pacífico, para países que dependem totalmente do oceano para a sua sobrevivência diária. Por exemplo, não temos vacas. Não temos nenhuma outra forma de carne da qual possamos depender para além da carne de porco, mas dependemos muito do oceano para a nossa sobrevivência.
Dependem da pesca?
Sim, sem peixe na mesa não é uma refeição tuvaluana. Assim, é importante mantermos o oceano seguro para que possamos continuar a consumir e a comer o que ele oferece.
O que têm para oferecer aos turistas? Existe turismo em Tuvalu?
Temos poucos turistas. Isto é um bom sinal, porque mantemos as zonas costeiras intocadas, como as nossas praias. Mas, estando muito isolados do resto do mundo, isso dificulta a vinda de turistas.
Falou dessa recuperação de área. Que outras opções artificiais tinham?
isso faz parte das nossas medidas de adaptação. Também estamos a estudar recifes de coral artificiais, que possam suportar o calor e permitir que os peixes regressem à costa. Estas são algumas das opções que temos neste momento.
Acha que o mundo está cada vez mais preocupado com isso e que o problema está a resolver-se?
O mundo já entendeu os nossos problemas. Penso que é apenas uma questão de vontade política para agir. E é difícil, porque estamos a falar de um modo de vida muito peculiar. Por isso estamos a pedir-lhes que enfrentem a dependência dos combustíveis fósseis.
Estamos literalmente a falar sobre os seus estilos de vida e estamos a desafiar a forma como vivem.
Sentiu que esta COP foi diferente das outras em termos de auscultação da sociedade civil?
Aplaudo o governo do Brasil pela organização e também pela coordenação da operação da COP, alcançando alguns dos principais elementos para a participação dos povos indígenas e, claro, a proteção da floresta. Mas este é apenas o mesmo processo da ONU. Não importa se nos acolhemos. É um processo da ONU complexo e difícil de manobrar.
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É doutorado em teologia. Espiritualmente, como se sentem neste tipo de luta vista a fragilidade do vosso território e como se sente neste mundo?
Em termos de espiritualidade, as pessoas continuam a elevar a sua voz a Deus. A questão ética mais premente é: porquê nós? Por que razão o Senhor está a fazer isto connosco? Por que razão está a acontecer connosco? A nossa contribuição é quase nula. Não temos poder militar. Não temos fábricas na ilha e, no entanto, somos dos que mais sofrem. Mas, apesar de tudo isto, continuamos a ter fé em Deus.
Também compreendemos que não podemos apenas rezar ou esperar por um milagre. Precisamos de fazer algo, e é um esforço coletivo. Precisamos de pedir ao mundo que trabalhe em conjunto com este pequeno Estado insular para garantir a sua sobrevivência.
Será que é uma questão moral para todos nós?
As alterações climáticas devem ser abordadas numa perspetiva moral. Por exemplo, porque discutimos uns com os outros sobre como resolver isto? Sabemos bem que conhecemos as soluções, sabemos bem o que fazer. Mas, ainda assim, tudo se resume à política. Tudo se resume a uma corrida para acumular mais dinheiro, mais recursos. Tudo se resume à economia, trata-se de salvar as suas poupanças.
Para nós, trata-se da nossa sobrevivência, e para o Ocidente, trata-se de salvar as suas economias.
Quão importante é o local onde a próxima COP estará sediada?
É importante acolhermos a Conferência das Nações Unidas no Pacífico e é uma pena que isso não vá acontecer. O lado positivo é que a Austrália presidirá às negociações da COP, enquanto a Turquia terá a presidência cerimonial.
A conferência será realizada na Turquia, mas a COP será realizada no Pacífico. Isso é importante para nós, para o Pacífico. É importante porque, se a Austrália presidir às negociações da COP, isso dará ao Pacífico o espaço necessário para garantir que os nossos pontos da agenda estão na lista, especialmente a questão dos oceanos e da subida do nível do mar.
Estamos a falar na antevéspera do final da COP30. Acha que está a ir na direção certa ou não é suficiente para si?
Há muitas coisas que precisam de ser feitas. Reunimos com o Secretário-Geral da ONU. O nosso grupoAIOSIS [ Aliança dos pequenos estados-ilha] reuniu-se com o Presidente Lula porque há coisas que continuamos a defender como , por exemplo, a meta de 1,5 graus Celsius ligada ao relatório do IPCC.
Lembramos ainda ao governo do Brasil e/ou à presidência da ONU que é importante garantir que os objetivos do Acordo de Paris, são mantidos com base na melhor ciência disponível e em relatórios que precisam de ser bem preservados, mesmo com a meta de 1,5 graus. Esta meta do Acordo de Paris necessita de ser incorporada no texto final, tal como o parecer consultivo do Tribunal Internacional de Justiça, liderado por Vanuatu.
Qual deve ser o próximo tema para a próxima Conferência das Partes?
Deveria ser o oceano. Não podemos mudar o cenário da COP, mas será uma COP sobre o oceano, uma vez que o Pacífico está a liderar as negociações do presidente da COP através da Austrália. Os oceanos devem ser o tema abrangente para a próxima COP.
E o financiamento?
Não podemos excluir o financiamento da equação, porque faz parte do processo central. O que estamos a tentar acrescentar à agenda, é o oceano, que deveria ser o tema central e orientador da COP. Podemos falar do Acordo para 1.5 graus, podemos falar do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), podemos também falar do financiamento e de como aceder ao mesmo.Como vamos implementar o fundo para perdas e danos?
É preciso reforçar o financiamento?
Sim, presicamos de reforçar o financiamento relacionado com o oceano, claro. E incluir o oceano como parte da agenda do COP.