08 jan, 2026 - 17:00 • Ariana Cruz
“Nós não escolhemos Portugal. Quando deixámos o Afeganistão, não sabíamos para onde íamos”, começa por explicar à Renascença Hamed Hamdard. Está no país há quase cinco anos, com estatuto de refugiado. Fugiu com as três filhas e a mulher uma semana depois das tropas norte-americanas do Afeganistão terem partido e os Talibã terem regressado ao poder, em agosto de 2021. Para trás deixaram uma “vida muito boa”, mas que acabou naquele dia 15 de agosto.
“Pedimos para ir ou para a Alemanha, a Dinamarca ou a Suíça, porque temos família lá. Mas as forças da NATO disseram-nos que não. Aterrámos em Madrid e reforçámos o pedido, mas recebemos a mesma resposta. Soubemos que o destino era Portugal e ficámos com medo. Não tínhamos aqui família, não percebíamos a língua, mas tínhamos de vir. Passados quatro anos e sete meses, eu adoro Portugal. Este país é a minha casa!”, conta.
Chegaram a Portugal apenas com uma mala e muitos medos. “Do que eu sinto mais falta [do Afeganistão] é da minha identidade. Aqui é só uma: ser refugiado, e é tudo o que temos. Quem somos, o nível de educação, de inteligência, as nossas ligações sociais, a minha vida de 42 anos, perdi tudo. Agora somos refugiados. É só isso”.
Hamed Hamdard é um dos convidados do Festival Internacional de Cinema sobre a Migração, que se realiza esta quinta-feira, 8 de janeiro, no Cinema São Jorge, em Lisboa. Às 17h participa no debate que antecede o filme “Limbo”, a exibir às 19h. O filme de Ben Sharrock retrata um grupo de requerentes de asilo que estão temporariamente instalados numa ilha remota, na Escócia, enquanto esperam por respostas aos seus pedidos.
O Festival é coorganizado pelo KAICIID – Centro Internacional de Diálogo, pelo Centro Regional de Informação das Nações Unidas para a Europa Ocidental (UNRIC) e pela OIM — Organização Internacional para as Migrações.
“Eu era trabalhador do governo, trabalhava com matéria internacional, o risco de ser morto era ainda maior.” O medo de deixar a família desfalcada inquietava-o e fê-lo entrar no grupo do WhatsApp “UE Evacuation”. “Recebi uma mensagem a dizer que tínhamos duas horas para chegar ao local da evacuação. Neste tempo, mais de 22 mil pessoas estavam juntas, prontas para sair”, contou.
Em duas horas, Hamed e a família enterraram a vida que tinham. Tudo ficava ali. O esperado era fazerem as malas e sair, mas não houve tempo. Consigo, levaram apenas uma mala com documentos e um par de mudas de roupa. Nada mais. “Liguei a um amigo. Deixei-lhe as chaves de casa e dos carros e disse-lhe que ia sair do Afeganistão”, partilhou Hamed.
“Os talibãs estavam a prender e a matar quem trabalhava com o governo. Tenho três amigos que nem chegaram a ser presos, foram mortos no interrogatório. Os talibãs podiam mandar-me para a prisão, matar-me. Se eu perdesse a minha vida na prisão, as minhas filhas e a minha mulher não iam ter uma vida no Afeganistão. Neste momento, as mulheres não têm acesso à educação, à saúde, ao mercado de trabalho, são todas máquinas de produção de bebés. Eu saí do Afeganistão para sobreviver, para cuidar da minha família. Nós não pensamos que vínhamos para a Europa ter uma vida muito melhor, só queria sobreviver”
A vista era “muito bonita”, mas, à chegada, Portugal era “um quarto sem luz”
Quando aterraram no Aeroporto de Lisboa, os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), receberam Hamed e a família de forma calorosa. "Deram brinquedos às minhas filhas, ofereceram café à minha mulher", ainda assim, isso não o preenchia nem apaziguava. “Eu observava a vista, que estava muito bonita, mas eu não via a beleza do país. Eu tinha medo. Questionava-me como teríamos uma vida aqui, não temos família, não falamos a língua, a religião é diferente. Perguntava-me se nos aceitariam”, complementa.
“Portugal é lindo, mas víamo-lo como um quarto sem luz”, acrescenta.
As mulheres não têm acesso à educação, à saúde, ao mercado de trabalho, são todas máquinas de produção de bebés. (...) Nós não pensamos que vínhamos para a Europa ter uma vida muito melhor, só queria sobreviver”
“Nós não escolhemos Portugal. Quando saímos do Afeganistão, não sabíamos para onde íamos. Pedimos para ir ou para a Alemanha, ou para a Dinamarca ou Suíça, porque temos família lá. Mas as Forças Armadas da NATO disseram-nos que não era tempo de discussão. Aterramos em Madrid e reforçamos o pedido, mas recebemos a mesma resposta. Soubemos que o destino era Portugal e ficamos com medo, não tínhamos família, não percebíamos a língua, mas tínhamos de vir. Passados quatro anos e sete meses, eu adoro Portugal, este país é a minha casa e agora se me perguntarem se quero ir para a Alemanha, digo que vou, mas só passar férias. A seguir, volto para Portugal. O povo respeita-nos muito, dá-nos imenso amor e o Governo fez muito por nós. Queremos retribuir tudo.”
Diz que no início foram períodos conturbados. “Nos primeiros nove meses, não tivemos trabalho, foi muito difícil para nós. Demoramos imenso tempo a perceber como Portugal funcionava nas coisas mais básicas.” Mas Hamed diz que os ‘angels’ que se cruzavam com a sua família acabavam sempre por ajudá-los muito. “Nós chamamos o povo português de ‘angels’, ajudaram-nos sempre muito, somos uns sortudos”.
A Câmara Municipal de Sintra está também na lista de agradecimentos desta família, que recebeu da autarquia um T2 para poder reconstruir a sua vida. Durante dezoito meses, não pagaram renda – o apoio aos refugiados é superior neste período. Agora asseguram o pagamento.
Na escola, as três filhas do casal também tiveram uma adaptação exigente. No primeiro ano, a barreira da língua impossibilitou-as de ter amigos, mas, em contrapartida, Hamed diz que “os professores se demonstraram muito disponíveis para as integrarem”. Hoje, estão no 12.º ano, são boas alunas e falam muito bem português.
Ainda assim, em casa, quando falam da sua terra natal e vêm fotografias, as filhas e a mulher emocionam-se, com saudade. partilhando a saudade que sentem da vida que ficou lá atrás. Quando questionado pelas filhas se algum dia será possível regressar ao Afeganistão, Hamed é pouco esperançoso. “O mundo está preocupado com outros países e a cada dia que passa os talibãs ganham mais poder”.
“O mais difícil foi a vida que deixamos para trás. A nossa vida. Ficou tudo lá”.
E alguma vez foram vítimas de racismo em Portugal? “Nos primeiros dois anos, não vimos nenhum racismo, mas agora está mais presente devido aos políticos e muito pelo que está no social media, assim como nos canais de televisão. A mentalidade de algumas pessoas está mudar e muito devido a este discurso”. Mas, apesar da mudança da mentalidade, diz que os portugueses “adoram a humanidade e respeitam a liberdade”.
No filme “Limbo”, Omar, um jovem músico sírio, carrega consigo o alaúde do seu avô. Também Hamed trouxe consigo um objeto de família do Afeganistão: “Sim, eu tenho duas coisas da minha mãe. Quando saímos do Afeganistão, trouxe-as comigo: a primeira é um iPad que tem gravações de voz da minha mãe a contar a sua história, a sua vida. A segunda coisa é um “pray beats”. Nós, os muçulmanos, quando rezamos, usamos sempre um “pray beats". É muito bonito e a minha mãe usava-o sempre para rezar no Afeganistão”.
Numa ronda de perguntas rápidas, qual é a melhor coisa de Portugal?
“O clima.”
Portugal dá-lhe esperanças de progresso?
“Com certeza.”
E Portugal numa palavra?
“Meu amor.”
Hamed está agora novamente desempregado depois de ter terminado o projeto em que trabalha no JRS Portugal – Serviço Jesuíta aos Refugiados. Mas acredita que a situação se reverterá em breve.
Fica a gratidão a um país que quer tornar seu e que já sente como sua casa. Diz adorar a bandeira, respeitar e aceitar os costumes, valores e tradições. Aos “angels” e ao Governo fica a intenção forte e decidida de querer retribuir tudo o que lhe deram e que fazem pela sua família.
De acordo com o Relatório de Migrações e Asilo 2024, elaborado pela AIMA, no ano de 2024, pediram proteção internacional a Portugal 2.677 pessoas, perseguidas por motivos de raça, religião, nacionalidade, pertença a um grupo social específico ou opiniões políticas. 58,2% dos requerentes de asilo eram provenientes do continente africano.