"Estamos treinados para a fome". Em Caracas, há zonas sem luz e supermercados perto da rutura
05 jan, 2026 - 06:38 • Alexandre Abrantes Neves
Denis Gonçalves, luso-venezuelano, descreve um cenário "tranquilo" nas ruas, mas de apreensão: as corridas ao supermercado podem levar rapidamente a falta de alimentos e ainda há muitos problemas na rede elétrica e de comunicações móveis. Em muitas lojas, só se entra depois de bater à porta e as escolas e universidades não sabem quando reabrem.
As explosões em Caracas e a instabilidade depois da captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos da América (EUA) fizeram Denis Gonçalves, empresário luso-venezuelano, não sair de casa durante mais de um dia – foi o que mais lhe custou, mais até do que a falta de luz. “Mas agora já saí de casa. Antes, Caracas estava completamente vazia. Agora menos”, revela à Renascença, numa conversa à distância.
Andar pelos passeios à beira da estrada assemelhou-se a uma experiência inédita para Denis que, na sexta-feira à tarde, quando fechou as lojas de apostas que gere na capital venezuelana, jamais pensou que iria começar a semana seguinte a ter de comprar comida ao postigo ou a ter de bater à porta para entrar no supermercado.
“As lojas mais pequenas começaram a abrir, mas com uma particularidade que é trabalhar com as portas fechadas. Eles só deixam passar pequenos grupos de pessoas a fazer as compras nas mercearias, nos pequenos comércios de comida”, refere, acrescentando que muitos estabelecimentos ainda estão a meio gás. “Não têm o pessoal completo a trabalhar, estão a metade”.
As mãos são, por isso, poucas, seja nos pequenos supermercados ou nas farmácias – ainda para mais numa altura em que é preciso lidar com a correria da campaínha, mas também com a ansiedade dos clientes.
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“Obviamente que há umas lojas que estão a ficar sem nada, porque as pessoas estão a comprar com um pouco de nervos do que pode ocorrer. E normalmente, na Venezuela, tomam-se férias nos primeiros dias de janeiro. Isto já é uma complicação habitualmente, porque alguns negócios ficam com quebras no inventário”.
Mas a possibilidade de passar fome não assusta tanto quanto se pensa. “Nós, os venezuelanos, estamos tão acostumados… Em 2017, 2018, passámos realmente fome. Já estamos treinados nisto”, esclarece, com um riso nervoso.
Sem luz e "na expectativa"
A chamada entre Denis e a Renascença é mantida através de uma ligação de internet, a única forma de conseguir comunicar à distância sem cortes de rede.
“Há muitas, muitas zonas, não só em Caracas, na Venezuela, que ainda estão sem eletricidade, sem telemóvel. Agora está muito difícil as comunicações por telemóvel, só via internet e via WhatsApp é que se faz mais fácil. A rede telefónica normal está um pouco difícil ainda”, explica.
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Isto dificulta o regresso da pausa do Natal nas escolas e universidades, complica a assistência nos hospitais que continuam a funcionar e também reduz os passatempos para as horas vagas, que agora são muitas. Denis diz que agora não quer outra coisa se não passear – até porque o ambiente nas ruas é calmo.
“As pessoas estão tranquilas”, revela, para afastar logo de seguida a tese de que, normalmente, a instabilidade política leva a pilhagens e caos nas ruas. “Há uma sensação mais segura nos negócios. Agora assaltos coletivos de negócios… Pode ocorrer. Mas acho que foi uma das coisas de Donald Trump para deixar a vice-presidente Delsey Rodriguez, porque ela pode controlar os coletivos. Se tivesse sido uma troca muito forte, muito radical, penso que o país teria virado”.
Apesar de haver "algum medo" sobre o futuro político do país, a população já aprendeu a esperar com "calma e silêncio". "Todos queríamos o que passou. Estamos iguais à altura das presidenciais [em agosto 2024]. Ninguém falava, mas todos saíram para votar e sabem quem ganhou [Edmundo González]", relembra.
Agora só lhes resta esperar - pela "transição pacífica" que tanto pedem". "Estamos na expectativa de ver o que vai ocorrer nos próximos dias, nos próximos meses", resume.













