África
Dia de eleições na Guiné-Bissau, um país em suspenso
23 nov, 2025 - 08:52 • Eva Massy, enviada especial à Guiné-Bissau
Eleitores guineenses escolhem este domingo o próximo Presidente da República e os 102 deputados do Parlamento, que está suspenso há dois anos. Umaro Sissoco Embaló vai tentar a reeleição, numa votação marcada pela ausência do histórico PAIGC.
Depois de uma campanha em clima de grande expectativa na Guiné-Bissau, este domingo, mais de 966 mil eleitores são chamados às urnas para escolher o próximo Presidente da República e os 102 deputados do Parlamento, dissolvido em 2023 após uma alegada tentativa de golpe de Estado e inativo desde então.
Doze candidatos disputam a Presidência, entre eles o chefe de Estado cessante, um antigo Presidente e um antigo primeiro-ministro. Estas eleições, inicialmente previstas para 2024 e adiadas pelo Presidente por “motivos de segurança”, ficam marcadas pela ausência inédita do PAIGC — o partido histórico da independência e da democratização — afastado do processo por decisão do Supremo Tribunal de Justiça.
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A exclusão do PAIGC e do seu líder, Domingos Simões Pereira, abriu espaço a uma nova configuração da oposição. É Fernando Dias, candidato independente e membro do PRS, quem lidera agora o campo opositor, fortalecido pelo apoio formal do PAIGC.
Bissau vive dias intensos: as ruas estão movimentadas, os apoiantes de Umaro Sissoco Embaló vestem camisolas com a fotografia do Presidente, enquanto os simpatizantes de Fernando Dias exibem o característico gorro de Amílcar Cabral. Carros adornados com as cores dos restantes 10 candidatos circulam pela capital, simbolizando a multiplicidade de forças em disputa.
Durante duas semanas, os candidatos percorreram o país de Norte a Sul, num esforço final para conquistar eleitores, antes do regresso à capital, esta sexta-feira, onde foram recebidos por multidões. Umaro Sissoco Embaló encerrou a campanha num espaço verde no norte da capital, reafirmando a convicção de que vencerá “sem qualquer dúvida” e logo à primeira volta.
As infraestruturas no centro do discurso presidencial
Os seus apoiantes destacam os investimentos em infraestruturas realizados no mandato: estradas asfaltadas no centro da capital, edifícios públicos renovados e a reabilitação do aeroporto Osvaldo Vieira. Em 2025 foi inaugurada a primeira autoestrada do país, num troço de 8,5 quilómetros entre o aeroporto e Safim. Estão igualmente previstos novos projetos, como o porto comercial de Bandim, considerado essencial para desenvolver o setor das pescas, até agora estagnado e sem investimento.
O economista guineense José Nico defende que o porto poderá receber navios de grande porte, abrindo novas rotas comerciais, inclusive com países sem acesso ao mar, como o Mali ou o Burkina Faso. Para o investigador do INEP, trata-se de “uma das melhores decisões dos últimos cinco anos”, embora alerte que as obras ainda não arrancaram.
Economia: crescimento vs. realidade social
Apesar de três alegadas tentativas de golpe de Estado durante o mandato, Embaló apresenta um crescimento económico de cerca de 4% do PIB em 2023, segundo o Banco Mundial.
Porém, José Nico sublinha o paradoxo entre os indicadores e a realidade: “Os números não se refletem na vida dos guineenses. A maioria vive com menos de 800 francos CFA por dia — cerca de um euro — e o salário mínimo, fixado em 500 mil francos CFA, deveria ser revisto para que a riqueza do país tenha impacto real.”
Exclusões políticas e suspeitas sobre o processo
Entre os guineenses, murmura-se que o ambiente político foi moldado para favorecer a reeleição do Presidente. Diversas coligações opositoras foram excluídas, entre elas o PAI Terra Ranka, liderado pelo PAIGC, e a API-Cabas Garandi, ligada ao PRS. O Supremo Tribunal de Justiça justificou as exclusões com “atrasos” na entrega das candidaturas, embora o PAI Terra Ranka garanta ter apresentado toda a documentação quatro dias antes do prazo.
Para figuras da sociedade civil, como Magda Correia, porta-voz do Conselho das Mulheres Mediadoras, o afastamento do PAIGC “contradiz a sua história”, lembrando que foi o partido que abriu caminho ao multipartidarismo em 1991.
Bubacar Turé, presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, considera a decisão “puramente política” e recorda que tanto o Supremo Tribunal como a Comissão Nacional de Eleições enfrentam polémicas sobre a legitimidade dos seus dirigentes.
O surgimento de Fernando Dias como principal rival
O principal adversário que Embaló não esperava surgiu precisamente deste cenário: Fernando Dias, 47 anos, estreia-se na corrida presidencial com o apoio explícito de Domingos Simões Pereira. Juntos, percorrem o país, falam lado a lado nos comícios e surgem em conjunto nos cartazes eleitorais. Fernando Dias promete aplicar o programa do PAIGC em caso de vitória, contando com a sólida base eleitoral do partido, que venceu com maioria absoluta nas legislativas de 2023.
Nos últimos dias, a oposição denunciou raptos e agressões a ativistas, bem como a expulsão de jornalistas portugueses. As equipas da Lusa, RTP e RDP foram suspensas e intimadas a abandonar o país, sem qualquer explicação oficial. Também ocorreram episódios de violência contra profissionais dos media, como o jornalista Waldir Araújo, da RTP, e contra figuras da sociedade civil, como o advogado Luís Vaz Martins.
Outros candidatos e propostas alternativas
Apesar de excluído do escrutínio, o PAIGC mantém uma presença marcante nas ruas de Bissau. Outros candidatos tentam conquistar espaço, entre eles três antigos dirigentes do partido que entretanto criaram ou integraram novas formações.
João Bernardo Vieira, sobrinho do primeiro Presidente democraticamente eleito e assassinado em 2009, propõe uma Comissão Nacional de Reconciliação para mitigar tensões políticas e étnicas que emergiram na campanha. Baciro Djá, antigo primeiro-ministro, promete realizar eleições “inclusivas” caso vença, enquanto José Mário Vaz, Presidente entre 2014 e 2019, afirma querer regressar para “concluir o trabalho inacabado”.
A agricultura domina a agenda de todos os candidatos. A Guiné-Bissau depende quase exclusivamente da castanha de caju, da qual exporta matéria-prima mas transforma muito pouco localmente. “Se o país tivesse capacidade de transformação industrial, o desemprego seria muito menor”, defende José Nico.
O setor das pescas enfrenta desafios semelhantes: embora o país disponha de vastos recursos, cerca de 90% do pescado é descarregado em Dakar, no Senegal, devido à falta de infraestruturas em território nacional. Segundo a associação de pescadores, o setor poderia gerar milhões de euros anuais para o Estado.
Participação feminina ainda muito limitada
No campo político, a participação das mulheres continua insuficiente. A lei da paridade, aprovada em 2018 e que determina uma quota mínima de 36% de mulheres em cargos de decisão, permanece largamente na gaveta.
Entre os 12 candidatos presidenciais, não há nenhuma mulher, e apenas um dos 14 partidos que concorrem às legislativas é liderado por uma mulher. Para Magda Correia, “a política guineense continua a ser um espaço de confrontação extrema, onde a mulher dificilmente se insere”.
Bissau está coberta de cartazes eleitorais e a campanha domina conversas em cafés, mercados e táxis. Os guineenses pedem escolas, hospitais dignos, salários pagos atempadamente — e, acima de tudo, paz. Num país que registou quatro golpes de Estado desde a independência e 17 tentativas, Embaló é apenas o segundo Presidente a concluir o mandato.
Entraves ao desenvolvimento
A instabilidade política tem travado o desenvolvimento económico e afastado investidores, impedindo o país de explorar os seus recursos naturais. Não existe atualmente qualquer infraestrutura de extração, embora estudos apontem para a presença de petróleo, bauxite e areias pesadas. Em julho de 2025, Embaló esteve na Casa Branca e convidou o Presidente Donald Trump a investir no país, sublinhando o seu potencial.
Em novembro, a petrolífera norte-americana Chevron anunciou a entrada na Guiné-Bissau através de duas licenças de exploração offshore no âmbito da subsidiária Chevron Guiné-Bissau Exploration. A empresa deterá 90% dos blocos atribuídos, enquanto a empresa nacional Petroguin ficará com 10%. A operação recebeu aprovação das autoridades, apesar de o Parlamento não funcionar desde 2023.
O desejo de paz num país marcado por golpes e instabilidade
A retórica com conotações étnicas, repetida ao longo da campanha, continua a ser alvo de críticas da sociedade civil, que apela ao “apaziguamento dos discursos” para evitar uma escalada num país marcado por décadas de instabilidade política.
Imprensa
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Os dois principais candidatos, Umaro Sissoco Embaló e Fernando Dias, representam igualmente os dois maiores grupos étnicos do país: Embaló é de origem fula, enquanto Dias pertence à etnia balanta.
Para o defensor dos direitos humanos Bubacar Turé, é crucial recentrar o debate político: “Há vida para além das eleições. Mais do que tudo, os guineenses precisam de se reencontrar e trabalhar em conjunto para concretizar transformações sociais e económicas. O que o povo exige é acesso à educação, a serviços de saúde e a oportunidades de emprego para os jovens.”
Os números confirmam um interesse crescente pelo escrutínio: há mais 42 mil eleitores registados do que nas legislativas de 2023.
Este domingo, os guineenses elegem não só o Presidente da República, mas também um novo Parlamento — instituição ausente desde 2023, quando Umaro Sissoco Embaló dissolveu a Assembleia Nacional Popular na sequência de uma presumível tentativa de golpe de Estado.
A tensão eleitoral fez-se sentir nos últimos dias. Na sexta-feira, militares patrulhavam as ruas de Bissau, vários eixos principais foram bloqueados e o espaço aéreo foi encerrado, com todos os voos civis, privados e comerciais suspensos durante o sábado e o domingo.











