Portugueses na Dinamarca

Gronelândia. Interesse dos EUA gera "inquietação", mas "não é levado a sério como deveria"

14 jan, 2026 - 10:08 • André Rodrigues

A Renascença falou com portugueses em Copenhaga: uma gestora de patente industrial, um consultor farmacêutico e um especialista em relações internacionais. Admitem que os dinamarqueses estão habituados à discussão sobre o controlo da Gronelândia. Mas o ponto é outro: Trump é imprevisível, "não sabemos o que pode fazer amanhã".

A+ / A-

Os portugueses que vivem na Dinamarca admitem que “há uma inquietação” em torno das intenções dos Estados Unidos em assumir o controlo da Gronelândia, mas consideram que o tema “ainda não é levado a sério da forma como talvez devesse”.

Ana Eugénio, consultora de patentes industriais, vive há vários anos na Dinamarca. Diz que está habituada a que a questão gronelandesa seja recorrente, por causa do interesse estratégico que o território desperta nas grandes potências.

“A motivação que os Estados Unidos alegam de segurança, na opinião de todos com quem eu tenho falado, é absolutamente falsa. A motivação única que eles têm na Gronelândia são os minérios: o lítio, o cobre, o ouro, que são muito importantes na indústria dos veículos elétricos e outras indústrias”, constata.

É também essa a leitura de Carlos Mariano Carvalho. Em declarações à Renascença a partir da capital dinamarquesa, este consultor na área farmacêutica reconhece que o tema da Gronelândia “é um bocadinho como tempo, surge sempre, mas não como grande preocupação” entre os dinamarqueses.

“Vejam o Borgen”

“As pessoas preocupam-se mais numa big picture um bocadinho maior do que a Gronelândia, numa perspetiva do que será 2026 em termos militares, políticos, porque começou de uma maneira que ninguém esperaria”, refere.

Mas Trump pode ser imprevisível. Este português diz estar ciente disso “e não sabemos o que ele pode fazer amanhã”.

Carlos acredita que a intenção norte-americana passe por um reforço da presença militar no Ártico, “fazendo esta conversa à volta de uma intervenção militar e depois acabando com um bom acordo para os Estados Unidos”.

A disputa do Ártico sempre esteve no centro da política externa dinamarquesa. Há uma série fantástica que deu na RTP2 e que atualmente está na Netflix, que é o Borgen, vejam o Borgen, que retrata exatamente isto”, acrescenta.

EUA têm “a faca e o queijo na mão”

Já Diogo Santos, especialista em relações internacionais radicado na Dinamarca, afasta um cenário de intervenção militar norte-americana. Mas admite que Trump “tem a faca e o queijo na mão em termos de segurança europeia” e está a aproveitar as divisões que enfraquecem os parceiros europeus.

Ao ponto, diz este português, de a Europa ser visto como um ator ultrapassado e obsoleto no xadrez internacional.

“Aqui eu tenho contacto com muitas pessoas, nomeadamente da China, que me dizem: nós aqui já nem falamos de vocês… a Europa está ultrapassada”.

Quando chegou há dois anos e meio à Dinamarca, Diogo Santos sentia que os dinamarqueses “viam os Estados Unidos como um grande irmão em termos de defesa e que a NATO estava lá e era representada pelos Estados Unidos, a segurança europeia seria assegurada por eles”.

A insistência de Donald Trump em tomar posse de um território sob a alçada da soberania de Copenhaga é, por isso, vista como uma traição.

Este jovem especialista em relações internacionais lembra o empenho de forças armadas dinamarquesas na guerra do Afeganistão e recorda que “a Dinamarca foi o país que perdeu mais pessoal militar em comparação à população”.

“Ou seja, quando eles precisavam tiveram a nossa ajuda e agora estão a fazer-nos isto? Sente-se muita frustração”, remata.

Esta quarta-feira, representantes diplomáticos da Dinamarca e da Gronelândia vão ser recebidos na Casa Branca pelo vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, e pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

À insistência norte-americana em tomar posse da Gronelândia, o primeiro-ministro daquele território no Ártico já disse que prefere permanecer sob alçada dinamarquesa.

Saiba Mais
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+