13 jan, 2026 - 19:51 • Ariana Cruz
Voltaram ao Irão, como fazem regularmente, mas foram apanhados pela onda de protestos. Joe, nome fictício, não consegue falar com a irmã e com o pai há “cinco dias”, devido ao bloqueio da internet. O regresso está marcado para daqui a duas semanas, mas é incerto. A única coisa que sabe é que “100% da família está envolvida nos protestos”.
Já se passaram 14 anos desde que Joe, os pais e a irmã a abandonaram o Irão e escolheram a Noruega para viver. À data, Joe tinha apenas quatro anos, “era muito pequeno” e lembra-se de “muito pouco”. Mas as memórias da sua terra Natal não se fecharam numa gaveta, renovam-se gradualmente, uma vez que Joe e a família viajam com frequência para visitar os tios, os primos e os amigos que não saem do país, porque “o regime não deixa”.
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“Nem mesmo para ir de férias. É impossível sair do país. Eles controlam tudo”, conta.
Para Joe e a para a família chegada, o percurso foi diferente. “Pagamos a uma pessoa e alugamos um avião privado. Era a única forma de sair.” Seria de esperar que talvez não regressassem mais à antiga Pérsia, por medo de sofrerem sanções por parte do regime, mas Joe explica que “o Irão é um país corrupto”.
E acrescenta: “A corrupção é dos maiores problemas do país. Quando chegamos de férias, pagamos no aeroporto para manterem segredo e deixam-nos entrar.” E o mesmo acontece quando regressam à Noruega.
A entrada, contudo, não é feita de forma pacífica para o iraniano. O Joe que o Irão conhece não é o mesmo a Noruega conhece. Quando o jovem estudante de 18 anos e família regressam ao país do Médio Oriente, têm de “esconder a identidade”. “Tenho de apagar tudo. Todas as minhas redes sociais, o que publico online. Tenho de me vestir consoante as suas regras e imposições. A minha irmã tem de usar hijab – o véu islâmico -, não somos livres”. Uma das coisas que mais o atordoam é precisamente o Irão “não ser um país livre”.
Quando voltam à casa antiga, têm de deixar tudo o que são à porta. E caso isso não aconteça, sofrem “punições severas por parte do regime”. Mesmo que seja apenas um elemento da família a desrespeitar alguma regra, a punição não se aplica apenas a ela, mas à restante família. O iraniano recorda o caso de Masha Amini, uma iraniana de 22 anos que foi espancada pela polícia da moralidade do Irão, em 2022, por “desrespeitar o código de vestimenta islâmico do Irão” acabando por morrer pouco tempo depois, na sequência dos ferimentos. Em causa, estava o “uso inadequado do hijab”.
A maioria da sua família é muçulmana e, por isso, usar hijab e vestir-se de acordo com as normas muçulmanas “não seria um problema”, mas Joe gostava apenas que “isso fosse uma decisão deles e não algo imposto pelo regime”. Apesar de a maioria dos iranianos seguir o islamismo, Joe é cristão, porque sentiu que era a isso que era “chamado”. “Sou um jovem cristão, não sei explicar, sinto-me em casa”, comenta.
Estudantes e comerciantes saíram à rua no dia 28 de dezembro de 2025 para protestar contra a desvalorização da moeda e a deterioração da situação económica no Irão. Um protesto que começou com motivações económicas, rapidamente ganhou contornos antigovernamentais, com mensagens antirregime e estendendo-se às 31 províncias.
Pouco sabe sobre quem lá está. Não consegue falar com a sua família, incluindo a irmã e o pai que viajaram recentemente. Joe conta que “o bloqueio de internet não é uma coisa nova”. O mesmo aconteceu em 2022, com a morte de Masha Amini. O mundo reagiu com protestos e, na tentativa de se “esconder o que tinha acontecido no Irão”, o regime “bloqueou-lhes a internet”. Mas já era tarde. Já se partilhava a história da jovem iraniana em todos os lugares e plataformas.
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O mesmo tenta fazer Joe. Utiliza as redes sociais para partilhar a situação atual do Irão e de que forma é que isso está a afetar a sua família. O seu desejo imediato é consciencializar e chegar ao máximo de pessoas possível. O desejo para a sua terra natal é que se torne “num país livre e numa democracia”, onde qualquer um pode escolher ser “o que quiser” e agir da “forma que quiser”.
A voz trémula denuncia a preocupação que Joe sente acerca dos familiares no Irão. Já que, na sua família, “100% das pessoas das pessoas estão contra o regime”, fazendo eles também parte dos manifestantes. Contados dezasseis dias desde o início dos protestos, Joe não acredita nas “quinhentas mortes”. “De certeza, que há muito mais mortes do que essas”, reflete, acrescentando que mesmo as forças de segurança se têm juntado aos protestos “as pessoas só agem a favor do regime, porque são forçadas a fazê-lo”.
Quando questionado sobre se gostaria de voltar ao Irão, os seus olhos brilham, o sorriso aparece e de forma veloz responde afirmativamente. No entanto, faz um asterisco para dizer: “Mas não para viver.” No seu ponto de vista, a “educação não é tão boa como na Noruega” e a situação económica está difícil, incluindo para alimentos básicos como a carne e o arroz. “As famílias não são ricas, não se vive bem no Irão”, partilha Joe.
O iraniano de 18 anos espera agora o regresso da irmã e do pai. Desde a Noruega, tenta manter contacto com os familiares que estão no Médio Oriente, mas sem sucesso há já cinco dias. A mãe “passa os dias a ver voos para o Irão”, mas todos eles têm sido “cancelados”, tornando-se impossível a sua ida. O cenário parece não acalmar, mas Joe espera que os protestos terminem “com o fim do regime”.